A imaginação pornográfica

Passei um par de minutos a falar com o teto depois de ler o ensaio de Susan Sontag  a imaginação pornográfica , em que ela defende a ideia de que ninguém deveria falar da pornografia sem antes reconhecer a existência das pornografias. No ensaio, publicado no Brasil pela Companhia do Bolso, ela propõe considerar três tipos. Mas dá especial atenção ao gênero literário, não sem considerar que, por falta de outro melhor, estava disposta a aceitar o duvidoso pornografia enquanto rótulo.
Eu cresci em uma realidade comum. Uma casa com dois adultos às vezes, três ou mais , responsáveis e ainda me lembro da minha primeira aula sobre sexo. Estávamos sentadas em minha cama e o tema foi inserido com naturalidade. Falamos sobre o crescimento, as muitas mudanças no corpo e das metamorfoses que ocorreriam por dentro e por fora. Basicamente, eu soube que teria um corpo de mulher que exibiria um sem-fim de emoções e sensações. Muita coisa por experimentar. Vontades por conhecer e tudo isso regulado por um monte de hormônios. Ou seja, uma grande bagunça que estava prestes a entrar erupção. Por fim, me foi dito que era possível experienciar tudo, contanto, que eu estivesse disposta a isso.
É curioso lembrar do desconforto que eu senti. Não estava diante de uma estranha. Era a minha mãe pontuando todas aquelas coisas e mesmo assim, não sabia como reagir e o que dizer. Quando ela perguntou se eu tinha alguma dúvida… me apressei em balançar a cabeça de um lado para o outro. Consciente disso, a conversa foi encerrada, mas não o assunto… que foi retomado outras muitas vezes com igual naturalidade.
Eu tinha treze anos quando tive em mãos o livro de contos de Anais Nin e fiquei impressionada com a narrativa daquela mulher-escritora. Li conto por conto de delta de vênus, histórias eróticas e gostei  como é comum na literatura , mais de uns que de outros. Anais fala em pele, corpo e nas emoções que causam arrepios por dentro e por fora, em fantasias que não se guardam e que, na escrita de Anais, tem total liberdade para existir.
Gostei imenso de ir ao cinema com uma mulher que olha para a amiga, sentada na poltrona ao lado e, repentinamente começa a vê-la nua… o que serve de estímulo para suas emoções secretas. A pele convulsiona e o desconforto aflora devido ao medo que a personagem sente de ter suas sentimentalidades reveladas. Em estado febril, ela volta para casa andando apressadamente como se toda e qualquer pessoas soubesse do que se passava com ela e ao chegar, se entrega ao marido numa euforia nova, que não fica claro se é reconhecida por ele.
Não gostei do conto do Barão em que ele se apodera de uma menina, a própria filha. Mas não me surpreendi com a trama. Já tinha ouvido falar de adultos que agem de maneira imprópria com crianças. O rótulo pedofilia, no entanto, não frequentava o meu vocabulário ainda. Mas estava presente o famoso carro escuro que dobrava a esquina e levava meninas. Adultos que ofereciam doces, brinquedos ou caronas até a casa. E os famosos conselhos repetidos a exaustão , para não aceitarmos absolutamente nada de estranhos.
A pornografia existe e nos rodeia. E se a literatura não abordar essa temática, nós mesmos o faremos a partir do que somos. E há alguns de nós que são figuras horrendas-miseráveis-malditas que são capazes de identificar fraquezas a quilômetros de distâncias e tirar proveito disso.
Precisamos estar prontos para lidar com tudo isso. Me causa horror a quantidade de agressões a mulheres, crianças e velhos. Me espanta a grosseira nas relações e me alarma a disposição para obrigar o outro ao sexo tanto quanto me incomoda a rápida reação das pessoas em apontar-julgar-condenar as vítimas.
A pornografia literária pode nos conduzir por diversos caminhos. Parte de nós, ao ler… se ocupa em imaginar a origem do tema no momento da escrita. Os leitores em maioria tendem a acreditar que Anais Nin vivenciou tudo que escreveu. A poeta-brasileira Gilka Machado foi alvo desse julgamento, do qual fala Susan Sontag a pornografia é uma doença a ser diagnosticada e uma ocasião para julgamento. É alguma coisa frente à qual se é contra ou a favor.
Uma narrativa erótica por levar mulheres a descobrir que é possível dizer não. Que o sexo não se obriga e é para ser motivo de prazer a dois, três ou quantos couberem em uma cama-imaginação-fantasia.
Contudo, como afirma Susan… estamos mais dispostos a manter as coisas nos seus devidos lugares e a colocar o dedo em riste para julgar-condenar a partir da conhecida premissa de certo e errado.
A ministra Damares disse recentemente que o problema das agressões e estupros no país… são as notícias. Se não falar a respeito, não acontece. Mas, não vivemos nesse silêncio por tempo demais? Quantas mulheres não descem ruas encolhidas em seus corpos, preocupadas com suas vestimentas-atos por receio do que podem provocar. Se trancam em suas casas e acabam agredidas por alguém que lhe jurou amar e respeitar.
Não é no silêncio que vive o estupro, a agressão? Na indiferença do outro que diz em briga de marido e mulher não se mete a colher numa rima infeliz e miserável.
Considero esse cenário a pior das pornografias porque tem a nossa autorização para acontecer. Acusamos as vítimas e protegemos os vilões da realidade.
A pornografia literária apenas revela escancara —, o que nos recusamos a ver… os caminhos do corpo, as marcas na pele. O prazer que pode surgir através do toque. O desejo que se manifesta a partir de tudo que somos.
Somos conduzidos a acreditar que a nudez é feia-proibida. Usamos apelidos para rotular o nosso sexo. Aprendemos que aqui e ali não pode, mas há certo tipo de mulheres que tudo podem, contanto que se submetam as rótulos puta-biscate-vagabunda-vadia. Aos homens, no entanto, outro títulos são atribuídos e sua virilidade:  consagrada.
Curioso que muitas pessoas gastam um par de horas na tentativa de descobrir se Anais Nin vivenciou tudo que escreveu. A resposta, no entanto, é bastante óbvia. A mulher-escritora vivenciou tudo o que escreveu tanto quanto eu, ao ler. Afinal, a pornografia está em nós, desde a primeira infância quando descobrimos de que matéria somos feitos. Se homem ou mulher ou bicho ou coisa tanto faz.

