17 | minhas caixas de livro…

Aproveitei o domingo para limpar as minhas caixas de livro… costumo fazer isso no último dia do mês. Mas, acabei por fugir de algumas das minhas rotinas — nesses dias de confinamento —, o que me gerou algum prejuízo de tempo-espaço-lugar… uma desordem natural de dias-semanas-horas. E não faço idéia de quanto tempo vou levar para retomar antigos rituais.
Bem, eu nunca fui o tipo de leitora que coleciona livros ou que sonha em ter uma estante cheia. Acho incrível quem consegue — ao longo da vida — acumular uma parede inteira de livros-lidos.
Eu fui uma menina educada a frequentar a Biblioteca da cidade e a estabelecer amizade com os bibliotecários — figuras que eu considerava mágicas — e que, em meu imaginário, viviam por lá mesmo, entre as prateleiras, alimentando-se como as traças — das páginas. Eu levava a sério a famosa expressão: devorar um livro…
Eu visitava a Biblioteca da cidade às segundas e sextas… passava um punhado de horas naquele sagrado santuário. Gostava do prédio velho, com seu pé direito alto e suas mesas numeradas e confortáveis, devidamente espalhadas por um amplo salão silencioso e aconchegante. Depois de uma poderosa chuva de maio… fecharam as portas para reformar o lugar e contabilizar os estragos. Reabriu anos depois… em novo endereço e com uma estranha estrutura moderna, que não me conquistou. Mesmo assim eu tinha a minha carteira… e fazia empréstimos frequentes.
Outro hábito comum que eu herdei dos meus… era passar na pequena livraria que ficava no meio do caminho — entre a casa e a escola. Sempre acenava ao signore A., que, às vezes, acenava efusivamente, requisitando a minha presença. Ele era um livreiro a moda antiga — sobre quem já escrevi algumas vezes — e que conhecido por saber os gostos de seus clientes. Para mim, ele reservava poesias escritas por mulheres e os melhores almanaques. Saia de lá — saltitante — com uma sacolinha de pano cheia.
Ao longo dos tempos, fui me desfazendo dos livros e almanaques. Uma caixa cheia foi deixada na Biblioteca da Escola — todos em ótimo estado. Outra na Biblioteca da Cidade e alguns pelo caminho… em bancos de praças e espaços urbanos. Gostava imenso dos bilhetes que escrevíamos. Um diferente do outro — sempre destino ao futuro leitor, como se fosse o próprio livro falando de si.
Não perdi certos hábitos… ao chegar a São Paulo — em meados de dois mil e dois — um dos primeiros lugares que eu fui conhecer foi a Biblioteca Mário de Andrade e, em seguida uma Livraria de rua, ali no Centro velho, perto do Boulevard São Bento.
Mas nesses anos todos por aqui… acumulei mais livros que em minha vida toda. Já vendi-doei-emprestei-abandonei. Mas há muitos comigo… alguns ainda por ler e aqueles dos quais não pretendo me desfazer porque gosto de tê-los ao alcance das mãos para a qualquer momento correr os olhos por suas páginas.
E, ao fazer a limpeza nessa tarde… investiguei os exemplares disponíveis a partir das iniciais do meu nome para escrever esse post… e, qual não foi a surpresa em encontrar alguns com a letra L e nenhum com a G…

L de… Led Zepelin, quando os gigantes caminhavam sobre a terra — que conta a vida da banda de rock que gravou uma das músicas que me seduziu pelos acordes em minha primeira década de vida. Ainda me lembro quando a ouvi pela primeira vez. Mas, pouco ou nada sabia a respeito da icônica banda e seus integrantes.
Ao ver o livro na prateleira da Livraria da Vila… precisei trazê-lo comigo e devorar as linhas escritas pelo jornalista-especialista-em-biografias-musicais que parece ter ser apoderado da fala do guitarrista Jimmy Page para escrever o livro — luzes e sombras — e expor tudo que a banda teve de bom e ruim. Dentre tantas coisas que eu descobri… fiquei pasma por saber que Robert Plant não gosta da música stairway to haven.

