21 | A mesa do canto do café Ino

Sempre passava por Linha M na livraria — em destaque em uma ilha, bem na entrada da Livraria… eu o observava de longe. Não me aproximava para reparar os detalhes da capa e perceber um click de Robert Mapplethorpe ou reconhecer a lenda viva do punk Patti Smith, com seus potentes versos people have the Power
Eu gostava do título e imaginava possibilidades a partir dele… percorrendo pequenas distâncias, como se soubesse o livro sem o ler.
Quando o ganhei… mantive a distância. Não reparei em nada além do título. E o deixei por lá — sempre ao alcance das mãos —, por cima de outros livros. Levei meses para vasculhar suas páginas — uma a uma. Reconheci os movimentos… o tempo que era outro. A narrativa potente. Uma espécie de diálogo com o papel-leitor. Dava para sentir as pausas feitas, os goles de café, antes de pontuar uma frase. As chegadas e partidas. O tempo de espera pela mesa certa — no canto, mais ao fundo.
Patti escreve em movimento… e passa a limpo quando ocupa a mesa de um Café. O Ino, onde escreveu Linha M fechou há algum tempo. Mas é possível sentir o lugar e todos os seus cheiros. Ouvir o som das pás do ventilador no teto, a girar como se fossem despencar a qualquer momento. Da porta sendo aberto por um novo-estranho cliente, observado atentamente por ela, apenas para se certificar que é apenas uma pessoa-comum e não um personagem.
Linha M é um embarque para o que a autora chama de um mapa para minha vida. A narrativa começa no Greenwich Village. Todos os dias, Patti vai ao mesmo café, munida de seu caderno para registrar suas impressões sobre o mundo, seus autores preferidos, a arte e a vida, os amores… e a perda.
Seria interessante comprar a passagem… tendo como única bagagem o livro — o mapa dessa minha viagem. Desembarcar e ir procurar cada um dos cenários do livro e viver nele por uns dias. Eu sei que o tempo é outro… o tal do dia seguinte. A maioria dos cenários — como em um teatro-vivo —, há muito inexistem. As ruas, no entanto, devem ter os mesmos nomes… e seria interessante amanhecer diante de uma fachada, onde antes havia um Café ou uma pensão que alugava quartos baratos para artistas. Com certeza seria um lugar para se conjugar certos verbos…


Esse post faz parte da maratona de maio e participam
Ale Helga | Ana ClaudiaDarlene ReginaMariana Gouveia | Roseli Pedroso

Publicado por Lunna

É sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros. Paciência lhe falta desde a infância. Mas sobra-lhe sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecia o silêncio e falas cheias. As que se repetem com facilidade de boca em boca despreza... Lacaniana por opção.... E completamente apaixonada por mulheres que usam a escrita como uma navalha afiada que corta enquanto é carne. Escreve à noite e reescreve pelas manhãs. Gosta de calçadas e corujas. Anda sozinha ou acompanhada, tudo depende da fase... minguante é a sua preferida!

11 comentários em “21 | A mesa do canto do café Ino

  1. Estou me sentindo perdida neste post! Nunca ouvi falar da Patti Smith, como autora ou como cantora. Agora, precisarei saciar a minha curiosidade e buscar um pouco sobre ela, o que é fantástico, pois certamente me levará a outro mundo de voz e som.

    Beijos!

  2. Não conheço o trabalho de Patti Smith mas sinceramente a proposta me envolve: café, livro, uma ambiente, de certa forma, livre a usar as palavras. Envolvente, assim como a sua escrita! Saudades de estar aqui!

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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