O que ando a ler | o fio das missangas

“A vida é um colar. Eu dou o fio, as mulheres dão as missangas. São sempre tantas as missangas.”


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Fui até a prateleira em busca de afago e, após folhear versos de Borges, esbarrei no livro de contos o fio das missangas de Mia Couto. E como não consegui me lembrar da última leitura feita… o levei comigo.
Ler Mia Couto é como regressar à casa da minha infância… dias de verão-agosto, o cheiro de madeira encerada, o canto do carrilhão na sala e os aromas — caldo de massa — da nonna, em sua aconchegante cozinha.
Os dias de domingos eram festivos-cheios e o nonno contava seus casos imediatamente após o almoço — sentado na cabeceira da mesa para uma platéia interessada… sempre combinando o real e o imaginário.
Me lembro de ter ouvido a mesma história um sem-fim de vezes… mas, hoje eu sei, que as narrativas não se repetiam. Sempre tinha algo novo e inédito e surpreendente que nos obrigava a prestar atenção em cada palavra — cuidadosamente — escolhida por ele.
O fio das missangas tem esse mesmo ingrediente… é um livro escrito por um astuto contador de histórias. Mia Couto parece ter escolhido o que narrar, como se quisesse evitar que certas histórias se perdessem ou simplesmente desparecessem, sem deixar rastro ou marca. Na sua África, como em tantos outros lugares do mundo, as mulheres ainda são meros objetos descartáveis… vítimas do horror, do medo e do abuso…
E enquanto preparava uma xícara de chá para acompanhar o restante da leitura… pensava em Maria Metade… que decide matar o marido, mas não alcança o seu objetivo. Ele acaba morto por acidente… e a culpa de não ter ido até o fim — tendo a oportunidade — a atormenta-persegue porque a culpa, ao contrário de seus gestos, é uma coisa inteira-cheia-plena, feito uma lâmina afiada, a cortar enquanto há carne.
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Fio das missangas, companhia das letras
Mia Couto — clique aqui para ler um trecho


Publicado por Lunna Guedes

lunnaguedes... sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios. detesta dias de sol e ama dias de chuva. ama o outono em qualquer lugar. escreve por escrever somente. seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros... a direção na qual a ponta do grafite avança. ponto final é uma coisa incompreensível. gosta de vírgulas e exclamações.

34 comentários em “O que ando a ler | o fio das missangas

  1. Mia é fantástico. Um bom contador de histórias, como você dona Catarina o seria Lunna? hehehehe menina travessa. Gosto de te ler e acho muito gostoso quando um autor lê. coisa cada vez mais rara nesse nosso tempo esquisitito.

  2. Eu gosto muito de contos que envolvem questões femininas, principalmente relacionadas aquilo que vivemos atualmente, aos preconceitos que sofremos e como lidar com eles, aos sonhos que temos e as realidades que, muitas vezes, não conhecemos.
    Gosto muito de Mia Couto, é um dos poucos autores homens que narram a realidade feminina com naturalidade. Não li esse ainda, mas lá vou eu atrás dele.

    beijocas

  3. Oi Lu, que lindo seus pensamentos sobre o livro, amei a forma como escreveu de forma tão sensível sobre as impressões que o Mia Couto te causou. É um autor que ainda não tive a oportunidade de ler, mas quero muito. Adoro autores africanos, adoro conhecer outras culturas, realidades, mundos… acho que entendemos melhor o nosso próprio contexto assim. Beijos.

  4. Adorei a resenha! Muito gostosa de ler e bastante diferente, estou mais acostumada com aquelas resenhas que falam do livro, do autor, dão notas e partilham quotes do livro, que é oque realmente leio. Mas a sua eu li inteira e viajei.

    Na biblioteca da minha escola, há diversos livros do autor, mas não li nenhum deles ainda.
    Agora que já sei por onde começar, vou correr lá e pegar o fio das missangas.
    Ansiosa para começar a ler essas histórias.

    A.d.o.r.e.i o seu blog.

  5. Gosto muito de Mia Couto, gostava de ler mais, confesso. Esse mesmo ainda não li. Ele tem muitos livros publicados. Fiquei curiosa para conhecer esse livro de contos. Verei se o compro na próxima ida ao Porto. As livrarias de lá são melhores que as que tenho cá.

    bicotas

  6. Que lindo seus pensamentos sobre o livro, amei a forma como escreveu de forma tão sensível sobre as impressões que o Mia Couto te causou. É um autor que ainda não tive a oportunidade de ler, mas quero muito. Adoro autores africanos, adoro conhecer outras culturas, realidades, mundos… acho que entendemos melhor o nosso próprio contexto assim. Beijos.