G… de Gordon Reece — autor de Ratos. Esse livro foi um desses encontros ao acaso. Tinha ido a Livraria Cultura buscar uma encomenda e de repente me deparei com a capa — não devemos julgar um livro pela capa, certo? Mas, lá estava a capa com uma toca de rato e o título. Não resisti… abri e li o primeiro capítulo. Foi o bastante para vir comigo. Li o livro a caminho de casa, dentro do ônibus e quase passei do ponto. O leitor que nunca passou por isso, que atire a primeira pedra!


Esse post faz parte da maratona de maio e participam
 Alê Helga | Ana Claudia | Darlene Regina | Mariana Gouveia  | Roseli Pedroso


Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

19 comentários em “17 | minhas caixas de livro…

    1. Visual novo!!! Adorei!!!
      Também fui acostumada a ir em bibliotecas até porque na infância e adolescência não tinha como comprar livros…Hoje posso tê-los comigo mas adoro uma biblioteca.
      Abraços

  1. Lunna, que postagem deliciosa. Ao contrário de você,não frequentei bibliotecas de criança nem de adolescente. Só mais tarde descobri essa maravilha, me apaixonei e nunca mais saí de uma. Amei sua declaração aos bibliotecários. Sinto-me homenageada. O livreiro também é um personagem que infelizmente, sumiu transformando-se num empresário frio e calculista, longe de seu amado público. E esses livros eu não conhecia e fiquei bem curiosa em conhecer. Adoro Led Zepellin e não sabia dessa curiosidade que você nos presenteou. Bacio

    1. Ah, eu sinto imensa falta dos livreiros. Eram figuras únicas e tão especiais no cuidado para com o leitor.
      E quanto aos Bibliotecárias, sempre tive imenso apreço por esses personagens e me lembro que ao ler-te, uma das coisas que me chamou a atenção foi justamente a sua profissão. É sempre um prazer dialogar contigo.

      bacio

      1. Fico imensamente feliz ao deparar com reconhecimento de minha profissão. Infelizmente, aqui no Brasil, são bem poucos a nos reconhecer. O prazer é sempre meu cara mia! bjs

  2. Não vivi ao lado de uma biblioteca, porém, cabulava a escola para me esconder na biblioteca municipal e passar tardes gostosas lendo na mesa mais ao fundo…rs….Por um tempo, depois que vim para cá, mantive contato com o bibliotecário, um rapaz simpático que conhecia os livros que eu mais gostava – Na época, minha coleção favorita era “A bicicleta azul”, da francesa Règine Deforges. O prédio não era antigo, nem moderno demais, apenas amplo, construído no centro de uma praça, cercado por um gramado verde e, eu nunca entendi o motivo de não encontrar nenhum amigo sentado naquela grama, lendo um livro, aliás, ninguém parecia notar aquele espaço convidativo…

    Beijos

    1. Engraçado que, quando eu morava no Alto da Lapa, tinha uma biblioteca por lá que também tinha um jardim não frequentado. E eu não entendia o jardim com suas sombras de árvores e perfume de flores sem presenças de leitores.

  3. Nossa! Em vista da dificuldade de encontrar livros com a letra G, poderia, mas não vou (por ciúme), emprestar o meu “Grandes Sertões: Veredas”…

    1. Grandes serões veredas não tem espaço em minha prateleira, meu caro. Livro emprestado da biblioteca. Leitura feita e só. Gostei, mas não sinto vontade ou necessidade de nova leitura…

  4. Ainda não passei pela fase de doar livros depois da criação do Café com Leitura. Minha estante mudou muito, como tenho falado ultimamente. Tudo muito novo. Tem sido mesmo muito bom conhecer ainda mais da sua estante, dos seus livros, do que eles representam para você e de curiosidades acerca de quem seja a Lunna Guedes através de obras literárias!

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