15 | Pessoa e eu!

“Meu coração é um almirante louco que abandonou a profissão do mar”. — foi o que disse Campos, em um de seus poemas que termina com a pergunta: “e onde diabo estou eu agora com almirante em vez de sensação?”…

…esse foi o primeiro poema de Campos que li em voz alta. Estava a andar pelas ruas de Lisboa — em boa companhia —, quando vi o livro do homem na vitrine de uma pequena livraria.
Entramos! E, com o livro em mãos… o abri por abrir somente, orientando pelo som das páginas em movimento e, eis que o Soneto tropeçou em meus olhos. Começou assim meu diálogo com esse Senhor. E a pergunta feita, ao final do verso, tornou-se minha. Durante anos a repeti diante do espelho. O cansaço nos músculos cansados de parar, tornou-se minha metáfora, e eu fui seguindo os passos desse poeta — numa leitura sem Norte, sempre orientada pelo movimento das páginas. Tinha compromisso apenas com a poesia e não com a sequência que o livro oferecia.
Passei a questionar o que teria acontecido ao Poeta Pessoa se a compreensão da solitudine não tivesse sido alcançada… porque a solidão é um veneno que deve ser tragado em pequenas doses diárias… para que faça efeito.
Baudelaire afirmou: é preciso compreender a solidão… e concluiu, dizendo magnificamente… aquele que não povoar a sua solidão, também não é capaz de ficar sozinho em meio a uma multidão. E ainda citou Pascal, que gritou, em seu discurso feito para ninguém ouvir: quase todos os nossos males nos vêm de não termos sabido ficar em nossos quartos.
Foi a primeira coisa que aprendi em vida: a trancar-me dentro da matéria. É seguro. Confiável. Tudo chega até a mortalha, mas há — na porta de meu corpo — um velho capacho a dizer: não é permitida a entrada.
Foi lendo Pessoa que entendi muito do que eu sentia. A sombra da melancolia, que sempre resvalou em meu corpo e tanto incômodo causou aos outros. A quietude, que sempre me fez debruçar sobre folhas de papel foi motivo de preocupação no período escolar. Ela não se mistura — diziam os inconformados. A pouca disposição para a fala… e a tendência ao vício: o pesado gole de café e o cigarro imaginário entre os dedos… a  deitar no ar pesadas baforadas — igualmente imaginárias. O diálogo — demorado — com o teto branco. A pouca paciência para com discursos sonoros. As noites inteiras a ler em voz alta os meus poetas favoritos. Os olhos cansados para o dia. Os passos curtos, mais lentos dentro da tarde. As mãos aconchegadas dentro dos bolsos e o olhar baixo-enviesado para os lados… em busca de personas que eu pudesse colecionar.
Quando o cugino Pr. me apresentou Tabacaria… senti abalos sísmicos em toda a extensão do meu corpo. Aqueles versos gritaram comigo. Me vi em ruínas, no chão. Minha alma foi arrancada e devolvida — pouco depois — ao meu corpo… numa espécie de susto que tira tudo do lugar.  Eu tinha minhas tragédias e sangrava por elas… mas, não tinha mais nada além disso.
Campos tinha as palavras, a sua solitudine e, principalmente, o seu silêncio. Eu tinha  somente o barulho. Era como se eu estivesse em alto mar, num navio cheio de rasgos, e alguém lá no alto a gritar o óbvio: tempestades a bombordo… e eu lá embaixo, indiferente à fragata, às nuvens e ao idiota que insistia em me avisar do que eu já sabia…

homem ao mar!


beda

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

3 comentários em “15 | Pessoa e eu!

  1. Como não se encantar e admirar uma alma como a sua?…vc passeia sobre sentimentos como a ave em seu voo mais alto….

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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