13 | No êxtase de um entardecer que não será uma noite*

mariana gouveia, bussola
Foto. Mariana Gouveia

Eu sempre tive paixão por bússolas! Ganhei uma quando tinha seis anos — um pouco mais ou menos. Sempre fui péssima com essa coisa de idade. Me perco em somas improváveis… começo a contar e daqui a pouco, uma folha se desprende da árvore, um pássaro cruza o ar em movimentos magníficos de asas, um chumaço de nuvem atravessa o meu olhar, um pensamento qualquer ocorre e eu fujo para outros lugares-cenários — e nem sempre volto.
Quando tive em minhas mãos aquela geringonça mágica — uma espécie de relógio de bolso — todos os meus movimentos ritualísticos fizeram sentido… o ato de fechar os olhos, respirar fundo e me orientar pelo mio cuore — a minha agulha imantada-particular, sempre certeira e precisa.
Infelizmente, a bússola que me foi dada na infância, se perdeu em uma das muitas mudanças feitas. Mas eu só fui reparar na perda do ardiloso mecanismo… ao ler o post escrito por Mariana, que me fez relembrar o objeto encantado… com agulha inquieta e um maquinismo enlouquecido. Recordei o dia, o gesto e a satisfação que senti por tê-lo em mãos. Foi como ganhá-lo uma segunda vez… o formato-cor-peso-tamanho-textura e seus sons de engenhoca-humana. E, novamente, o objeto cumpriu sua função… apontando o meu corpo-todo na direção da minha escrita e sua oscilação.
A gente estréia no mundo das letras e precisa — como em qualquer outro segmento — de exemplos. Mas, nada é pior que tentar encaixar-se nos modelos existentes. Somos figuras únicas e o que serve para o outro, dificilmente há de nos servir, no entanto, leva tempo para entender que temos que encontrar o nosso próprio Norte. E, enquanto isso, repetimos as mesmas velhas fórmulas de sempre.
Quando criança, a minha escrita era livre e sem compromisso… pautada apenas pela vontade de se render ao papel — que se oferecia ao toque do grafite, numa espécie de passeio — em percursos de ruas com seus paralelepípedos bem assentados.
Conforme fui crescendo… os horizontes foram se expandindo — outros livros-autores-teorias-ritmos-regras — e eu fui avançando rumo a outras direções-hemisférios que foram me orientando para bem longe de mim. Aceitei todos os conceitos oferecidos. Acatei todos os símbolos e o inevitável aconteceu: algo em mim se perdeu-quebrou-rompeu. Eu fui incapaz de reparar na metamorfose que me transformou naquele bicho asqueroso (uma barata?) de Kafka. A bússola emperrou… e o tal do Norte sumiu dos meus olhos.
Quando escrevi lua de papel… estava tão preocupada-ocupada em ser escritora, que me apeguei a todas as regras-teorias — possíveis e impossíveis. Não escrevi uma única linha em paz. Um livro inteiro… orientado por leste-oeste-sul — menos o Norte.
Só me dei conta da validade de minha condição ao me debruçar em vermelho por dentro… escrito sem compromisso com o mundo dos outros. Apenas eu e a história, as personagens — uma bússola imantada a apontar o Norte… que sou.
E agora, prestes a completar quatro décadas de vida… é confortável apreciar-observar todo esse conjunto de vivências, consciente de que precisei me perder de mim, para enfim me encontrar e reconhecer o meu Norte.

 

|* verso do poema a um poema menor da antologia de Borges |

Publicado por Lunna Guedes

lunnaguedes... sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios. não gosta de fazer compras. detesta dias de sol. ama dias de chuva. não aprecia o verão tropical. ama o outono em qualquer lugar. escreve por escrever somente. seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda, sem pouso. adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros... a direção na qual a ponta do grafite avança. sabe que seus escritos são obras inacabados... nunca prontos. ponto final é uma coisa incompreensível. gosta de vírgulas e exclamações.

12 comentários em “13 | No êxtase de um entardecer que não será uma noite*

  1. Nos últimos dias, minhas noites têm sido adensadas por sonhos que me transportam ao passado e a algo que talvez signifique futuro… Neles, esse norte, “destino final” da bússola, não inexiste por completo mas é, por vezes, confuso e cheio de signos que precisam ser compreendidos e sentidos. Seu texto contribuiu nesse processo!

  2. Que texto lindo, me fez lembrar muito uma trilogia de livros que eu gosto, o primeiro livro se chama “a bússola de ouro”. Seu texto me passou uma sensação de paz incrível.

  3. Oi, Lunna! Feliz por estar de volta! A propósito, que seu 2020 seja maravilhoso!
    Bom, eu nunca tive uma bússola, mas essa coisa de direção, de buscar um norte a se encontrar tem sido meu sentido de uns quase quatro anos para cá. Tenho me resignificado, (ou ao menos tentando). Essa bússola que a vida tem me oferecido, fez com que eu conhecesse pessoas como vocês! E eu agradeço todos os dias por isso!

  4. Adorei o poema. Passado – Presente – Futuro… mudando conforme nossas vivências. Bússola regendo o meu norte… rumo ao sul. Meu entardecer aprecia lembranças e caminha sem pressa rumo ao sul. Apenas apreciando… leve e feliz. Abraços

  5. Acho linda essa sua entrega, em dois sentidos na mesma direção: entrega a seu ofício e entrega da experiência de vida para orientar a nós, que viemos “depois”… Ainda que eu tenha vindo vinte anos a este planeta.

  6. Sempre fico encantada com suas palavras, Lunna! Incrível como um simples objeto e uma lembrança podem nos conduzir há tanta reflexão.

    Recordei as aulas de geografia procurando no mapa as coordenadas de latitude e longitude dadas aleatoriamente pelo professor. Era uma atividade que eu apreciava muito fazer. Obrigada por me trazer tanta nostalgia com suas palavras.

  7. eu sempre lidei com as bússolas. Meu pai me dava a dele para nos ensinar como sair na pequena floresta – que para mim, era uma floresta gigante – e ensinar os pontos cardeais.
    Na última viagem que fiz à casa dele, fiz essa foto.
    As suas histórias ligadas às minhas, bambina.
    Arrepiei aqui. Bacio

  8. Puxa, me lembrei que nunca tive uma bússola! Me lembrei que quando via algum amigo ganhar sempre queria, mas era caro!!! Não dava para ganhar! Entretanto, nunca fui muito livre, sabe?! Mas liberdade de escrita é algo que sempre gostei de ter! E nunca me vi nessa praia, seguindo por esse caminho que ventos têm me conduzido! Mas sou grata! Esse tem sido o norte para o qual estou seguindo, o meu norte!

  9. Eu sou apaixonada por ampulheta, Lunna!

    E lendo o seu texto, me dei conta de que já tive uma ou duas. Mas não faço idéia de onde estejam. Será que se perdeu em alguma mudança feita?
    Se bem que aquela areia caindo o tempo todo, cada vez mais rápido, me enlouquece porque parece que estou sendo assaltada, ficando sem tempo para nada.
    Eu ficava enfeitiçada a observar a areia cair e nunca entendi o tempo exato da queda. E lendo você, me fez perceber que estou sempre distraída com tantas coisas e não faço idéia se perdi, somei ou se tenho qualquer coisa de norte para mim.

    Ps. Acho que eu viajei no seu texto e na minha realidade.

    Abraços

  10. Está sendo bem complicado atualmente encontrar meu norte, espero que a minha bússola consiga encontrar logo esse ponto cardeal Imagino que a satisfação em se saber o lugar dos pés deve ser incrível.

    bacio

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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