Brinca-se com o passado… alguém quer jogar?

Não sei se já mencionei aqui ou em outro lugar… o quanto gosto de percorrer a cidade a bordo de um Coletivo. Principalmente a bordo dos famosos Trólebus — conhecidos por suas pausas inesperadas… no meio das ruas paulistanas.
E, foi justamente, a bordo de um desses red bus paulistanos… ao voltar para casa, pouco antes de mais uma tempestade de verão que eu avistei uma signora na janela de uma desses sobrados-antigos-napolitanos que São Paulo ainda preserva-e-exibe aos nossos olhos. Cena pitoresca que me fez atravessar o oceano e voltar para casa.
Sempre que eu saía de casa, me deparava com a figura folclórica de dona M., que a bordo de seus setenta e tantos anos — tempo demais para uma menina de quase seis: compreender —, se dedicava incansavelmente à sua tarefa favorita: tomar conta da vida de seus vizinhos. Ela sabia das chegadas e partidas de todos os vizinhos… nascimentos, mortes, casamentos e separações — nada escapava ao seu olhar de águia. Ela ouvia conversas inteiras, pela metade… e inventava possibilidades que, às vezes, provocava o caos, em nossa rua.
Eu era a única a me divertir com aquela figura mística… que sabia se fazer ouvir. Sua voz alcançava as duas esquinas de nossa pequena rua e invadia cômodos de todas as casas.
Sempre acreditei que ela sentia qualquer coisa de satisfação quando um ou outro vizinho ralhava com ela… era a visita que nunca recebia. Parecia que ela preparava café e pegava uma lata de biscoitos no alto do armário — reservada para momentos cheios.
Dona M., era uma viúva solitária que precisava se ocupar com o que era alheio, já que de seu não tinha mais nada. Os dois filhos viviam em outro país e, raramente a visitavam. O marido tinha morrido havia alguns anos — o coração simplesmente parou, foi o que me contaram. E ela ocupava a mesma casa-grande desde os anos quarenta. Não era convidada por ninguém… e só entrava na casa dos vizinhos através de suas fofocas.
Pela manhã, dona M., limpava os enormes cômodos e fazia bolinhos para ninguém. Suas compras eram trazidas por um menino que ganhava algumas moedas por seu gesto bondoso. Mas, ele não entrava…deixava tudo no portão e ía embora ligeiro. A casa cento e cinquenta e dois da nossa rua era sempre quieta-e-silenciosa… sem sons de criança no quintal, sem cães a latir no portão, festas nos fins de semana ou chás nos fins de tarde. Havia apenas um velho gato-branco-folgado que passeava por cima do muro, mas não era dela, embora o alimentasse com bolinhas de carne, que ela mesma preparava. Certa vez a surpreendi em conversa com o Gato e me lembrei da história de Lewis Carroll, pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson.
Nas vezes em que me sentava no portão de casa para esperar pelo mio babo… tinha vontade de ir até ela e dizer ‘olá’. C., que era a única da rua a não lhe virar a cara e a cumprimentá-la cordialmente a qualquer hora do dia… não autorizava o atravessar da rua, em direção à casa. Curiosamente, nunca fomos alvos das fofocas que dona M., fazia.
Eu acenava com a mão bem aberta no ar… lhe entregava qualquer coisa de sorriso e sentia certa empatia por meus gestos menores… uma espécie de sorriso naqueles lábios murchos e uma quase lágrima em seus olhos. Ela — rapidamente —, fechava as cortinas com as duas mãos, num gesto rude… e desaparecia. Eu ficava a observar o formato da janela, as cortinas em movimento de vento e o sol a resvalar sorrateiro na parede da casa com os três números bordados na fachada.
Ela foi a minha primeira tela de Hopper… e, às vezes, como hoje, lamento não ter atravessado a rua e oferecido um instante de companhia. Foi estranho me deparar com aquela janela fechada, ao voltar, anos mais tarde. A casa estava abandonada, o mato crescia no que antes era um jardim. Não havia sinal do gato e nem da mulher. Uma placa de ‘vende-se’ estava amarrada no portão e eu só consegui imaginar que se ela morreu lá dentro, levou dias para alguém reparar…

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

11 comentários em “Brinca-se com o passado… alguém quer jogar?

  1. Eu achei interessante demais a associação a Alice por falar com um gato, porque eu faço muito isso quando vejo pessoas nas ruas que, de alguma forma, me lembram algum livro que li, alguma história que eu amei. Com a sua escrita, senti como se tivesse contigo no teu percurso. Achei incrível. Parabéns!

  2. Que sensação de nostalgia e saudades que esse texto proporciona. Tempos maravilhosos onde se andava de trólebus e se divertia com o gato no muro.

  3. Acho que é bem comum essa figura da “vizinha fofoqueira” que parece não ter mais nada a fazer além de tomar conta da vida dos outros. Conheci várias ao longo da vida, mas nenhuma delas era parecida com a Dona M. que você citou. Porque ela me pareceu solitária e não vi maldade nela. Já as que eu conheci tinham família, amigos e coisas a cuidar mas ainda assim preferiam fiscalizar a vida alheia. Te acompanho em seu lamento por nunca ter atravessado a rua para trocar uma palavrinha com ela.
    Outra coisa, sempre me surpreendo com a forma com que você descreve São Paulo. Para mim, que sempre vou até lá só de passagem, a impressão que fica em mim é da “selva de pedra”, apressada e confesso, sem muito encanto. Mas seus textos me mostram um lado desse cidade que eu nem acredito existir.

  4. Que vida melancólica teve a dona M., acredito que as fofocas eram um escape para a vida solitária que ela levava. Esse final, imaginando que ela pode ter morrido sozinha, sem ninguém por perto, sem ninguém perceber, achei tão triste…infelizmente é o que acontece com muitos idosos.

  5. Que incrível o poder do escritor, com maestria – conseguir conectar com maestria, de ônibus, Gênova e São Paulo – a cidade da solitária com a cidade dos solitários.

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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