30 | s e g u n d a (última)

Neste estado não mundano em que me movimento
Minha Fe e Esperança são diabólica moeda corrente
Em mundos falsificados, cunho pequenos donativos
Em torno de mim, e troco minha alma por amor.
Allen Ginsberg

.

Dia quente. Segunda feira. Impossível dizer que o inverno se foi. O calendário diz que é primavera, desde o dia vinte e três e a moça do tempo (que abandonou a função) disse que a transição aconteceria as quatro e pouco de uma madrugada, em que eu estava ocupada com as páginas de uma história que se escreve-e-reescreve há alguns anos.
Ainda é setembro… quase outubro — falta pouco. O ano ainda não acabou, mas pelo ritmo — alguém deu corda no mundo — não deve demorar. Impossível não se espantar com a voracidade dos dias-horas.
Alongo os músculos. Coloco a água para ferver. Dou passos pequenos pelos cômodos ainda escuros. Escuto o som agudo da chaleira a gritar — desesperada — na cozinha. Café na xícara. Um poema de Ginsberg para esse dia-momento — fico ou Parto, com constante alegria / Meus pensamentos, embora céticos, são sagrados / Santa prece para o conhecimento ou puro fato. (…)
Lista de coisas a fazer-cumprir na mente: organizar as horas desse dia-semana, um mês novo para experienciar realidades outras. Organizar-me. Começar a ler outro livro antes que o mês acabe e a pilha aumente. Organizar-me. Ler e responder os e-mails pendentes, antes que tudo se acumulem. Tramar os dias seguintes. Organizar-me. Ler os textos que se enfiaram na minha caixa de correspondência. Organizar-me. Flertar com olhares que se oferecem aos meus textos. Organizar-me. Há tanto por fazer… mas eu só quero ficar aqui, no canto, a gozar da preguiça que chega e a ouvir o som das pás dos ventiladores em seus movimentos circulares. Organizar-me. Descer os livros das prateleiras e escrever meia dúzia de palavras entre um movimento ou outro.
Deixei todas as coisas à deriva nos últimos dias. São os meus processos. Preciso esvaziar-me do ontem para alcançar o hoje-amanhã. Encher o peito de ar. Fechar os olhos e sentir-me dentro. Consciente de que tudo que era para dar certo: deu… e tudo que era para falhar: falhou.
Eu gosto desse equilíbrio… de saber que irei errar-acertar muitas vezes — ainda. Existe qualquer coisa de acalento nisso. E de ter certeza de que irei sorrir-chorar… amar-odiar… ser feliz-triste. É vida… e pulsa… pulsa… pulsa. E eu gosto imenso de como tudo acontece.
Dois mil e dezenove não está sendo fácil… os movimentos humanos estão tensos. Os ânimos acirrados. Verbos conjugados de maneira equivocada… pela esquerda-direita. Por todos nós.
Não me misturar é difícil. Tento me preservar dessa falta de modos social. Nem sempre consigo. Ainda mais quando não entendo certas falas machistas-preconceituosas que insistem em reverberar. Como é difícil engolir certos desaforos. Às vezes, tenho vontade de chacoalhar o ser humano a minha frente, para ver se acorda, se olha e vê, se sua pressão sobe-desce. — se reage! Me certificar que há sangue em suas veias.
Me concentro em respirar… ainda que o ar esteja pesado-envenenado. Me concentro em meus afazeres. Em organizar-me. Ler meus livros… e a planear novos ‘cadernos artesanais’ e providenciar ingredientes para a hora do almoço.
Coloco Patti Smith no toca-discos… palavra antiga que repito com gosto. Lembro que a Scenarium abrirá as portas para novos autores nos próximos dias — três ou quatro e, eu começo a imaginar as palavras que serão enviadas por escrevinhadores-contemporâneos.
No ano passado… pouco ou nada me seduziu. Sou uma escritora-editora-Leitora… exigente-difícil… que gosta de, ao ler, sentir aquele aconchego da infância — ‘encostar a cabeça no peito e ouvir a marcha do cuore‘ — tum tum… tum tum…

| escrito ao som de dancing barefoot |

Publicado por Lunna Guedes

lunnaguedes... sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios. detesta dias de sol e ama dias de chuva. ama o outono em qualquer lugar. escreve por escrever somente. seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros... a direção na qual a ponta do grafite avança. ponto final é uma coisa incompreensível. gosta de vírgulas e exclamações.

