07 | A pessoa que não somos

persona-personagem

 


“e eu sensível apenas ao papel e à esferográfica:
à mão que me administra a alma”
— Herberto Helder —


 

Sai para andar calçadas, sem destino com lugares-espaços ou compromisso com a cidade. Era apenas eu, os meus passos e as coisas que trago dentro: personagens-tramas-enredos-canções-notas-para-daqui-a-pouco… e o desejo de ter em mãos um copo branco — venti — de latte… que é esse meu placebo para dias de escritos envenenados.
Entrei no metrô — com o som a dizer suas notas em meus ouvidos — e me distrai com os movimentos de estações e túneis até que uma figura branca, enfiada em combinações de calça-blusa-botas-meias-sacolas e balangandãs conquistou minha atenção.
Olhei ao redor para me cerificar da figura-personagem — às vezes, o meu imaginário me trai com suas figuras inexistentes que saltam de meu íntimo. Engoli seco sem certezas. A figura lia uma revista de moda e destoava belissimamente do cenário-cidade-vagão. Combinava, no entanto, com os acordes da canção que eu ouvia.
Descemos na mesma estação… em Moema — linha lilás — e reparei, ao subir as escadas em seu andar despreocupado-elegante, a equilibrar-se naturalmente entre as peças urbanas — parecia estar em um tabuleiro, a mover-se em busca do Rei.
Avançamos pelos mesmos caminhos — calçadas-esquinas… e eu fui aprendendo seu jeito seguro-atento. Reparei que deixava um pouco de si — o perfume, talvez — por onde passava. Dois rapazes se inquietaram e trocaram palavras silenciosas um com o outro. Ela não reparou…
Considerei que estivesse a desenhar a sua próxima coleção ou a escrever um artigo sobre as não-novidades de seu mundo. Sem preocupação alguma, atravessou a rua — apertando o passo, como quem salta poças para não molhar os pés.
Reparei que vez ou outra observava as vestimentas femininas e parecia saber o que combinava do que destoava nos corpos em movimentos contrários aos seus. Ela parecia um daqueles malabaristas que esperam fechar o sinal para se apresentar a uma pláteia de desinteressados. Um ou outro arremessa uma moeda que não paga nem o café… e o artista circense das ruas retorna para a sarjeta.
Foi curioso perceber que tínhamos o mesmo destino — o café entre esquinas. Ela pediu um chá e foi se sentar no sofá, ao fundo. Minha mesa estava à minha espera e depois dos cumprimentos e diálogos soltos, me sentei e fiquei a espiá-la… a maneira como se e espalhou, fazendo do canto… o seu escritório.
Comecei a rascunhá-la em meu bloco de notas imaginário. Ela me fez perceber que o não saber… é o melhor dos ingredientes. A distância mantêm a salvo as minhas ilusões, tão necessárias quando me sento aqui, diante da tela. Posso dar a ela a forma que for, sem comprometimento algum com a sua verdade. Enquanto figura-transeunte-personagem-de-amanhã, é apenas uma estranha a embalar um par de horas confusas, como se fosse um daqueles bombons embrulhados em papel fino-coloridos — aroma do café, que seduz antes mesmo do primeiro gole! No entanto, se deixasse sua condição e invadisse a minha realidade, com suas confusões, palavras equivocadas e a realidade de todas as coisas: cruel e desumana — seria apenas uma xícara de café amanhecido, esquecida no canto da mesa…
Por isso a prefiro em seu canto de mundo-vida — ausente da minha realidade — sendo apenas criador e criatura, sem saber qual condição ocupamos no mundo da outra.

 

| escrito ao som de  you an I |

Publicado por Lunna Guedes

lunnaguedes... sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios. detesta dias de sol e ama dias de chuva. ama o outono em qualquer lugar. escreve por escrever somente. seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros... a direção na qual a ponta do grafite avança. ponto final é uma coisa incompreensível. gosta de vírgulas e exclamações.

14 comentários em “07 | A pessoa que não somos

  1. No dúbio, no quase, no instante em que se constrói a realidade imaginária, ninguém rabisca as luzes e sombras de personagens com tanta intensidade quanto Catarina…

  2. Ai Catarina, seu texto me fez refletir muito sobre os que passaram por mim, deixaram sua marca na pele e desapareceram no espaço urbano, deixando apenas lembranças que o tempo se encarrega de desbotar. Também fico espantada com a naturalidade que isso se torna.
    Mas acho que tem razão, melhor quando ficam no canto, em silêncio.

    Bj

  3. Acho meio mágico isso de reparar em que atravessa nosso caminho. Muitas vezes, indo ou voltando de ônibus da faculdade me pegava reparando nas pessoas e criando as mais diversas histórias sobre elas na minha cabeça, baseado em absolutamente nada. Nem de longe saberia descrever da forma poética como você fez nesse post, mas era muito divertido. E concordo que a maior parte da magia está na distância que nos permite criar toda uma histórias à nossas maneira, e provavelmente a realidade seria um tanto quanto decepcionante.

  4. Fiquei intrigada com essa pessoa, enquanto lia o post ia imaginando como seria sua personalidade, qual seria sua história de vida… Sem dúvida uma figura que chama a atenção. Concordo que às vezes é melhor ficar só na imaginação, ela pode ser muito mais rica e divertida que a realidade. E que coincidência vocês pararem no mesmo café!

  5. Quando li o texto, viajei no tempo e me lembrei da vez em que ocupei a mesa ao seu lado e todas as pessoas viraram personagens dentro de mim. Você nunca descreveu o momento e eu sinto falta disso. mas, entendo que foi apenas um momento da leitora com a autora. Não cabia mais nada.

    bisous

  6. Ainda hoje, arrumando a estante, parei e abri teu livro em uma página aleatória. Reli quase até o final e, após o almoço, liguei o computador para ler algo belo por aqui. Encontrei exatamente o que procurava: Um texto fantástico, escrito com alma. Amei!
    Beijos!

  7. Que texto lindo, fugir do que somos, às vezes é bom, mas nossa rotina é necessária. Agora quando vem aquele entusiasmo para escrever, não tem preço.

  8. Eu fico pasma com a sua capacidade transformar em palavras as coisas que acontecem no seu dia a dia, e de forma a fazer quem ler realmente sentir que estava lá, com você, passando por tudo aquilo.
    Sinceramente, se eu paro pra pensar na quantidade de gente que entra e sai na nossa vida todos os dias, mesmo que seja por milésimos de segundos, eu entro em parafuso. Cada um com uma vida, uma história, e um entusiasmo diferente com uma coisa diferente.

  9. Nossa Luna ultimamente tenho corrido tanto que só agora lembrei que outras pessoas estavam ao meu redor! Seus textos fazem a gente parar, mas o tic tac nos fazem sair dessa poesia e voltar a correia…Realmente um café amanhecido perde o seu valor, seu aroma….
    Abracos

  10. Ah, os teus escritos desenham pessoas melhor que os traços de um pintor, pois os traços poderiam desenhar em telas e paredes, mas teus escritos desenham na alma!
    Beijos

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