23 | no tempo em que éramos felizes…

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Aconteceu junho e ao ler-te, eu me lembrei de outros tempos quando o mês de junho era isso — um tempo muito bom… perfeito e as manhãs tinham uma luz natural intensa. Eu gostava imenso de espiar os raios dourados de sol através do vidro porque deixavam um rastro de poeira astral no ar.
As malas deixavam seus esconderijos — na parte mais alta dos armários. Eram limpas com pano úmido para serem arrumadas pouco depois do café da manhã. C., tinha uma espécie de ritual. Espalhava tudo que iria precisar durante o verão por cima da cama a partir de uma lista cuidadosamente preparada na noite anterior — era de uma perfeição invejável.
Às vezes, pensava que a viagem começava ali… quando eu me acomodava na poltrona, com um livro de poesias em mãos. Enquanto lia meus versos favoritos de Eliot… observava entre os intervalos das páginas… o movimento de passos pelo quarto: gavetas e portas dos armários escancaradas e a fila de roupas surgindo caprichosamente: camisetas, separadas por cores. Calças e shorts. Uma malha para os fins de tarde sem sol e uma blusa para os dias de chuva. Cadernos de notas e livros… a agenda de viagem, com as passagens e os documentos dentro. Um envelope com dinheiro… e os cartões. Ao lado, ficava a sacola com presentes — outra lista, conferida várias vezes. Havia sempre uma encomenda feita por uma ou outra pessoa.
E depois que tudo espalhava… conferia duas ou três vezes — item por item. Ela nunca se esquecia de nada e usava absolutamente tudo durante as viagens. Eu era o seu contrário… a partir do momento em que colocava os pés para fora de casa, começava a me perguntar: o que estou a esquecer? E a resposta eu descobriria dias depois… algo sempre ficava para trás, em cima ou debaixo de algum móvel. Nada que atrapalhasse a minha viagem…
Quando menina, eu sonhava com a viagem na véspera — antecipava os movimentos todos. Percorria o caminho de casa até a Estação… apresentava a passagem ao Guarda e descia os cinco lances de escadas até a plataforma, onde cumpria a minha parte favorita da viagem: a espera. Observava atentamente as chegadas e partidas — naqueles dias eu ainda não pensava personagens. Apenas me sentia atraída por todas aquelas pessoas com as malas em mãos e as vidas em pausas — cada um com seu próprio destino a seguir…
Eu acenava para uns, sorria para outros e me escondia entre as pernas de meu pai para espiar com segurança àqueles que despertavam qualquer coisa de horror em mim. Havia figuras que o meu olhar recusava. Eu ainda não sabia absolutamente nada a respeito de pessoas boas ou más… eu era como os cães: gostava ou não — do jeito como andavam ou levavam as malas, como se apressavam por entre as pessoas, obstáculos a serem superados. E amava reparar como as mãos engatavam umas às outras. Mas sempre havia alguém que me fazia menor-encolhida… com um sentimento estranho, por dentro. Faltava ar-saliva-paz e eu me lembrava do conselho de C., para não falar com estranho e nada aceitar.
Quando acordava pela manhã… não me lembrava onde estava e pensava ser a casa da nonna — faltava, no entanto, o cheiro dos móveis antigos, o som do carrilhão, o cantar do galo e aquele aroma maravilhoso de café no ar.
Consciência restabelecida… começava a correria para chegar uma hora antes do embarque — fechar janelas-portas, desligar a energia, a água. Eu ficava para trás nessas horas… diminuía o ritmo dos passos propositalmente. Gostava de espiar os cômodos vazios, com os móveis todos no seu devido lugar e aquele esvaziar-se de nós. Sempre pensava na condição das paredes sem ter a quem moldurar.
Nas primeiras viagens, C., me buscou pelas mãos e me apressou… e eu me deixei arrastar pelos caminhos de casa. Não sei como ou quando percebeu… mas, me lembro que, de repente, ela passou a esperar por mim, na porta… como se dissesse — no seu tempo. Parecia saber que a minha viagem começava ali… e era preciso aproveitar cada minuto-momento.

 | fotografia tirada nos primeiros dias de junho, curiosamente primaveril |

Publicado por Lunna Guedes

lunnaguedes... sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios. detesta dias de sol e ama dias de chuva. ama o outono em qualquer lugar. escreve por escrever somente. seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros... a direção na qual a ponta do grafite avança. ponto final é uma coisa incompreensível. gosta de vírgulas e exclamações.

6 comentários em “23 | no tempo em que éramos felizes…

  1. Que bela partilha de memórias, Lunna!
    Foram as viagens que nos moldaram, com uma Lunna pequenina a espreitar entre as pernas do pai. Tudo era organizado pelos adultos que nós acreditávamos que eles tinham super-poderes e tudo iria correr bem!

  2. As viagens que fazíamos quando criança era quase como se fossem fugas. Na verdade, eram… Mas a viagem que mais gostava de fazer eram as que ficava sozinho na casa da praia. Passava vários dias sozinho, com idas frequentes ao mar. Foram tempos de viagens cada vez mais para dentro.

  3. Oi Luna, tudo bem? Que texto mais incrível. Dá para perceber sentimentos em cada linha. Falar sobre viagens, sobre a preparação, arrumar as malas, é sempre algo sensível pra mim. Desde criança minha família sempre mudou muito de cidade. Outra cidade, outro estado, outro colégio, outros amigos, é difícil criar raízes desse jeito. Mas foi uma infância bem divertida e não abriria mão por nada nesse mundo. Todos os lugares que conheci, as comidas que experimentei, as fotografias que fiz, pôr do sol, nascer do sol, os mares que vi, está tudo bem guardado em minha memória. Agora adulta sinto que viajar traz essa mesma sensação… de novas experiências, de conhecer algo novo. Quanto mais viajamos, mais aprendemos sobre nós mesmos. Isso não é incrível? Sou muito ansiosa, talvez por esse motivo já comece a pensar na viagem antes mesmo de arrumar as malas. Fico até sem dormir. Pegar a estrada é tudo de bom. Um abraço, Érika =^.^=

  4. Oi Luna, tudo bem? Que texto mais incrível. Dá para perceber sentimentos em cada linha. Falar sobre viagens, sobre a preparação, arrumar as malas, é sempre algo sensível pra mim. Desde criança minha família sempre mudou muito de cidade. Outra cidade, outro estado, outro colégio, outros amigos, é difícil criar raízes desse jeito. Mas foi uma infância bem divertida e não abriria mão por nada nesse mundo. Todos os lugares que conheci, as comidas que experimentei, as fotografias que fiz, pôr do sol, nascer do sol, os mares que vi, está tudo bem guardado em minha memória. Agora adulta sinto que viajar traz essa mesma sensação… de novas experiências, de conhecer algo novo. Quanto mais viajamos, mais aprendemos sobre nós mesmos. Isso não é incrível? Sou muito ansiosa, talvez por esse motivo já comece a pensar na viagem antes mesmo de arrumar as malas. Fico até sem dormir. Pegar a estrada é tudo de bom. Um abraço, Érika =^.^=

  5. Ai nossa, que saudade dos tempos normais e de poder viajar nas férias de junho… Eu sempre passava alguns dias no interior e com certeza passaria esse ano se não fosse pela pandemia. Espero poder experienciar tudo isso em breve novamente ❤

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