02 | as etapas da escrita…

Quando finalmente decidi que iria escrever um romance… conclui que de todas as coisas que tinha em mente, a mais importante era a certeza que eu acalentava em meu íntimo: eu queria contar uma história e sabia exatamente qual.
Mas, ao mencionar minha intenções a pessoas do meio… colhi um surpreendente arregalar de olhos e ouvi um discurso negativo, que parecia pronto, tanto quanto definitivo — fosse você, eu não investiria nesse tipo de história. Ficará marcada como autora de histórias que ninguém quer ler. Veja o que aconteceu com Cassandra Rios.
Nada do que foi dito, me convenceu. Eu apenas tomei nota do nome da autora para descobri-la mais tarde.
O fato é que naqueles dias ainda não havia acontecido o tal do beijogay na televisão brasileiras. Nathalia Timberg e Fernanda Montenegro não tinham protagonizado a linda cena na novela das nove, tampouco Thiago Fragoso — e seu carneirinho — tinha beijado o regenerado Félix. Mas alguns papéis lésbicos já apareciam aqui e ali, em séries-novelas-filmes. Na literatura já existia tomates verdes fritos e as traças de Cassandra Rios, que li no dia seguinte a fatídica consulta literária. Me lembro de ter lido alguns contos eróticos de Anais Nin, que falava mais da curiosidade natural de homens e mulheres a respeito do sexo entre mulheres.
Mas, o que eu pretendia era narrar a dificuldade em lidar com as sentimentalidades. O olhar no espelho. O enxergar-se diferente da turba. Não ser igual num mundo de aparências e significados previamente definidos, onde hipocrisia reina soberana e as pessoas se sentem confortáveis para dizer em voz alta que, nenhum pai quer um filho gay. Curioso que ninguém menciona a dificuldade que sente um filho que precisa esconder o que sente-pensa. Disfarçar o olhar… as vontades. Crescer trancado dentro de si… tentando conter impulsos. Sentindo vergonha-medo-aflição.
Era sobre isso a minha narrativa. O outro lado da história, com o qual convivi de perto… tantas vezes — incomodada pelo silêncio de gestos-olhares.
Me lembro que depois da tal conversa, fiquei sozinha na sala do último andar… de um dos prédios mais alto da cidade. Estava a observar a anatomia paulistana de prédios e mais prédios… altos-baixos-envidraçados-tortos-retos. Em algum lugar começou a tocar Lulu Santos — que ainda era o amante de Scarlet Moom e autor de assim caminha a humanidade. O verso consideramos justa toda forma de amor ficou em mim, a se repetir e teria ficado, não fosse a entrada abrupta de uma das meninas, que eu pensei ter esquecido alguma coisa e voltado para buscar — mas o motivo era outro. Ela disse em voz alta, rápida e direta — escreva a sua historia. Alguém precisa contar como é difícil ser sempre a solteirona da turma. E não é porque você não conheceu alguém ou porque nenhum homem te quis. É porque você não pode levar a sua parceira para a festa da empresa. Não deveria ser assim, mas é. Eu não sinto vergonha do que sinto, tampouco do que sou. Mas eu não tenho mais os meus pais, irmãos ou parentes porque eu escolhi ser feliz ao lado de outra mulher. E os amigos que eu tenho, talvez não fossem mais amigos se soubessem a verdade.
Eu não disse palavra… e ela foi embora. No caminho de volta para casa, enquanto observava a paisagem em movimento através da janela do ônibus, compreendi que minha personagem era uma cidade pequena… e a sua antagonista, seria uma cidade grande, talvez um mundo inteiro.

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

11 comentários em “02 | as etapas da escrita…

  1. Representatividade é algo que ainda falta na literatura. E nem se fala sobre a falta que faz conhecer o outro lado da história. A vida é rara, a felicidade ainda mais rara, e ocultar toda uma grande parte da vida, é como se não a tivesse vivido.

  2. A Lunna é uma daquelas escritoras à moda antiga, artesã. Leitores ruminam, como se extasiados com um mui aprazível coquetel sabor Virginia Woolf/Sylvia Plath. À mesa, beliscam-se os aperitivos: pitadinhas generosas de Lispector, Sontag, Rupi Kaur, Patti Smith e não só…

  3. Lua de Papel é um livro incrível e repleto de sensibilidade. Sobre essa etapa da escrita que narrou, infelizmente é bem comum essa reação das pessoas de olhos arregalados devido ao tema.
    Um enorme beijo!

  4. Que história interessante de se ler. E ambígua, porque fico feliz de você ter ignorado as recomendações e colocado a história no papel, e fico triste pela falta de apoio, o desincentivo e os olhares tortos para histórias é assim. E fico mais triste ainda pela moça, pelo que ela perdeu simplesmente por ser ela mesma e por querer viver o amor. Achei tocantes e fortes as palavras dela, “alguém precisa contar como é difícil …”. E há quem diga que representatividade não importa.

  5. Que triste a reação das pessoas quanto ao tema, talvez ainda não estivessem preparadas. Ainda bem que o tempo passou e aos poucos as mentes vão se abrindo, devagarzinho mais personagens homossexuais aparecem em tramas populares. São vitórias pequenas mas importantes, o preconceito ainda é grande, infelizmente.

  6. Escrever uma história é algo impressionante, não? pena que a literatura brasileira não é tão consumida pelos próprios brasileiros, mas o que importa pra mim é a idealização dos mundos que criamos em nossas mentes ❤❤❤❤

  7. Eu até permito o “não” aceitar, mas o respeito é fundamental…E falta muito empatia, muitas pessoas ainda não estão preparadas ” para toda forma de amor”
    Abraços

  8. Lendo esse seu texto eu fiquei ainda mais curiosa para ler seus livros, Lunna. Eu admiro tanto escritores, cada qual com seu estilo, sua forma de contar histórias. Você, em especial, me faz pensar em algo bem romântico quanto ao processo de escrita hehe (desculpa, mas é isso!). Eu tenho várias histórias que gostaria de contar, vários pequenos universos. Espero conseguir fazer isso um dia!

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