25 comentários em “30 | s e g u n d a (última)

  1. Nossa, Lunna! Fiquei cansada por você…
    Quanto às questões comportamentais, estou igualmente exausta…
    Esse ano está sendo muito difícil e os dias vão de atropelo em atropelo, onde desliga isso? Será que no tal do ano novo será menos árduo? Não sei. Não sei. Não sei. A esperança caiu por terras há tempos…

    bisous

  2. Alguns trechinhos do seu texto me fizeram penar na minha própria segunda-feira. Essa semana tem provas na faculdade todos os dias, e é impossível não ficar meio nervosa-tensa-enlouquecida. Mas eu vou sobreviver!
    Agora, sobre seu post… uma ideia me passou pela cabeça: eu fiquei imaginando como seria transformar seu texto em vídeo, aqueles bem curtinhos, poéticos e com música de ~elevador~ no fundo. Nossa, deu até para eu ouvir o barulhinho da água fervendo e lá vou eu atrás de uma xícara de chá. Boa sorte com os textos e com o seu novembro, sei que gosta e sei que já esta por lá.

    beijos mil, bambina mia

  3. O ano de 2019 chegou com um ano cheio de projetos, que ainda existem, mas 2019 está por um fio e não estou conseguindo acompanhar. Muita coisa ficou pelo caminho.
    Mas, felizmente na minha vida pessoal, apesar da correria e dos problemas com os gatos, estamos com mudinhas plantadas que espero fazer uma linda colheita em 2020.
    Concordo que o ano está carrancudo e as pessoas (juro que ando fingindo demência por ai) porque há temas que me esgotam e eu preciso estar bem comigo mesma, conclusão para a vida.

    Beijos

  4. Eu comecei esse texto imaginando o dia nublado, a segunda também foi assim aqui, chuvosa até. Combinava com meu estado de espírito.
    O único detalhe é que, fui concordando com tudo, os sentimentos tão seus, se parecem com os meus, até que no fim, eu sorri. Porque imaginei você a escrutinar as palavras alheias com seu crivo mais que bem afiado. Sei bem porque não é qualquer palavra que lhe chama a atenção, que faz o cuore bater forte. É porque as suas são tão completas e marcantes, que fica difícil aceitar qualquer outro escrito que não seja, ao menos, à altura. Espero que esse ano tenhamos mais escrivinhadores sedutores por aí…
    xoxo

  5. Como é bom te ler neste intervalo do trabalho.
    Adoro a forma como descreve sua rotina! Seus escritos me encantam!!! Fico imaginando se no bate papo existe essa poesia também…

    E você está certíssima, faltam poucas folhas no calendário, no serviço já estamos pensando em dezembro, e começando a fazer o planejamento do primeiro semestre de 2020…
    Gostaria de apenas andar, um passo de cada vez, mas, me vejo correndo uma verdadeira maratona…

    abraços

  6. Que texto mais reflexivo.
    Alguém deu corda mesmo e os dias estão passando sem eu ao menos conseguir acompanhar e olha que eu corro.
    A ano não está sendo nada fácil, foi o mais pesado e o mais triste. Quero ter esperança que o próximo melhore, pelo menos aqui dentro, porque lá fora, a esperança vai longe.

    Bacio

  7. Sei lá, parece que não fiz nada nesse ano de tão rápido que está passando, até agosto que era considerado o maior mês do ano passou voando. Em parte estou curtindo, pois gosto demais de Dezembro e Janeiro que em breve estarão chegando.

    Bacio.

  8. Esse ano não está sendo fácil mesmo, as pessoas parece que retrocederam no tempo com falas e pensamentos completamente ultrapassados, é difícil entender…Espero que os próximos meses, anos, sejam mais luminosos e menos trevosos.

  9. Sei que já disse isso aqui, mas adoro como você consegue descrever momentos cotidianos de forma poética, eu segui seus passos no começo do texto enquanto esperava a água ferver… Esse ano está meio confuso mesmo e corrido e até meio ambíguo. É engraçado porque tem acontecido coisas muito boas para mim enquanto o caos parece tomar conta do mundo ao meu redor. Ano passado já foi assim, mas esse ano se acentuou… e os dias passando tão rápido me deixam ainda mais atordoada. E preciso admitir que os seus “organize-se” me deixaram com vontade de perguntar se você quer uma ajudinha… rs

  10. A verdade é que a semana começa, e junto dela todas as nossas atribuições e afazeres! É fechar os olhos, respirar e deixar fluir! Trazer à tona tudo o que nos absorve, pirar sim, por que não?

