O primeiro romance…

Na primeira vez em que me sentei diante da tela — depois de dizer em voz alta vou escrever um romance abri o Word e fiquei a observar o branco da página. Alguém havia me dito que era o pesadelo da maioria dos escritores. Mas eu achei agradável. Havia qualquer coisa de paz e lucidez naquele fundo sem cor — talvez por ser a mesma do teto, com quem me acostumei a dialogar pelas manhãs. A maioria das minhas narrativas surgiam ali — em silêncio cúmplice — com o corpo na horizontal e os olhos a tatear aquele espaço-particular.
Me lembro que ao prestar atenção no insistente pulsar hipnotizador do cursor na tela… me vi diante do velho carrilhão da minha infância a observar atentamente o mecanismo articulado, alemão… preso à parede. Escutava seu poderoso som a ecoar de dentro da caixa — batidas cheias-imensas, bem pontuadas… a narrar as horas a cada quarto de hora. E havia no fundo de tudo… um chiado gostoso de segundos — e, de repente, se ouvia o estalo sútil das engrenagens que resultava numa explosão muito elegante. A casa inteira participava. Às vezes, sem perceber, o meu corpo se colocava em movimento, sincronizando-me com o pêndulo — de um lado para o outro. Éramos um mesmo objeto, uma mesma medida — uma única matéria.
Não sei quanto tempo fiquei ali… imóvel, a sincronizar o mio cuore com o cursor na tela. Alguma coisa, no entanto, se organizou do lado dentro sem que eu escrevesse uma única palavra. Tinha feito cursos-oficinas e todas as teorias adquiridas sobre como escrever um romance palpitavam em minha anatomia.
Havia uma checklist com tudo que precisava providenciar-cumprir antes de me aventurar na narrativa. Não era como no tempo do colégio. A professora me dava um tema e apontava a quantidade de linhas. Vinte ou trinta linhas — nunca eram suficientes para mim e como eu sofria para cumprir a maldita determinação. Em um romance… também não é  possível escrever tudo, Exagerar nas descrições é um erro bastante comum de quem escreve. E eu sabia que o primeiro rascunho — certamente — seria descartado após a primeira leitura.
Enumerei o que eu acreditava ser necessário: 1. Definir as protagonistas. 2. Criar um backstory de cada personagem. 3. Traçar um mapa mental da narrativa. 4. Pensar numa questão a ser resolvida. 5. Fazer um resumo da trama. 6. Escrever uma cena anterior ao romance. 7. Responder a pergunta: por que contar essa história?
Tudo isso me roubou a paz… travou meus movimentos e me deixou a deriva, diante do cursor… que insistia em pulsar sem que eu conseguisse sincronizar-me com ele.
Li incontáveis vezes as minhas anotações. Exercitei a palavra. Risquei e rabisquei muitos inícios. E, quase disse em voz alta: chega, eu mudei de idéia, vou escrever um diário e anotar no alto da página… a data, como me ensinou a professora na escola. Poderei me confessar em paz, sem que seja necessário pagar penitência por isso. Amém.

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

32 comentários em “O primeiro romance…

  1. Vc conta vidas como se fosse a coisa mais simples deste mundo…..é como ver o outro inteiro através de vc…seus poros fluem frases coordenadas conectadas despejadas tão livremente quanto os movimentos da respiração.

    Vcs são seres extra terrestre…excepcionais..
    é dom que lhes compete sem pedir….

    Benditos sejam as suas existências que enchem nossas vidas de encantos contando tudo que sentimos mas que n sabemos dizer….

    1. Acho que somos bastante comuns, a bem da verdade. Só que ao contrário das pessoas a solta no mundo, estamos presos a uma insanidade que a gente acalenta com raro prazer. rs
      Enlouquecemos e foi o melhor que fizemos.

      bacio cara mia

      1. Oi, Lunna! Que bom te ler! Vou já conferir o edital deste mês. =D Fiquei meio ausente do wordpress desde que ele decidiu mudar as configurações de postagem (sozinho!!!) e só agora eu consegui voltar para o anterior. Ainda não me acostumei ao ”modernismo”. rs. Obrigada pela lembrança! É sempre um prazer participar da Plural. ❤