Publicado por Lunna Guedes

lunnaguedes... sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios. detesta dias de sol e ama dias de chuva. ama o outono em qualquer lugar. escreve por escrever somente. seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros... a direção na qual a ponta do grafite avança. ponto final é uma coisa incompreensível. gosta de vírgulas e exclamações.

8 comentários em “A imaginação pornográfica

  1. A imposição do silêncio, o grito de mimimi, a culpa da vitima…tudo isso é empurrado para a mulher como mais um ato de violência, que dói muito mais quando vem de outra mulher.

    É um gênero literário pouco falado no país, algo sujo, pecaminoso, censurado. Mesmo o erotismo dos textos de Bocage não se fala mais. Cheguei a acompanhar um blog do gênero, mas também ficou por ali.

    Enfim, um gênero literário para ser mais divulgado. É por isso, q o ambiente dos blogs é o que mais gosto. Leva-nos a descobrir um texto maravilhoso sobre o assunto. Obrigada!

  2. Só falta considerar que um livro ruim que apela para o pornográfico seja literatura. Não é. E não somos bichos, somos pessoas e não concordo com esse tanta faz. Somos mais porque pensamos e o sexo nos coloca um patamar abaixo. Existe o certo e o errado e o certo é viver na companhia de outra pessoa e o sexo é para continuar a nossa espécie e só. Não é para prazer. Para isso existe a arte e acho que artistas de verdade não precisam desse argumento pobre. A pornografia faz com que homens abusem de meninos e meninas porque estimula o pior em nós.
    Esses livros e revistas deveriam ser proibidos e queimados.

    1. É sério isso que disse? Cara, que triste não compreender que são pessoas com a sua visão de vida que vivemos o atual cenário de penúria em todas as vertentes…

      1. Concordo Obduliono! Vi pais de alunos reclamarem de livros na escola do meu garoto. Livros de uma antiga série da Àtica chamada vagalume. Já saiu uma lista de livros em algum lugar. Gente maluca essa que fala em Cristo e age feito o capeta. Vai de retro.

    2. Sugiro que dê meia volta e leia o texto de novo. Você não entendeu nada. Em momento algum ela disse que livro ruim (aliás, ela jamais usaria esse termo porque ela nem acredita nisso) mas, enfim, vamos lá .Se não serve para você, ok. Vida que segue. Não é mesmo? Agora, queimar livros? Gente, já fizeram isso e foi um horror. Vai ler Fahrenheit 451.
      Amo Anais Nin e descobri Gilka Machado graças a Lu, que mulher meu deus. Poesia belissima, sensual e com gosto de pele, de emoção e gozo. Ah, por favor. Veio aqui fazer o que? Deveria no mínimo se informar sobre a autora do blog, que tem uma escrita intensa e sensual.
      Tem uma cena em lua de papel que vai te fazer corar e duvido que você vá se lembrar de procriação nessas horas Eu heim

  3. Nossa, que texto maravilhoso. Eu sinceramente gostaria que o tema “sexo” tivesse sido tratado com mais naturalidade na minha casa. minha mãe sempre me alertou sobre adultos que poderiam tentar fazer coisas ruins comigo, mas acho que ela ter me apresentado as coisas dessa forma me deixou durante muita tempo com um certo medo de tudo que envolvia o tema, inclusive a parte boa (hihi).
    Hoje em dia a gente conversa de forma mais confortável sobre isso, e eu mesma consigo tratar com mais naturalidade e discutir o assunto. É real: se a gente não fala, então (fingimos que) não existe. Educação sexual é algo que precisa ser tratado!

  4. Lunna, que reflexão boa! A literatura permite-nos experimentar mundos mais ou menos distantes. A literatura pornográfica tem o mesmo poder encantatório e de revelação. Pouco interessa o que a escritora viveu, na realidade; vivido ou sonhado só interessa se for transformado em obra de arte, neste caso literária.

  5. Sou fã do “anjo pornográfico” Nelson Rodrigues, um “conservador” que escancarou portas e janelas das nossas casas para o tema do desejo sexual e suas formas de expressão. Garoto, tive contato com a obra de Rabelais e percebi que o sexo poderia, apesar de proibido, ser mostrado como arte. Fora ter aberto os meus olhos para o fato do tema permear o comportamento da sociedade desde sempre. Ainda que falemos sobre certas coisas, elas continuam a existir e devemos ter consciência do que nos rodeia para sabermos lidar com isso. No mais, fico penalizado com aqueles que enterram tão fundo seus sentimentos e emoções, que só a morte para libertá-los.

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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