  7. Lunna, muito gostoso de se ler essa postagem. Adorei a dica do Mia Couto (gosto muito), todavia o melhor foi a lembrança do nono contador de histórias. Me senti sentado a mesa esperando por mais uma… Genial Lunna!
    bacio
    Manoel

  8. Lendo suas palavras, deu vontade de mergulhar neste livro de imediato… Conheço pouco de Mia Couto, mas já o aprecio. Sempre bom contar e relembrar histórias

  9. Uau… que resenha diferente!! Nunca li uma resenha dessa forma. Tão poética. Deu muita vontade de ler esse livro. Eu já ouvi falar de Mia Couto, mas ainda não li nadinha dele.
    Seu blog tem um jeito muito bonito de expressar arte. Parabéns.

    Abraços,
    Abby Anjos

  10. Já tinha ouvido falar de Mia Couto, mas não parei para lê-lo! Depois dessa sua resenha, procurarei ler algumas obras dele, a começar por essa coletânea de contos.

    Gosto de personagens femininas e assim descritas por um autor deve ser interessante. Geralmente elas são melhor tracejadas por mulheres.

    Beijo,

  11. Olá!! Amei a sua resenha!! Mia Couto é um dos meus autores favoritos e sempre termino seus livros fascinadas. Esse ainda não li, mas já fiquei imensamente com vontade depois de suas palavras e já cliquei aqui para ler o trecho e saber mais.

    bisous

  12. Esse é o meu livro favorito dele, dos que já li.
    Quero ler Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra?
    Já leu? Conhece? Sabe se é tão bom quanto?

    bj

  13. Para mim este é um dos melhores livros de Mia Couto. Pelo menos, é o mais simbólico. Tudo é pensado, calculado, como se tudo o que Mia escreve tivesse por trás um outro significado.
    Beijinhos, Luna!

  14. Oiiie
    Nossa, que diferente! Nunca tinha ouvido falar de Mia Couto, mas achei o máximo a maneira como você traçou um paralelo para as suas histórias de infância. Gosto dessas lembranças. Eu passava tempo na casa dos meus avós também, os paternos. Da minha mãe viviam em outro estado e nunca os visitávamos. Só sabia deles através de notícias que chegavam. Mas eram ausentes, só os sabia através de fotografias. Nunca os vi. Estranho isso, se estivessem vivos hoje, acho que seria mais fácil.

    bj

  15. Mulher, que história interessante. Ainda não li nada dessa autora, tampouco a conhecia, mas fiquei bem curiosa por saber de sua história.
    Com certeza será um livro que irei ler.

  16. Olá minha cara e como sempre abrindo portais para tempos tão deliciosamente saudosos. Ahhh os contos do Vô … cada semana diferente, ingredientes perfeitos para um longo papo mesmo que seja a enésima vez … grato por uma resenha tão agradável.

    1. Nossa, não tem nada melhor que a leitura do conforto, né?
      Aquela que te reaviva memórias.
      Eu confesso que só conheço a autora de nome, mas estou sempre me desafiando a conhecer autores novos e me interessei pela sua descrição dessa obra.

      Bacio

  17. Eu não conhecia esse livro, esses dias tenho pesquisado bastante que livro ler, já peguei dois e pretendo continuar, esse parece ser muito interessante, obg por compartilhar!
    – June Damasceno

  18. Gosto muito dessa sensação que você descreveu no começo do post, de buscar afago em livros dominem velhos conhecidos. Tenho muito isso com Agatha Christie, de me sentir em casa ao reler. Mia Couto ainda não li nada, mas impossível não querer conhecer depois desse texto.

  19. Que sensação gostosa pode ter essa lembrança tão marcante de seu avô, acredito que seja uma recordação que você guarda com muito carinho. Também tenho boas lembranças dos tempos que passava na casa dos meus avós, que saudade! Não conheço nada de Mia Couto, mas depois dessa resenha tão poética fiquei com gostinho de quero mais!

  20. Oi! Te ler falando de Mia Couto associando à sua infância me faz lembrar da minha relação com Cecília Meireles nessa mesma época, e Clarice hoje, como vocês têm visto. Me fez trafegar entre os tempos! Uma delícia! Muito bom estar de volta! Baccio!

  21. Nossa, não tem nada melhor que a leitura do conforto, né?
    Aquela que te reaviva memórias.
    Eu confesso que só conheço a autora de nome, mas estou sempre me desafiando a conhecer autores novos e me interessei pela sua descrição dessa obra.

    Bacio

  22. O melhor do seu post é que não fala só do livro, mas também do que ele te causou, e isso causa na gente “do lado de cá” muita coisa também… Consegui enxergar perfeitamente sua mesa de domingo, mas na verdade era a minha, com meu vô na cabeceira e as mesmas discussões de sempre que nunca deixavam de se renovar… Que momento gostoso de saudades!

  23. Mia Couto é maravilhoso!! Fiquei apaixonada por sua escrita desde o primeiro livro. Gostei muito de suas impressões e me fez ter saudade, pois já faz um tempinho que não leio nada dele.

    Bacio

  24. Não conhecia essa escritora, mas já estou demasiadamente curioso para conhecer sua escrita, e ainda mais essa obra de contos que você citou dela, pois parecem ser contos incríveis. Anotada a dica.

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