O que ando a ler

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Março começou… mas eu ainda não comecei nada. Nem o projeto do ano em que irá abrigar-agasalhar a minha escrita, nem os projetos que invento e reinvento dentro dos dias. Estou pelo caminho… a flutuar no espaço, like always.
Eu li muito — de tudo um pouco nos últimos dias. De poesias outras-alheias. Algumas linhas… eu tomei para mim. Outras deixei por aí, em bancos de praça… presas a um ontem que eu recusei. Eu recuso muitos ontens — são figuras repetidas num álbum quase cheio.
Março começou… e eu devolvi Auster — com quem conversei em fevereiro — à prateleira.  Tenho os meus preferidos — mas não os listei. Faz algum tempo que listas me aborrecem e eu prefiro reconhecê-los através do tato.
Auster em seu invisível… me fez perceber que eu nunca fui desafiada. Quando conclui os estudos, antes da maioria. Sabia o que queira-pretendia. Já tinha publicações e um lugar para atuar. Ninguém olhava para mim… como se eu fosse uma ninguém a caminho dos vinte anos.
Sempre culpei os óculos — que voltei a usar recentemente — de me conferir qualquer coisa de maturidade. E me acostumei a brincadeira de removê-los diante do espelho — em alusão ao Clark Kent dos almanaques lidos na infância. Diante do espelho repetia Baudelaire, Campos ou Eliot em voz alta enquanto imaginava uma segunda identidade fantástica.
Poucas pessoas perguntavam a minha idade. A maioria temia errar… se equivocar. Apontar mais anos… e me ofender com a premissa da velhice. Mas eu sempre fui uma criatura precoce. Me acostumei ao antes e depois…
Poucas vezes até hoje, a pouca idade foi um problema. Certa vez m correspondente português se ofendeu com a pouca idade. Tinha treze e ele mais que o dobro. Me abandonou… alguma coisa em mim se quebrou para nunca mais. Fiquei sem ar e demorei a me acostumar com a realidade depois disso. Muito mais por não compreender a atitude de um homem mais velho, que se mostrou incapaz de compreender a minha pouca idade… não reconhecida nas linhas que eu enviava pontualmente semana após semanas desde os meus onze anos.
Eu tinha consciência da minha imaturidade. Nunca a recusei, pelo contrário. Tentava compensar com leituras que eu considerava enriquecedoras. Tinha lido Fiodor naqueles tempos. Queria um discurso coerente com as minhas emoções-sensações. Estava completamente atordoada com as sentimentalidades… e ele me ofereceu o seu  melhor e depois subtraiu tudo. Foi difícil… mas me serviu de Norte nos dias seguintes. Nunca mais me importei com o que pensavam a meu respeito.
Eu me acostumei a viver no limite — a não planejar. Da primeira vez não deu certo. Todo os planos feitos… falharam. Foram interrompidos abruptamente. Alguém disse ser coisa do destino… mas eu nunca soube usufruir dessa palavra.
Eu nunca precisei convencer alguém da minha capacidade. Fiz as escolhas como quem brinca com dados… arremessando-os na mesa. E após a soma feita, avançava casas e pronto. Experimentava tudo que a vida determinava.
O que eu tinha a perder? Um momento de reflexão e de escrita? A juventude me fez considerar pouco depois de ter perdido quase tudo. Os dados sempre apontavam somas improváveis e o tabuleiro me mandou recuar algumas vezes. E percebi que se o jogo terminasse… sempre poderia recomeça-lo. Quantas vidas se vive?
Março começou… e eu me sinto como uma daquelas bonecas russas — matrioscas. Uma história dentro da outra. Eu seria um excelente personagem para Auster, que gosta de tramar narrativas serpenteantes. E eu gosto de ser alguém que nunca calculou o salto ou o risco. Apenas se colocou em queda — consciente de que quando se oferece ao abismo… é apenas cair e cair e cair, como fez a Alice do Carrol.

Livros Invisível e Homem no escuro
Autor Paul Auster
Editora Companhia das Letras
Tradução Rubens Figueiredo

Publicado por Lunna Guedes

lunnaguedes... sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios. não gosta de fazer compras. detesta dias de sol. ama dias de chuva. não aprecia o verão tropical. ama o outono em qualquer lugar. escreve por escrever somente. seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda, sem pouso. adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros... a direção na qual a ponta do grafite avança. sabe que seus escritos são obras inacabados... nunca prontos. ponto final é uma coisa incompreensível. gosta de vírgulas e exclamações.

8 comentários em “O que ando a ler

  1. Queridíssima Lunneta!,

    Paul Auster e cafés — vou te denunciar aos mecanismos WordPress por publicares imagem tão pornográfica.

    A editora portuguesa ASA (que é bem um galho de LeYa) possui no próprio catálogo A música do acaso, minha obra predileto do Auster. Como sei que também gostas das traduções lusitanas, achei que poderia ser interessante compartilhar.

    Forte abraço brasiliense para ti,

    P.

  2. Eu sempre fico encantada com seus textos, me levam para tempos já passados, recordações e me trazem várias reflexões.Além que sempre imagino cenas e situações.
    Nunca li Auster, mas me causou enorme curiosidade agora.

    Bacio,

  3. Que texto maravilhoso, Lunna. Encantada com a alusão às bonecas russas e Alice. Também faço mais coisas sem planejar hoje em dia. Perdia tanto tempo planejando que a execução acabava não sendo como eu esperava. Sem planos a gente se surpreende mais. E não me sinto bagunceira ou desorganizada por isso, me sinto mais viva, menos estressada.

  4. Nunca li Auster, mas sempre tive curiosidade. Admiro muito a sensibilidade dos seus textos, aceitar ser diferente, reconhecer a própria (i)maturidade… Isso ajuda tanto a gente na vida. Caminhemos junto àqueles que são capazes de reconhecê-la e aceitar conosco.

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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