O que ando a ler | viagens no scriptorium

Vista dos confins mais distantes do espaço, a Terra não é maior que uma partícula de poeira. Lembre-se disso na próxima vez que escrever a palavra “humanidade”.

Paul Auster, em “viagens no scriptorium”


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Quando completou cinquenta anos, Paul Auster escreveu — para celebrar o momento — o livro “da mão para a boca”… revelando um medo bastante comum entre os humanos: fracassar. Sua vida literária não parecia nada promissora no início e ele cogitou seguir outros caminhos. Mas, o sucesso veio… através do roteiro do filme smoke, que tem Wiliam Hurt no elenco.
Eu me apaixonei pelo Auster que descobri através de seu caderno vermelho — um pequeno livro, dividido em quatro partes, em que o autor brinca com o impossível: se algumas coisas não tivessem dado tão erradas, outras não teriam dado tão certo.
Acabei seduzida pela escrita laboratorial do autor… que me fez unir pontos em meu mapa particular de vivências. Experiência que me fez ir atrás de outros livros — com o conhecido receio que me é peculiar, afinal, já me decepcionei com vários autores em seus segundos livros. Recentemente foi sebastian barry quem me deixou a deriva. Com Auster, no entanto, não houve decepções e eu sigo em estado de espera, como quem aperta o botão da cafeteira, para tomar um delicioso expresso.
E, foi devido a uma oficina literária — ministrada por mim, no primeiro semestre —, que busquei por viagens no scriptorium na prateleira, para apresentar o autor-e-o-livro aos meus alunos… e com o livro em mãos, me vi obrigada à releitura.
Auster brincou com sua condição de escritor e se ofereceu a nós — seus leitores — na condição de personagem principal, que está preso em um quarto, cuidado por seus  próprios personagens. Combalido fisicamente, ele precisa de ajuda até para ir ao banheiro. A memória está comprometida e, para auxiliá-lo, há etiquetas — no melhor estilo beckettianas — indicando a identidade das coisas a sua volta: parede, escrivaninha, luminária, chão, porta. O personagem é obrigado a ler o mesmo texto… todos os dias — a própria realidade descrita em incontáveis linhas, que eu enxerguei alteradas-rasuradas, como se fosse um exercício meu. A leitura obrigatória nos coloca diante da insana rotina de um escritor… que lê e lê e lê e lê o próprio texto, em busca da perfeição, consciente que nunca a alcançará mas, isso não o impede de tentar.
O personagem-auster-blank se assemelha a um hamster — preso em uma gaiola, a realizar sempre os mesmos movimentos diários, ao qual está falsamente acostumado.
Mr. Blank é observado e fotografado o tempo inteiro… recebe visitas, cuidados, fotografias de uma série de pessoas e queixas acerca de coisas que ele as obrigou a fazer e que potencialmente destruíram suas vidas.
A releitura me fez pensar em meus personagens, no destino que dei a cada um deles e em meu corpo convertido em quarto, onde a escritora que eu sou, esta presa… a receber informações: pessoas-cenários-diálogos-entrecortados-imprecisos-bilhetes-beckettianos — e é obrigada a ler o mesmo escrito… dia após dia.
E, ao chegar a última página — percepção que não tive na primeira leitura — não sabia mais qual era o meu lugar, no livro-mundo-realidade… se leitora-personagem-autora-hamster. E só por isso, já valeu a releitura…

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Viagens no scriptorium, companhia das letras
Paul Auster (  )Trad. Beth Vieira
Clique aqui para ler um trecho
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Publicado por Lunna Guedes

lunnaguedes... sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios. detesta dias de sol e ama dias de chuva. ama o outono em qualquer lugar. escreve por escrever somente. seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros... a direção na qual a ponta do grafite avança. ponto final é uma coisa incompreensível. gosta de vírgulas e exclamações.

18 comentários em “O que ando a ler | viagens no scriptorium

  1. Estou ansioso para ler esse livro, mas apenas após terminar Página Em Branco. A ideia de nomear os objetos surgiu em minha mente, além de várias outras semelhanças. Tento me lembrar, mas com certeza não o li. Então, caso haja outras “coincidências”, você saberá me apresentar, Lunna.