  2. Eu admiro demais com tem disciplina e força pra escrever um livro inteiro. Quer dizer, eu amo escrever, mas estou há dias enrolando pra terminar um conto. Acho que por ser muito perfeccionista eu acabo me cobrando e achando que nada está bom, e prorrogando momento de sentar pra escrever por medo de não consegui dar o meu melhor. Um dia melhoro isso hehe.
    Não sei porque Lunna, mas eu imagino você sentando em frente a uma máquina de escrever e datilografando seus textos e histórias! ❤

    1. A minha tendinite já não me permite mais o uso da máquina de escrever, mas já fui uma dessas e amava preparar o papel e posicionar no tambor da máquina. Usava suas folhas e o carbono. Amava ouvir o apito ao final da linha. ai ai ai… saudades. rs

  3. Eu amo o modo como escreve e como me faz sentir dentro do cenário e como sempre encontro algo que me remete a infância também. É muito bom esse sentimento de cumplicidade com o texto.
    Amei!

    Bacio

  4. Gostei imensamente de visitar esse momento especial onde você se sentou e decidiu escrever seu primeiro romance. Por minha parte, meu primeiro “romance” ou esboço dele, aconteceu através de uma aposta e começou a ser escrito atrás das cartelas do bingo onde eu trabalhava. Hoje vejo tantas falhas nesses escritos que várias vezes pensei em retirar do blog ou reescrever.

    Beijos!

    1. Olha, que interessante isso… adoro saber como as coisas acontecem para cada um.
      Aliás, a senhora deveria participar do meu grupo de escrita. Seria muito bem vinda. É on line…
      bacio

  5. Talvez as coisas que eu mais goste no seus textos, Lunna, seja essa camada poética que eu percebo revestindo tudo que eu leio de sua autoria. Nunca na minha vida eu faria associação entre um simples cursor piscando em uma tela branca e as batidas de um relógio e, por extensão de um coração. Gostei de saber como foi seu início e me peguei aqui pensando como deve ter sido esse momento para os meus autores favoritos. E me perdoe dizer que sorri ao imaginar você tentando seguir um checklist para escrever…

    1. Ah, tenho certeza de que você sorriu ao se deparar com a minha checklist… você talvez não faça idéia, mas me ajudou muito a compreender esses processos todos. Eu tinha uma birra com tantas coisas e ao ler-te, me senti a bater a cabeça contra a parede sem se dar conta do estrago feito. Grata cara mia

  6. A sua escrita é incrível, nos transmite as mais diversas sensações e nos deixa ansiosos para saber o que virá logo após o texto atual. É reconfortante e poético; com e sem sentimentos profundos. É um texto conquistador.

    Bacio

  7. Lunna, sua escrita é de grande sensibilidade, a conexão das batidas do relógio com o coração é um exemplo, achei muito bonito. Escrever é um dom e você o tem, consegue nos tocar através de suas palavras que sempre têm um toque poético muito inspirador. Gostei muito de conhecer seu primeiro processo de construção de um romance, achei cativante.

    1. Sabe que quando escrevo presto atenção em tantas coisas, tantos detalhes e só ao ler depois me dou conta do que estava a minha volta. É meio louco isso, mas eu adoro. rs
      grata cara mia pelo seu olhar

  8. Eu tenho o hábito de ler textos em voz alta, mas não só isso, gosto de interpretar enquanto leio. Como se eu fosse o personagem da história mesmo, ou o narrador. Acho legal fazer isso. Me ajuda a me concentrar mais no texto e, enfim…é um velho hábito. Tô dizendo isso porque a maneira como você escreve é demais. Claro que eu li esse texto em voz alta. Amei terminar com um tom de voz bem alto e potente dizendo “Poderei me confessar em paz, sem que seja necessário pagar penitência por isso. Amém.” Genial!

    Eu também sempre tive dificuldades na escola. Sempre queria criar uma história imensa, cheia de detalhes, e o número pré-determinado de linhas me impedia – coisa que eu não acho que deveria acontecer na escola, ela nos limita demais.

    Também sempre quis escrever uma história longa. Um livro. Pra compartilhar com todo mundo. Mas tanta coisa me assombra nesse sentido, que nem coragem de sentar em frente ao computador para tentar começar eu tenho.

    1. Mas eu tive muito receio de não conseguir escrever um romance, minha cara. Achava que não teria argumento. Que não teria nada. Faltaria tudo e então… aconteceu. rs
      Acho que a escola nos limita demais… sempre tem regras impossíveis para alguns de nós, mas eu sobrevivi a tudo isso. Se bem que seria melhor poder fazer uso de outro verbo, mas é o que temos. rs

      bacio

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