01 | Habemus Aprile

A primeira vez em que li o poema the waste land de T.S.Eliot… eu estava a bordo da minha segunda década de vida. Eram os anos noventa… e Nick French tocava nas rádios — stop in the name of love. A  Dance music estava de volta como se fosse novidade. A cultura Clubber ainda tinha espaço entre muitos de nós e os nerds eram o alvo favorito dos valentões nas escolas.
Eu usava óculos, tinha cabelos curtos e pretos. Usava aparelho nos dentes e calçava tênis ortopédico. Eu era uma criatura que tentava passar despercebida pelos corredores da escola. Me refugiava na Biblioteca ou entre árvores para ler os meus livros em paz. Ocasionalmente acabava descoberta por adultos dispostos a me importunar com suas idéias de certo e errado.
Eu ouvia Elton John e cantava com ele mars ain’t the kind of place to raise your kids/ In fact, it’s cold as hell. Curtia os filmes do John Hughes e me identificava com a apatia de Cameron, personagem do filme Ferris Bueller’s Day Off. Lia os almanaques da Marvel em meu quarto, de frente para a janela que exibia uma cidade incansavelmente azul. Escrevia Fanfic de Arquivo X no caderno de geografia — que nunca era usado em sala de aula. E quando me jogava na cama, planejava enfrentar o vilão Darth Vader com meu sabre de luz e fazer uma viagem no Delorion do Dr. Emmett L. ‘Doc’ Brown para uma data qualquer no passado.
Com pouco mais de um metro e meio de altura tinha decidido jogar basquete e conquistar uma inusitada vaga no time do colégio. Não tinha apreço por esportes e as chances de meu plano dar certo, eram mínimas e seria o meu primeiro fracasso. Minha paixão eram os livros de história e de poesias contemporâneas… lidas em voz alto no telhado, a luz de uma lanterna — minha porção secreta de mundo, onde eu podia espiar a lua, as estrelas e as gaivotas em seus vôos sincronizados.
Naqueles dias, havia no ar um temor por uma nova grande guerra Mundial (a terceira) que acreditavam ser um dos segredos de Fátima — uma santa que apareceu para três crianças e fez importantes revelações sobre o mundo, que foram mantidas em segredo pela Igreja. Sempre que o assunto emergia em minha realidade, eu pensava em dardos sendo arremessados contra um alvo… enquanto tentava compreender o sentido de uma grande guerra ao repetir os versos da música do Michael Jackson, recém-lançada  — and the entire human race There are people dying If you care enough for the living Make it a better place For you and for me.
E foi no meio de tudo isso que eu li o poema de T.S.Eliot — abril é o mais cruel dos meses, germina / Lilases da terra morta, mistura / Memória e desejo, aviva / Agônicas raízes com a chuva da primavera. / O inverno nos agasalhava, envolvendo / A terra em neve deslembrada, nutrindo /Com secos tubérculos o que ainda restava de vida pontuando para todo o sempre o mês de abril em minha anatomia.
Eu estava sentada na mesa do quintal dos fundos — cenário dos almoços de domingo —, com os pés apoiados no banco. Levantei os olhos e ao olhar para cima… vi os raios de sol passar por entre os galhos da laranjeira deixando no ar um rastro de poeira astral. Pensei imediatamente no futuro a partir da premissa de Giorgio Agamben. Naqueles dias, o futuro era coisa típica dos filmes… de volta para o futuro e uma odisseia no espaço, de escritores e pensadores ocupados em analisar nossos movimentos.
Quando se tem doze anos, você não vai muito longe nessa coisa de futuro. Tudo é muito longe, fora de alcance e acaba sendo deixado para depois. A estrada é longa. Eu estava ocupada em sobreviver à escola e decidir como responder a famosa pergunta feita na infância: o que vai ser quando crescer?
Eu precisava escolher-definir. A resposta que eu gostava de repetir — quero ser um marinheiro — não agradava os adultos e eu precisava tomar uma decisão para poder calcular tudo que seria necessário para investir numa resposta definitiva. Eu considerava que ainda era jovem demais para definir a minha vida adulta, mas aparentemente eu já estava atrasada.
E ao pisar nesse tal de futuro não-calculado… não me parece muito legal. Espio a cidade mutante a partir da varanda onde escrevo nos últimos dias. O mundo e as pessoas surtaram. Os adultos desse tempo falam e falam e falam sem preocupação alguma com o eco que suas palavras provocam. Batem panelas… gritam ofensas contra tudo e todos. Duelam entre certo e errado. É visível que estão com medo da realidade que eles mesmos arquitetaram.
Respiro fundo — o ar está mais leve nesses dias de clausura. Removo os óculos da frente dos olhos — como fazia na infância para embaçar a realidade. Fecho os olhos… me aconchego dentro por alguns segundos — e os versos do poeta inglês retornam com força. Emergem lá dos meus doze anos, quando eu soube que Eliot seria um poeta para uma vida inteira.
Eu gosto de poesias que são espelhos… que me fazem pensar na vida, nas pessoas e eu vejo refletir esse contemporâneo por inteiro nesses versos — penso que estamos no beco dos ratos / Onde os mortos seus ossos deixaram. Os sagrados versos de Mr. Thomas Stearns Eliot nunca fizeram tanto sentido. Estamos todos devastados e por mais estragos que o vírus SARS Covid-19 esteja a causar em nossa sociedade — estamos devastados por algo bem pior: a nossa ignorância.