  2. Eu não conhecia a autor e depois desse post, não tenho como não ler e conhecer.
    Fiquei a imaginar o personagem, sua condição e essa comparação a um hamster. Com certeza é uma leitura fascinante e enriquecedora. Vou levar essa dica!

    Bacio

  3. Não conhecia a obra, nem o autor e agora já desejo ler, pois minha curiosidade ficou muito aguçada em conhecer mais Mr. Blank.

    Bacio.

    1. Não conhecia nem o Autor e nem o livro, mas seu post me deu uma vontade imensa de conhecer, a forma como você escreve aquece meu coração, ainda quero ler um livro seu ♡

  4. Oi, Lunna! Me fascinam as possibilidades de releituras de obras. Me lembra aquela história de que sempre ouvimos dizerem que o rio está ali, o perciryuitas vezes o mesmo, mas que as coisas mudaram, o rio não mais será o mesmo, sabe?! São novos olhares, outros pontos de vista, enfim… Bom, já cheguei a ouvir falar na obra, mas ainda não tive a oportunidade de me encontrar c ela! Eu tenho lido sempre de tudo um pouco, o que me é oferecido enquanto proposta Literária e os que me tocam, não recuso! Bjs

  5. Achei simples incrível essa coisa do autor mostrar as repetições diárias e obrigar o leitor a viver isso com ele.
    Concordo muito com a frase que diz que muitas coisas não fariam certo se outras não dessem errado.
    Sábio demais!

    Bacio

  6. Que legal! Conhecer novos autores é sempre enriquecedor. Conheço bem esse sentimento e também o quanto ele expande nossa criatividade e nossa visão de mundo.

    Adoro quando você nos compartilha suas leituras e as descobertas que você tem diante delas :3

  7. Não conhecia o livro, muito menos o autor, mas já fiquei muito interessada. Pelo seu texto a história é muito boa e instigante.
    Pretendo lê-lo.

  8. Faz tempo que não tenho esse sentimento depois que termino de ler um livro e só por causa disso já fiquei super curiosa para ler. Não conheço nem o autor, nem o título, mas vc escreveu de um jeito tão vibrante que me perguntei como ainda não tinha descoberto tudo isso 🙂

  9. Olá!
    Muito boa sua dica de leitura, não conhecia esta obra, parece ser uma ótima opção para leitura.
    Parabéns pela resenha.
    Abraços

  10. Que livro incrível ❤ eu amo quando você escreve, sempre deixa um ar de pura poesia e um sentimento vivo dentro de casa palavra! Simplesmente perfeita e aconchegante ❤ obrigade pelo post ❤

  11. Que livro INCRÍVEL, fiquei simplesmente doida para ler e ver todas as reflexões dele que você trouxe nos olhos do autor, porque pelos seus olhos já me deixou desconcertada! Penso muito nisso do “se algumas coisas não tivessem dado tão erradas, outras não teriam dado tão certo” sempre que esse ciclo se fecha e vejo que toda a peleja anterior, na verdade, era realmente uma porta se abrindo pro que é bom, e também sofro HORRORES com a leitura compulsiva de tudo o que faço porque sei, sempre, que algo vai passar despercebido e perfeição não existe. É bom ter mãos estendidas assim mostrando que não estamos sozinhas nessa, né?

  12. Muito interessante a comparação com o hamster, imagino que triste deve ser uma pessoa que se vê obrigada, seja por qual for a circunstância, a viver seus dias praticamente iguais…deve ser uma rotina sufocante. Fiquei curiosa com a leitura, deve ser muito instigante e reflexiva.

  13. Não conhecia o autor, mas me chamou muito a atenção a premissa e achei muito curiosa a comparação com o hamster. Gosto de leituras que me levam pra longe do meu lugar comum e me apresentam realidades diferentes da minha.E com certeza, todo esse processo de criação de histórias e personagens é totalmente desconhecido para mim, o que despertou meu interesse.

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