22 | O ano que não passou…

Acordei pela manhã com uma sensação de outono na pele e também na alma — mas a moça do tempo disse que o Inverno chegou no sábado, pontualmente às 18h44… horário local. Como se pontualidade fosse coisa-comum por aqui.
E para contrariar a moça… o sol emergiu forte logo nas primeiras horas, estampou um dia na fachada da cidade, lambeu as faces dos prédios, tocou o asfalto e fez subir a temperatura: quase trinta graus antes do meio dia.
Mas, no meio da tarde, tudo mudou… fortes rajadas de vento agitaram o que ainda restava de folhas nas árvores. Causou turbulência no vôo dos pássaros. Tumulto nas cortinas e fez bater um sem-fim de portas-janelas. Alguns dos meus papéis voaram, por sorte não deixaram o espaço do quarto-cama…
Lá fora… quase ninguém pelas calçadas porque as ruas do bairro seguem semi-desertas de humanos e cachorros. Às vezes, um ou outro surgem do nada… e desaparecem sem que saiba para onde foram. O bairro perdeu as conversas pelo caminho, entre esquinas e qualquer ruído novo atraí uma platéia nas janelas dos prédios. Por aqui, se respeita o isolamento.
Não sei dizer para onde foi o ano, o mês… a semana — o outono, tampouco. Alguém anunciou em voz alta — reparou que estamos em Junho? — Eu reparei que não sei para onde foram a maioria dos dias desse Ano, repleto de estranhezas.
Me lembro que no Ano passado, em dado momento, pedia — quase implorava — para virar a página e avançar ligeiro para o próximo capítulo. Soubesse o que eu sei, teria ficado mais tempo por lá e lidado com as agruras.
À meia noite do dia trinta e um — distraídos com os risos e diálogos — só fomos reparar no Novo quando o colorido dos fogos alcançou os céus da Paulicéia. Foi um corre-corre atrás de um relógio. Não encontramos nenhum e alguém ironizou — perdemos o Ano Novo — enquanto gargalhávamos pela sala… o espocar dos fogos no ar se despedia do Velho. Ah, se soubessem… creio que ninguém teria festejado.
É verdade que o ano passado não nos deu trégua — mas ao menos foi um ano inteiro… com seus trezentos e sessenta e cinco dias, sem pausas ou interrupções abruptas, por mais que os temas tenham nos levado à exaustão. Existia a possibilidade de trabalhar o rascunho, melhorar o enredo, trabalhar os personagens… porque foi um livro escrito às pressas, de qualquer jeito, sem o cuidado necessário. Um escrever por escrever somente. Não foi possível editar-revisar… apenas uma leitura de mesa, num sem fôlego.
E veio o tal do Ano Novo! E como havia muitos clichês na trama, resolveu-se adicionar um elemento novo. E ainda não sei se foi o susto com o tamanho do conflito escolhido… ou a incapacidade dos personagens em lidar com a trama. O fato é que o rascunho que foi considerado promissor, acabou abandonado no fundo da gaveta.
E cá estamos nós — feito Marionetes com fios cortados — a imaginar o dia seguinte. Alguns por aí, acreditam que seremos melhores, que aprenderemos alguma coisa. Não há como saber Assim como no caso do vírus —  sars-cov-19 —  nada sabemos e, talvez, amanhã, saibamos menos ainda.

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

15 comentários em “22 | O ano que não passou…

  1. Nossa, Lunna, eu tenho muito essa sensação de que a gente está vivendo dentro de um looping temporal horrível. Foi só semana passada que eu me toquei que já estamos na metade do ano… e o que a gente fez? Eu fico em casa com a minha família, não sei bem se aqui as pessoas estão respeitando ou não o isolamento (acredito que não), e parece que o tempo passa, mas não passa ao mesmo tempo. A gente perdeu a chance de tornar esse período mais curto lá no começo, e agora parece que as pessoas se habituaram aos números horríveis, e a viver fingindo que nada está acontecendo. Isso é tão frustrante!

  2. É incrível como não sabemos de nada. Acredito que nunca soubemos, mas agora estamos mais certos disso. Meu sentimento de hoje – sim, porque cada dia é um – é que falta menos tempo para nossa liberdade voltar. Mesmo que ajustada e ainda limitada. Um beijo!

  3. Nem consigo me expressar em palavras como esse ano está sendo frustrante pra mim. As pessoas estão me deixando tão desmotivada… nem tenho vontade de fazer mais nada. Perdi o emprego e me sinto angustiada, a faculdade online é horrível para mim… quem diria que seria assim né?

  4. Sim, estamos em Junho já e ele está correndo de nós prestes a se tornar Julho. O ano tá estranho e não sei bem se aprenderemos mesmo. Talvez alguns de nós somente já que muitos agem como se nada estivesse acontecendo, mas espero que no dia 31/12 desse ano tenhamos mais o que comemorar.
    Bacio

  5. Foi só no post do 6 on 6 de junho que eu me toquei que chegamos a metade do ano, um ano que não aproveitei e trouxe tão pouca felicidade. Fico muito triste com issso mas ao mesmo tempo aliviado que ainda não perdi a cabeça. Parecemos que estamos vivendo dentro de uma bolha. Eu amei seu texto.

  6. Lunna, eu sigo a kabbalah, e estudo fitoenergética. Sei de quase nada, mas o pouco que sei me faz viver bem e com fé para não ‘faiá’.
    Todas as pragas vieram para transformar realidades. Cada um tem a sua própria realidade e é responsável pelo que vê e sente.
    Vejo e sinto um futuro bom. Distante, mas bom. Embora a distância também seja algo relativo… Já a bondade é uma coisa ampla, tipo fixa. Poetas e escritores, estes e estas que escrevem de dentro pra fora, sabem o que é bondade.
    Do pouco que quase nada sei, gosto de ler você!

    Diego Rbor

  7. Se fosse um fenômeno astronômico, poderia chamar a este de um buraco negro, em que a força da gravidade suga tudo para dentro de uma realidade onde as leis com as quais operávamos não tem mais sentido. Porém, sou daqueles que sempre algo a aprender. Mas, muitos dos brasileiros não poderão descrever o que aprenderam,..

  8. Esse ano está sendo como um teste de resistência, né? Eu estou completamente perdida em relação a datas e comemorações. Faz tempo que não vejo meus amigos, não abraço as pessoas que amo e sinto que não estou vivendo, só existindo mesmo =/ Desejo que tudo isso passe logo

    http://www.saidaminhalente.com

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