02 | dia mundial da poesia?

No mês passado… me perguntaram como eu iria comemorar o dia mundial da poesia. Eu arregalei os olhos — típico de quem leva um susto —, levantei a sobrancelha esquerda e  olhei ao redor — feito pássaro — em busca de pouso.
Meu calendário pessoal não se ilude com datas. Lembro-me de uma ou outra apenas. Dois ou três dias de junho. Um ou dois dias de agosto-novembro. — o resto me escapa. Nem mesmo sei dizer que dia é hoje sem espiar o rodapé do notebook.
Não me prendo a rotina de semanas-meses devidamente numerados — uns com mais e outros com menos. Sempre acontece de eu me esquecer do aniversário de alguém — mesmo com os constantes avisos das redes sociais. Não sei se alguém ainda se surpreende com o meu esquecimento. Nunca foi um hábito celebrar datas e acho que aniversário é substantivo próprio. E eu nunca sei o que dizer. Digo auguri e tudo que vem depois disso é qualquer coisa errática.
Minhas manias são outras… gosto imenso de me lembrar de alguém sem orientações ou obrigações de datas. De estar a andar pelas calçadas da cidade e recordar falas-diálogos-um-copo-de-café. De ir à prateleira para pegar um livro e a poesia na primeira página trazer de volta um momento, uma palavra, uma pessoa. De abrir o meu diário e me deparar com uma fotografia que faz o ar percorrer todos os caminhos do corpo-mente-alma.
Comemorar o dia mundial da poesia (?) como eu faria tal coisa? Iria até a prateleira e escolheria um livro? Faço isso naturalmente as segundas-terças-quartas… no meio do dia… do passo — enquanto espero pela xícara de chá ou por alguém.
A poesia me ensinou a ler as paisagens. A enxergar diferentes tons. A ultrapassar anatomias e compreender o que é um olhar verdadeiramente úmido. A poesia que eu leio, também me lê… me cala e me faz ficar dentro — a suspirar-soluçar —, nesse lugar onde poucos tem acesso. Eu mesma, por muito tempo, vivi alheia-ausente… desse Abismo.
Há poetas — homens-mulheres —, que me são caros e que percorrem minha epiderme e dialogam com minha amalgama. Silenciam o mundo-momento… a minha voz. E eu reaprendo a realidade a partir deles.
Emily Dickinson me falou em abismos. Foi Drummond quem chamou a minha atenção para os dias de outono. Mário de Andrade me fez reparar nas cores do entardecer e no som incrível dessa palavra. Baudelaire narrou a riqueza do caminhar por calçadas urbanas, embaçadas de neblina. Eliot descreveu as silhuetas escuras de uma casa antiga, em chamas.
A poesia não precisa de datas… apenas de um olhar que pousa em uma  rua escura com seus fantasmas de ontem. Uma folha em seu último voo de vida-e-morte. A fumaça do último trago. O silêncio que fica quando não há mais o que dizer. Dois olhares, certos do fim, a acenar um adeus.
E nós precisamos dos poetas para nos atrair para as pequenas coisas, as que de fato valem e que ficam despercebidas em meio a tantas outras coisas. Não fossem os poetas eu seria — fatalmente —, alguém desatenta e saberia bem menos do que sei hoje… e olha que sei pouco ou quase nada.


Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

15 comentários em “02 | dia mundial da poesia?

  1. Caríssima, boa noite. Essa quarentena me fez precisar muito de de poesia e de conhecer novos poetas. E acho que foi por isso que voltei a ler o teu Septum, você sempre me apresenta poetas maravilhosos. Eu conheci Baudelaire e tantos outros através de você.

    Espero que você esteja bem, viu?
    bisous

  2. Eu adorei o post, a sua narrativa é sempre poética. Não sei como tem força para escrever nesse ritmo. Eu sou mais seca, direta. Você enfeita as frases e fica bom, bem bonito de se ler.
    Reparei que também fazes do Starbucks o vosso escritório. Está na moda por aqui também, ou melhor, estava, já que estamos confinados.
    Eu também compartilho do mesmo hábito, mas não no Starbucks (que gosto) mas tenho um assento cativo no café do “meu” parque, que faz o melhor cappuccino do mundo. Também adoro o café Costa. Aliás, adoro trabalhar em cafés, já em adolescente ia estudar para lá.

    1. Trabalhar em café é excelente, estou a sentir falta. A primeira coisa que farei após passar a quarentena, vai ser me enfiar em um café e passar o dia todo por lá. rs

      bacio

  3. Lunna, você simplesmente arrasou nesse texto. Que fôlego, que compreensão do que vem a ser poesia. Aliás, você é uma das responsáveis por meu mergulho fundo na poesia. Antes, ficava só no raso.Obrigada querida!

  4. Poesia é um daqueles relacionamentos longos que percebemos ser real quando deixamos de publicar fotos felizes no facebook e de celebrar as bodas, passando a simplesmente apreciar com naturalidade a companhia do outro

  5. Confesso que não sou boas com as datas tipo: dia da poesia, dia das mães, dia disso, mesmo porque em mim, a poesia é diária…
    Bacio

    1. Eu só soube que hoje era feriado porque uma amiga avisou da data. Nunca me lembro de nada, apenas de ir a prateleira e pegar por lá um livro… de poesias.

      bacio

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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