09 | eu abandono livros por aí

às vezes, sinto que perdi os teus melhores anos os melhores
são aqueles em que entendemos as coisas pela metade
meia ciência sobre uma planta — metade do Homero lido
meio sonho numa caminhada ao entardecer
meio futuro envolvido em mistério
por não se entender metade do passado

Mario Osório

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Eu não coleciono livros… embora tenha algumas prateleiras cheias. São exemplares que irão voltar para as minhas mãos-olhos-pele… dentro de um dia seguinte qualquer, quando — inevitavelmente —, serei outra… assim como as histórias que leio.
Para mim os livros não são objetos estáveis, definitivos… são figuras com vida própria e, e como nós, envelhecem. Suas histórias, contudo, se adéquam ao tempo e lugar, talvez por serem as páginas… a alma. E a capa… o cuore — ou algo assim.
Alguns livros, no entanto, não deixam rastro algum… e passam por mim da mesma maneira que eu passo por eles: com total indiferença…
Durante algum tempo, isso foi motivo de desconforto. Eu me obrigava às páginas e me aborrecia por não conseguir progresso na leitura. Contrariada, deixava o livro de lado, na esperança de retomá-lo em outro momento quando a minha alma se mostrasse menos rebelde para com aquelas malfadadas linhas.
Foi assim com Joyce e seu Ulisses… que tentei ler incansáveis vezes — sem sucesso. O resultado era sempre o mesmo. Respirava fundo e o abandonava. Mas ele não foi o único livro-autor a me levar a exaustão. Aguardamos — eu e os livros —, pelo dia seguinte. Com Ulisses, o tal momento futuro nunca chegou. Ficou pelo caminho e foi o primeiro livro a seguir para outras mãos. Não era para mim, mas poderia ser para outra pessoa…
Desde então… entrego livros aos amigos. Mas, já encaminhei alguns exemplares para os velhos sebos — o que resistem bravamente pela cidade — a fim de vendê-los. Mas, confesso ter predição por deixá-los em bancos de praça, mesas de cafés-coletivos… em estado de abandono até que alguém os acolha — levando-os para casa.
Recentemente, descobri na Linha Lilás do metrô… um casulo para deixar livros e como todo começo de ano, gosto de descer os livros das prateleiras para saber o que foi ou não leitura e o que nunca mais será — fiz uma pilha para levar e abandonar por lá. Que seja livro novo para alguém…

Publicado por Lunna Guedes

lunnaguedes... sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios. não gosta de fazer compras. detesta dias de sol. ama dias de chuva. não aprecia o verão tropical. ama o outono em qualquer lugar. escreve por escrever somente. seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda, sem pouso. adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros... a direção na qual a ponta do grafite avança. sabe que seus escritos são obras inacabados... nunca prontos. ponto final é uma coisa incompreensível. gosta de vírgulas e exclamações.

9 comentários em “09 | eu abandono livros por aí

  1. Eu tenho meus queridos e esses permanecem na estante, ao alcance das mãos. Pois sei, que vou reler, como já fiz tantas vezes.
    Eu costumo doar e presentear por vezes. Acho legal abandonar em um lugar para que ele possa encontrar um dono, mas dessa forma ainda não fiz. Será uma nova experiência para esse ano!!

    Bacio

    1. Eu gosto sempre de experimentar algo novo para os livros que não vou voltar a ler… já achei o máximo ter prateleiras cheias. Hoje, eu prefiro apenas manter os meus favoritos por perto. rs

      bacio

      Ps. Estava com saudades de ti

  2. Os meus preferidos ficam na prateleiras perto da cama… Na estante aqueles que vou ler, já li e gostei e vou querer reler.
    Costumo presentear as crianças nos seus aniversários com livrinhos…

  3. eu sempre “esqueço” os livros dia 25… Tenho cada história linda; outras, engraçadas e aquela da menina que queria Lua de Papel e me disse que não lembrava do endereço dela…lembra – se ?

  4. Eu tenho uma relação meio parecida com os livros. Quero lê-los, possui-los, poder folheá-los na hora que der vontade… mas desejo muito mais que eles sejam possuídos por outros olhos sedentos por histórias. Dá uma tristeza vê-los ali, parados na estante. Um livro que não está sendo lido cumpre seu papel? Esse ano já fiz uma limpa. Troquei alguns no sebo e doei outros para a biblioteca da cidade. Tenho alegria em saber que esses livros, para mim já memória passada, serão novidades em outras mãos.

    Que interessante essa ideia do nicho de livros no metrô! Eu adorei e gostaria que aqui onde moro tivesse também. Antigamente havia um estande dentro da estação, na qual as pessoas podiam pegar livros emprestados para ler. Infelizmente, foi desativado.

    Au revoir ❤
    https://tecerfloresecheirarlivros.blogspot.com

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