Bendito seja o vosso fruto.
Amém.

| escrita ao som de rocket man |


beda

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

17 comentários em “01 | Habemus Aprile

  1. Confesso que corri primeiro ao link da música e Elton John ecoou no meu quintal povoado de estrelas e uma lua em crescente sendo acarinhada por nuvens. Depois, de ler-te, visualizei as cenas… é como se eu estivesse ali, em espreita.
    Eliot anda tão presente em minha vida por tua causa. Estou de novo relendo Lua de Papel, como sabes, e lá, os versos dela aparecem e sorvo, para além das leituras os poemas através de tua escrita. Adoroooo!
    Grazie!

    1. Boa noite cara mia, estava cá a pensar em Eliot, que devolvi a prateleira porque abril se foi e preciso de um pouco de ar depois de seus versos ler e re-ler tantas vezes no dias que passaram. Agora, creio que estou pronta para ler e reler Lua de papel (livro um).
      Veremos…

      bacio a te

      Hoje ouço o menino inglês, mas a música é outra.
      Feliz por saber que está de volta ao seu canto.

  2. É visível que estão com medo da realidade que eles mesmos arquitetaram.
    Acho que essa é a maior verdade, nem nós aguentamos mais viver na realidade que nós mesmo nos prendemos.
    Lindo, e reflexivo texto.

  3. Sabe o que acho estranho? É que apesar de quase 20 anos nos separarem, por você estar à frente de seu tempo e eu congelado no meu, a sensação é que comungamos dos mesmos sentimentos e impressões sobre o mundo. Ah! Nos falta o desafio no basquete…

    1. É fato, o desafio do basquete… mas, agora não tenho mais quadra no prédio e teríamos que ir a uma quadra comunitária em algum lugar da cidade, como estamos em isolamento social, ficará para outro tempo que não este.

      bacio

  4. Alguns encontros, pela vida, são definitivos… Significam um lugar para onde desejamos voltar repetidas vezes, talvez para respirar; e, respirando, encontrar o silêncio tão necessário para o ser. Acho que é a segunda ou terceira vez que tomo contato com teus relatos sobre teus encontros com T.S. Eliot e a sensação que me invade é de encantamento pela menina/mulher, tão frágil e tão forte, tal como a vida, sobretudo num tempo em que ela carece de sentidos. Grata pela partilha!

    1. É um poeta que me tocou desde o primeiro contato. Sabe aquele sacudir que te faz ter noção de tudo que se é e não é? Pois, foi exatamente isso… e desde então, volto a sua poesia em busca de um Norte.

      bacio cara mia
      sempre muito bom tê-la por aqui

  5. Esse abril de 2020 foi pesado, tenso, longo…Muito barulho e pouca ação…Pessoas dizendo absurdos, mas, e daí??? Triste ouvir isso de quem deveria nos representar…Também fico a espiar, mas, me enojo e volto para o meu eu…Enfim, acabou…Que maio seja mais leve…
    Abraços

  6. Li de um só folego e, depois, reli. Me encanta como você nos oferece viagens aos tempos – lugares da tua infância, e depois nos trás de volta em um piscar de olhos. Acredito, assim como você disse no texto, que estamos realmente sendo devastados pela ignorância e o vírus é apenas mais um elemento nesse caos.

    Beijos!

    1. Ah, minha cara… queria tanto estar enganada quanto a essa onde de ignorância, mas vi as notícias (há pouco) desse primeiro de maio e já me desorientei. Não seremos melhores depois que tudo isso passar. Infelizmente seremos apenas o que somos. Triste, mas é isso mesmo.
      Grata pelo seu olhar…

      bacio

  7. No mês de abril, apesar de tudo, foi um mês que eu gostei bastante. Mesmo não tendo lido muito, fiz várias outras coisas. Uma delas é estudar muito inglês (to amando <3)
    Eu amei seu poema ❤ aaaah, vi que esse post faz parte do BEDA. Eu até tentei fazer mas flopei no Décimo segundo post hahahah mas mesmo assim eu gostei do resultado!

  8. Volta e meia me pego fazendo reflexões sobre a pessoa que eu fui, seja há uns meses quando tudo ainda estava mais ou menos bem, ou a de anos atrás, uma mini Luh que queria ser astronauta e que olhava fascinada para a Lua (Ainda olho) e lia livros na biblioteca da escola (não lembro o nome de nenhum rs). No mês de abril eu realmente percebi o quão rápidas as coisas podem mudar.

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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