08 | vermelho, por dentro!

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Eu estava em Paris dias de abril para um reencontro combinado no dia anterior. Tinha escolhido a mesa, feito o pedido e me acomodado na cadeira do Café de Flore para esperar por Pr e juntos comer blinis e beber café no mesmo lugar que Beauvoir e Sartre.

Eu sempre chego antes aos cafés porque gosto de me ambientar. Passar um punhado de minutos a sós. Ouvir frases pela metade. Observar o cenário de cadeiras e mesas. Fazer perguntas aos atendentes e compreender a rotina do lugar-cenário bebericar pequenos goles da melhor bebida e pronto…

Nesse dia, uma jovem acompanhada por uma dama (senhora de si) sentou-se na mesa ao lado. A estranha de cabelos revoltados-armados-emaranhados cruzou os braços a frente do corpo e ali ficou a dizer-se no idioma local. Era uma artista… e eu uma psicanalista recém-formada, começando minha jornada-caminhada-profissional. Ela planejava a sua primeira exposição… e eu planejava não pensar pacientes. Queria ser apenas uma pessoa comum na multidão. Alguém à espera do eterno-amigo e só.

Reparei quando esparramou dúzias de rascunhos-nada-perfeitos por cima da mesa sob o atento olhar da mulher que fingia indiferença… enquanto revirava o cardápio sem conseguir se decidir.

Busquei por um livro no fundo da mochila poesias de Baudelaire, perfeito para se ler em Paris — e se distrair da cena para a qual não fui convidada. Mas, sem conseguir avançar na leitura dos poderosos versos voltei-me para a cena peculiar.

Soube que eram mãe e filha… duas estranhas que nada diziam uma a outra. A filha estava ali, por obrigação. Era uma espécie de hora marcada. Após cinquenta minutos… a jovem artista se levantaria e iria embora com um cheque que pagaria suas contas-mês aluguel, curso e as refeições diárias.

Após fazer o pedido, a mulher estrangeira reclamou em voz alta: seu irmão vai ser pai pela segunda vez e a sua irmã está noiva. E você não pensa no seu futuro. Precisa encontrar alguém. Eu não vou viver para sempre.

Vi quando a jovem levantou os olhos e pousou na figura da mãe… uma mulher muito bem educada, elegantemente vestida. Senhora de modos refinados… a filha era o oposto de tudo isso. Esperei por uma reação áspera, uma frase de efeito que não veio. Ela apenas quis saber se ela já tinha decidido o que iria pedir. Um cappuccino — o mesmo pedido das outras vezes.

Aprendi os traços e repeti alguns gestos tornando-os meus… era um hábito antigo que eu costumava repelir até então por considerar não ser nada fácil lidar com a trilha de migalhas de pão.

Alguns anos mais tarde… estava no trem a folhear uma revista deixada no banco e me deparei com a figura da Artista. Parecia a mesma menina do Café, com os cabelos bagunçados e as roupas sujas de tintas… falava do sucesso de sua nova exposição. Exaltada pela crítica: “é uma das poucas artistas que conseguiu juntar, de modo original e inteligente, a linguagem contemporânea às questões pertinentes que, em sua produção, alcançam uma dimensão muito densa, sem nenhum aspecto anedótico, proselitismo ou excesso de literatura”.
Tenho para mim que enquanto observava a sua fotografia em preto e branco, todo o colorido da trama vermelho por dentro — o primeiro rascunho-promessa-premissa de romance — se escreveu em mim…

Publicado por Lunna Guedes

lunnaguedes... sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios. não gosta de fazer compras. detesta dias de sol. ama dias de chuva. não aprecia o verão tropical. ama o outono em qualquer lugar. escreve por escrever somente. seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda, sem pouso. adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros... a direção na qual a ponta do grafite avança. sabe que seus escritos são obras inacabados... nunca prontos. ponto final é uma coisa incompreensível. gosta de vírgulas e exclamações.

10 comentários em “08 | vermelho, por dentro!

    1. Calma, meu caro porque dá muito trabalho escrever um livro. Meu último romance começou a ser escrito em 2004 e só foi lançado no ano passado. Mas agradeço os votos. bacio

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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