* Let’s take a ride and run with the dogs tonight

René Magritte - Golconda tem vídeo

Depois de zanzar pelos espaços-cômodos do lugar, fui até a prateleira e após excepcionar os livros… optei pelas crônicas de Hilda. Escolhi a cama para me sentar, com as costas contra a parede e um travesseiro entre nós. Enfiei as pernas debaixo da coberta e virei as páginas sem preocupação alguma — como se fosse uma roleta, a espera de ouvir o anúncio definitivo: “preto 19”.
Comecei a ler a crônica delicatessen em voz alta. Jane dog adora ouvir minhas leituras… e, parece se divertir com as minhas pausas repentinas, como se fosse oferecer a ela o melhor dos biscoitos — “Você nunca conhece realmente as pessoas. O ser humano é mesmo o mais imprevisível dos animais. Das criaturas. Vá lá. Gosto de voltar a este tema”.
Pensei em ir à cozinha… colocar a água para ferver e ler o restante da crônica durante o tempo de espera. Mas, a mente começou a puxar coisas lá de dentro e eu fui espalhando tudo, ali mesmo. Quem me conhece sabe que não gosto de pessoas e tenho predileção pelos cães, que não repetem frases prontas-alheias e não se esforçam em demonstrar afeto, tampouco apresentam justificativas toscas-descabidas — apenas reconhecem o malfeito… e tudo bem.
Conheci uma pessoa que, desenvolveu o estranho hábito de ir até o fundo do quintal para arrancar — pacientemente — um punhado de daninhas, por dia. Me acostumei a observá-lo da janela do segundo andar da casa e reparei que um cão o acompanhava pacientemente. Parecia imitar o homem ao arrancar sua porção de daninhas — devoradas com satisfação canina. Era impossível saber quem iniciou o ritual.
Dias depois, eu soube que o homem travava uma batalha diária — somente por hoje. Em sua soma particular de vivências, totalizavam quase dez anos de recusa. Dizia não — com algum pesar — a um copo cheio. Resistia bravamente ao primeiro e definitivo gole. Não aceitava o sabor que se precipitava dentro. Engolia seco e colhia seu punhado de daninhas pacientemente. O que ninguém sabia e ele não revelava era o que o tinha feito parar de beber e enfrentar o vício.
Voltei a leitura e ao me deparar com o trecho em que Hilda mencionava uma entrevista concedida por Auden (escritor inglês-estiloso) fiz nova pausa ao ler a pergunta que lhe foi feita — “o que aconteceu com os seus gatos?” — ao que ele respondeu calmamente — “tive que mata-los, pois nossa governanta faleceu”.
Arregalei os olhos e me lembrei de uma amiga que adora felinos e os leva para casa sempre que um atravessa o caminho dela. Imaginei a reação que teria, certamente amaldiçoaria Auden e toda a sua poesia.
Respirei fundo… observei o cenário, a prateleira que me oferece um exemplar raro do homem-poeta-assassino-de-gatos e tentei pensar em ingredientes para uma refeição noturna.
E, enquanto revirava os armários, em busca de apetrechos, recordei uma conversa recente à mesa — noite de sábado de janeiro. Meu caro colega de cenas-diálogos mencionou não ter apreço por seres caninos. E eu, que sou pautada pela frase: “não confio em humanos que não gostam de cães” levantei a sobrancelha esquerda, me revirei na cadeira e como se estivesse em um prédio em chamas, procurei pela porta de saída, me certificando dos obstáculos que teria que superar para me colocar em fuga. Antes que eu realizasse qualquer movimento, o ouvi mencionar — descontente — que o cão do vizinho, não o deixava se esquecer de que na porta ao lado, reside um animal de quatro patas. Assim que pisa na garagem do prédio — vários andares para baixo — o cão dispara seu latido…
Quando criança, ao andar pelas ruas da cidade em que cresci, me deparei com um cartaz que anunciava a exposição de Magritte e reproduzia “Golconde” ou “a queda” de 1953 — onde se pode ver uma chuva de homens de chapéu coco.
Senti um desconforto imediato, como se Renne Magritte tivesse compreendido o que era sentimento em meu avesso-mínimo. Eu observava as pessoas em bando… e reparava que eram todas iguais — fosse na fila do pão, ao atravessar as ruas ou ao ocupar seus lugares, na sala de aula, plateia do teatro-cinema. E eu não me misturava a elas. Sentia pavor de ser igual a elas. Buscava manter uma distância segura e me posicionar de maneira a espiar o cenário surrealista, retratado por Magritte.
Fiquei alguns segundos parada diante do cartaz — completamente seduzida por aquela imagem. Não reparei que me comportava feito um cão — a virar a cabeça de um lado para o outro. Desconfio que Hilda teria feito o mesmo. Melhor que se comportar como os alemães que ouviam Bach, liam Rilke durante às noites e saíam pela manhã para trabalhar em Auschwitz.

 | * verso da música Suburbia do Pet Shop Boys |

Publicado por Lunna Guedes

lunnaguedes... sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios. não gosta de fazer compras. detesta dias de sol. ama dias de chuva. não aprecia o verão tropical. ama o outono em qualquer lugar. escreve por escrever somente. seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda, sem pouso. adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros... a direção na qual a ponta do grafite avança. sabe que seus escritos são obras inacabados... nunca prontos. ponto final é uma coisa incompreensível. gosta de vírgulas e exclamações.

2 comentários em “* Let’s take a ride and run with the dogs tonight

  1. Oi Lunna não consigo simplesmente zanzar pelos cômodos e pegar um livro…Sempre faço uma TBR, como se estivesse marcando um encontro, como se não fosse intima o bastante para simplesmente chegar…
    Acredito que todos temos nossas ervas daninhas para arrancar, lutas diárias…Mas, só por hoje (assim espero) resolvi apenas observar…
    Abraços

  2. Oh, prodigiosos homens – assassinos e caridosos – perfeitos em sua grandiosa pequeneza… Lunna, você quase fez, em tão poucas linhas, um compêndio-resumo de nossa triste condição…

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