07  |  O que ando a ler?

Escrever um diário foi meu primeiro exercício de escrita… ganhei o caderno de capa vermelha no final de uma tarde em meados da minha primeira década de vida. Passei dias a espiar aquela geografia irregular. Um mapa sem cardeais, apenas um Norte… a palavra diary escrita em dourado. Nos estranhamos e fim!
Foi me dada a sugestão de nomear o caderno com outra palavra. Nada me ocorreu e ele acabou soterrado no fundo da gaveta até que uma redação escolar — daquelas com miseráveis vinte linhas para se passar a limpo toda a vida anterior — me fez resgatá-lo. Eu não consegui espremer meus oito anos de vivências dentro daquele espaço reduzido-encolhido-limitado. Pedi mais linhas e me foi negado. Fiquei furiosa e ao chegar a casa despejei os verbos todos ali e não parei mais. Era prazeroso dizer-se em linhas. Gostava imenso de me sentar diante da janela de meu quarto, com toda a cidade aprisionada na minha tela particular. Eu imaginava uma chuva de homens com chapéu coco, como na tela de Magritte e escrevia a partir desse simbolismo particular.
Era um diálogo silencioso, quase secreto para comigo mesma. Adorava ouvir a minha voz dizer as palavras, como se fosse um ditado. Exatamente como faço agora.
Tive muitos diários ao longo dos anos… alguns acabaram esquecidos-perdidos, outros rasgados e queimados. Mas eu nunca pensei neles como a escrita-do-eu. Eram apenas notas pessoais sobre vivências e experimentos nada científicos. Um diálogo mudo.
Descobri, no entanto, que a maioria dos escritores praticam esse mesmo hábito. Sylvia Plath, Katherine Mansfield, Virginia Woolf, Jack Kerouac, Guimarães Rosa, Lima Barreto e Henry Frédéric Amiel… mas havia uma diferença, eles escreviam diários de escritor que poderia conter uma ou outra confissão íntima mas, a maioria dos escritos ali eram planejados para a publicação. Em muitos momentos fica impossível saber se determinada anotação é a respeito da vida do autor ou de uma ficção em fase de elaboração.
O diário íntimo parece ser desse tipo… os textos, em sua maioria, parecem objetos de reflexão. Uma escrita intimista que orientou toda uma geração de escritores. Fernando Pessoa foi um dos leitores. Tolstoi além de leitor, foi o autor do prefácio da edição russa do Diário.
Eu encontrei o meu exemplar na Livraria da Vila durante um passeio descompromissado entre prateleiras. Parecia que as suas quinhentas e noventa páginas estavam a minha espera — lidas e re-lidas desde a aquisição. Há muita coisa interessante que explica porque virou uma espécie de manual para muitos autores. Por outro… há muito por desconsiderar, como as opiniões do autor a respeito das mulheres de seu tempo, que ele considera — de acordo com a anotação feita em 8 de agosto de 1876 — que o princípio feminino é subalterno, vem após e em segundo lugar. É o homem que de natureza é o senhor na arte, na legislação, na ciência, na indústria; a mulher é aluna, discípula, serva, imitadora.
Ficou difícil — depois de ler essas anotações — considerar a genialidade do homem, que como tantos, parecia sentir necessidade de diminuir as mulheres para que sua condição de senhor fosse conservada. Mas como considerou o autor — das minhas quatorze mil páginas de Diário, que se salvem quinhentas é muito, é talvez demais.


Henry Frédéric Amiel — foi um poeta e crítico literário suiço-frances. Sua reputação repousa sobre o seu diário — journal Intime — publicado postumamente em fragmentos a partir de 1886.

Publicado por Lunna

É sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros. Paciência lhe falta desde a infância. Mas sobra-lhe sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecia o silêncio e falas cheias. As que se repetem com facilidade de boca em boca despreza... Lacaniana por opção.... E completamente apaixonada por mulheres que usam a escrita como uma navalha afiada que corta enquanto é carne. Escreve à noite e reescreve pelas manhãs. Gosta de calçadas e corujas. Anda sozinha ou acompanhada, tudo depende da fase... minguante é a sua preferida!

3 comentários em “07  |  O que ando a ler?

  1. Também comecei a rabiscar ideias em um diário. Era cor de rosa, com aqueles cadeados que um puxão abria – mas nos passava a doce segurança de termos todos os segredos trancafiados – e papel perfumado. rs.

    Aprecio bastante a escrita íntima. Não tanto para ”garimpar” os segredos alheios, mas para saber como eles se desnudam, como falam sem amarras, técnicas ou convencionalismos. Adoro o fluxo de consciência!

    Bom final de semana!

    1. Sempre tive diários, escrevia em código pois meu irmão sempre conseguia achar, e gostava de ler e mostrar para o meu pai…Pensamento não agradável… Inventei uma escrita e ficaram revoltados…Tentando decifrar me obrigando a ler…Coitados!!! Hoje ainda escrevo diários, agora não me importo que leiam, já sou capaz de arcar com as consequências…

  2. Já tive diários, aqueles bem de “menininha” mesmo, mas escrevia quase nunca neles. Só fui passar a usá-los mesmo na vida adulta, fosse para registrar momentos, fosse para anotações em geral. Mas acho belíssimo quem neles escreve e consegue manter uma espécie de “rotina” nisso, sabe?!
    Por outro lado, com os diários virtuais (blogs <3), aí sim consegui me identificar na adolescência *-* E desde então, não parei mais. É fantástico termos esse meio de transpor sensações, sentimentos e etc. por meio de palavras.

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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