    Mas, nada como apenas obrigação, tudo com curtição!
    No final, a gente vence!
    Beijos!!!!

  11. Realmente minha cara, esse ano superou todos os outros, infelizmente nos aspectos ruins. Tenho tentado fugir e me esquivar para não ser engolida, mas é difícil… muito difícil.
    Adorei o seu texto.

  12. Maravilhoso! Não tenho outras palavras para descrever esse texto. Eu constumava a escrever, mas venho deixando aos poucos. Suas palavras me deram saudade de sentar com um cader e um lápis e escrever.
    Adorei!
    Beijos

    1. Oi,Lunna! Como vai? É, 2019 já está quase indo embora, e de fato foi um ano de tensos acontecimentos! Quando escreveu, outubro estava ao pé de chegar, hoje, ao pé de ir-se… A mim foi um mês magnífico (confesso que não esperava tanto!). Te agradeço pelo texto de cunho tão poético e ativo! Que venha novembro, e dezembro…

  13. Início de outubro e, de fato, o ano acabou. Que correria de ano recebemos dessa vez, né? Parece que não fizemos nada e que só esse nada aconteceu, mas SOCORRO, fizemos tanto todos os dias, ao mesmo tempo em que as coisas aconteciam, que tá difícil imaginar as retrospectivas que vão pipocar aqui e ali em breve.
    Como você, preciso organizar-me. Aliás… Isso é tudo o que preciso!

  14. 2019 passou voando, parece que produzi pouco em relação aos anos anteriores. Me dá tanta aflição pensar que tenho muitas metas das quais ainda não consegui cumprir

  15. Li seu texto em concordância…Quando cheguei onde menciona Patti Smith, tive que ir no youtube e deixei tocar People Have The Powert, reli seu texto e fiquei pensando se quando escreveste era essa música que ouvia, fiquei me perguntando se realmente temos “poderes”. Também tenho vontade de chacolhar o ser humano, mas sabe acho que não vale a pena, então respiro fundo, será que acordariam com o “grito”. O tempo como já falamos está muito rápido, mas, estou tentando desacelerar, indo contra a multidão…
    Abraços

  16. Ameei seu texto!

    Porem achei um pouco cansativo por não ter parágrafos curtos, sei que ha momentos e momentos para discutir o formato do texto mas, na web em geral quanto menor os parágrafos melhor a leitura. 🙂

    Me identifiquei bastante com o conteúdo e fiquei muito impressionado com sua escrita!!

    Escreve de forma consistente, com algumas rimas, simplesmente amei o conteúdo.

  17. Queria falar minha segunda feira esta forma. Não tenho raiva dela mas é difícil comentar qualquer dias da semana de forma poética, isso é para poucos.
    adorei sua segunda.

  18. Caríssima, fiquei cansada com sua poética reflexão
    Tenho sentido certo peso na sua escrita e espero que esteja bem.
    O tempo voa e é difícil manter a serenidade

    Bacio

  19. Normalmente eu já gosto (imenso, como você diz) de seus textos, mas esse acabou de entrar para os favoritos. Me identifiquei/gostei de tantos pontos mencionados! O espanto com a velocidade com que os dias estão passando, seria melhor dizer: voando. A menção a se organizar e planejar (algo que eu, preciso fazer, mas não me saio nada bem). A sensação de que 2019 já acabou faz tempo e que foi pior que 2018. O ar pesou, as pessoas estão indóceis. A tal da crise não facilita. Tanta gente em situação precária… e parece tudo tão difícil de mudar. Enfim, esse texto falou diretamente comigo hoje.

  20. Segunda-feira é sempre muito difícil pra mim também, ainda mais se estiver frio ou com chuva, apesar de ultimamente qualquer dia estar sendo cansativo pra mim rsrs

  21. Olá!

    Mesmo com tantos afazeres, às vezes tudo que precisamos é um tempinho na nossa própria companhia. Tomar um café, um chá, ler aquele livro que chega a lhe observar da estante de tanto que necessita ser lido, se ausentar um pouco do mundo, se permitir fechar os olhos para discussões que muitas vezes acabam sendo banais por política. Eu amo ter esse tempinho. Os afazeres talvez cobrem depois, mas pelo menos me sinto renovada.

    Bacio

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