07 | Escreve-se… e pronto!

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Hoje, ao observar a paisagem urbana… me lembrei da primeira vez que me sentei para escrever uma história. Abri o caderno em sala de aula… e corri o grafite pelas linhas sem compromisso algum com regras literárias. Escrevi por escrever somente uma história do meu tamanho, enquanto tive linhas-páginas. Não pensei em leitores-livros-livrarias-prateleiras — nada. Apenas na história que eu queria narrar-contar. E foi o que eu fiz, aos poucos — migrando para um mundo próprio-particular, alheio a realidade. Escrevi a partir das minhas fronteiras — a escola foi meu cenário… e os personagens foram as pessoas com quem eu convivia naqueles dias: vizinhos-amigos-alunos e alguns professores.

Foi uma experiência curiosa! Fui minha única leitora durante dias-semanas… quase um mês inteiro. Escrevia durante as aulas de geografia e lia — linha por linha — sentada num dos bancos de cimento da Praça que ficava no meio do caminho… entre a escola e a minha casa. Gostava imenso de ouvir o som das folhas do caderno em movimento… e da minha própria voz a pontuar a trama.

Eu nunca desisti da escrita mesmo indo em outra direção oposto a literatura. As narrativas aconteciam naturalmente em silêncio, do lado de dentro. Escrevi muitas histórias no ar. Os processos da escrita se ofereciam a minha matéria naturalmente, sem técnica-regra… apenas uma necessidade natural de narrar outras vivências numa espécie de vôo ao sabor do vento.

Eu acreditava, no entanto, que avançava seguro em outra direção. Não reparava que a literatura acontecia em mim… numa espécie de universo paralelo com cenário-personagem e histórias. Roteiros inteiros. Cenas de filmes… de Allen a Hughes. Quando me sentava na mesa dos meus cafés favoritos, observava marcações, percebia ensaios e me antecipava aos diálogos, como se os estivesse a escrever ali mesmo, naquela fração de minuto.

A escrita aconteceu em minha vida-matéria-corpo… e pronto.

Quando olho para trás, estou sempre a escrever — a riscar o papel nos mais diversos e inusitados lugares. A ser meu próprio personagem — o mais indócil de todos. Narro a minha trajetória na terceira pessoa. Empresto o meu corpo para o outro, que não eu. É sempre um segundo antes-depois. Uma pausa e a cortina se abre… observo o cenário e a personagem que sou, misturadas a tantas outras que não eu emerge e assume o controle dessa nau. Sou despejada da minha matéria e assisto do lado de fora a esse jogo de cena. 

Anos depois daquela primeira narrativa infantil… rascunhei várias outras e reconheci depois de um pesado gole de café, que a bússola aponta sempre para o Norte, a única direção possível para alguém como eu.

 


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Publicado por Lunna Guedes

lunnaguedes... sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios. não gosta de fazer compras. detesta dias de sol. ama dias de chuva. não aprecia o verão tropical. ama o outono em qualquer lugar. escreve por escrever somente. seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda, sem pouso. adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros... a direção na qual a ponta do grafite avança. sabe que seus escritos são obras inacabados... nunca prontos. ponto final é uma coisa incompreensível. gosta de vírgulas e exclamações.

12 comentários em “07 | Escreve-se… e pronto!

  1. Fiz o exercício de buscar o meu primeiro texto. Só consegui chegar aos 10/11 anos foi um texto sobre a destruição do Skylab. A minha preocupação sobre onde cairiam os destroços. Escrevi-o no terraço aberto da casa que vivia.

  2. Lunna, boa noite,
    passou no meu canto, eu passei no seu, e de repente, entre parágrafos, há um encontro de desejos e vontades de prosseguir num rasto de linhas, letras e narrações.
    vou continuar a passar.
    Mia

  3. Escrever é uma terapia. Muitas vezes uma autorreflexão… Deixar livre e solta a imaginação. Adorei sua história com as letras e o pensamento. Obrigada por repartir conosco Lunna. Bjs

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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