O túnel que me esconde


A pior fase da minha infância teve início aos sete anos, quando fui levada pela segunda vez ao Colégio, perto de casa. Na primeira vez não havia dado certo… a idade pouca foi o impedimento. Não interessava que eu já soubesse ler e escrever frases inteiras. Eu era muito nova e não estava pronta para me misturar às outras crianças.

Voltei para casa satisfeita. Não queria fazer parte daquele mundo… me misturar àquelas crianças uniformizadas, que pareciam pertencer a um mesmo universo-reto.
A segunda vez, no entanto, fui aceita e ganhei meu uniforme azul — tamanho 8 —, com nome e brasão da escola, estampados no lado esquerdo do peito. Me senti um bichinho em fase de adestramento. 

(abre parêntese)

Me lembrei do menino — vizinho da frente — que tentava fazer o cão lhe entregar a pata. Cena pitoresca. O cão o olhava de frente, com uma pergunta muda. Queria comer um biscoito, correr atrás do pássaro. Mas o menino o queria sentado-comportado-rendido. Não se entendiam. Vez ou outra o cão escapava — corria ligeiro de um lado para o outro… e eu me divertia com o inconformismo demonstrado pelo menino.

(fecha parêntese)

Mas agora era a minha vez… estava no lugar do cão. A escola me aborrecia com sua realidade sempre igual… e suas intermináveis horas avulsas. Finalmente compreendi o olhar do cão. Era tudo tão difícil-complicado… incompreensível. Éramos iguais em tudo — o cão e eu —, de tempos em tempos, eu também ganhava a minha porção de biscoito.
A professora repetia — incansavelmente — duas-três-quatro vezes a mesma lição… e não parecia ser suficiente — um inexplicável castigo para quem aprendia na primeira vez.
O alívio de cada dia — estranhamente — dependia do soar do sino, que anunciava — de forma estridente — a hora de voltar para casa. 

E eu podia me sentir inteira… outra vez.


| * texto publicado no livro artesanal: meus naufrágios |

Publicado por Lunna Guedes

lunnaguedes... sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios. detesta dias de sol e ama dias de chuva. ama o outono em qualquer lugar. escreve por escrever somente. seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros... a direção na qual a ponta do grafite avança. ponto final é uma coisa incompreensível. gosta de vírgulas e exclamações.

5 comentários em “O túnel que me esconde

  1. Meu uniforme era apenas uma camiseta branca, com o logotipo da escola. Nunca me senti parte daquele universo, apesar do afeto que nutria por algumas professoras (as poucas que me compreendiam). Hoje, em especial quando assisto alguns filmes – em sua maioria estrangeiros – sinto uma melancolia, uma saudade de experiências não vividas, como se, ao não ter paciência com todos aqueles alunos e alunas correndo de um lado para outro, eu houvesse deixado de viver coisas que possuem seu tempo certo – Como amizades bobas, paqueras infantis, descobertas e vaidades da adolescência. E confesso que alguns momentos isso me faz falta, vejo minhas amigas todas casadas, com seus filhos enquanto para mim parece sempre cedo demais e ao mesmo tempo, tarde. São sensações estranhas,nostálgicas, que as vezes passam com uma xícara de café, noutras perduram um pouco mais. Sensações que eu achava ruins, e agora aceito como parte da construção de quem eu sou.

    Beijos

  2. Olha como são as coisas, Lunna… O uniforme me dava o conforto de me sentir incluído, não no sentido social, esquisito que eu era… mas no sentido de parecer estar no mesmo nível econômico. Eu sabia que eu vinha de uma família simples, mas aparentemente tinha certa vergonha por não ter os recursos das outras crianças. Minha mãe se esforçava para que estudássemos em boas escolas e não foram poucas as vezes que, no início de anos letivos, ficássemos em filas para entrar nas mais concorridas. O uniforme não distinguia a origem social e, não importava a lista de material escolar, Dona Madalena não media esforços para comprá-lo.

  3. Confesso que também não gostava nada do meu período no colégio, me sentia em um ambiente opressor. O sinal de saída era um alívio mesmo! Só fui me sentir melhor quando já na época dos 15 anos passei a estudar em outra escola, menos formal e mais liberal. Tenho boas lembranças do ensino médio.

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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