10 | os discos da minha infância…

Quando menina eu gostava de espiar as capas dos discos do mio babopara tentar adivinhar qual deles seria o escolhido para girar na vitrola, na próxima noite de sábado. Era um dos nossos rituais. Ele definia o cardápio… eu e C., saiamos para buscar os ingredientes e à noite… ele escolhia a trilha sonora para preparar os pratos…
Foi numa dessas noites que eu conheci o Elton John — não me lembro quantos anos tinha. Me lembro apenas de ver o mio babo puxar o velho álbum de capa azul da prateleira… passar a flanela nos dois lados do vinil e colocá-lo no pick up e posicionar a agulha para que aquele chiado gostoso tivesse inicio e pouco depois a música — you can stop the world, steal the face from the moon / You can beat the clock, but before high noon / You gotta love someone.
Eu acabei seduzida pelo ritmo do piano… e pela voz do homem que dialogava comigo através de um idioma que eu ainda não dominava — uma ou outra palavra, uma frase ou duas e ainda assim a música falava comigo. E antes de terminar a canção, eu já repetia com ele: you gotta love someone… num sentido apenas meu.
Naqueles dias eu não sabia muito do mundo, das pessoas… gostava do meu quarto e dos livros. Das viagens que eu fazia durante o verão. Dos passeios nas tardes de sábado. De subir no telhado para espiar a cidade e suas luzes amarelecidas, que se acendiam assim que o breu se estabelecia. Eu sempre queria saber de quem era a mão que apertava o botão daquelas luzes… que inventavam outra cidade. Eu dizia que havia dois lugares no mundo… um iluminado e outro subjugado as sombras — o meu favorito.
Todas essas coisas juntas cabiam naquela música… e, durante dias-semanas-meses, a música foi a trilha sonora dos meus escritos secretos, para o fechar dos olhos e o delírio seguro.
Fui e voltei um sem-fim de minhas ilusões-sonhos. Nesses dias eu sonhava pessoas-lugares-momentos e acho que foi isso que me fez compreender a poesia de Emily Dickinson. Eu não precisava ir… conjugar os verbos. Me sentava num canto apenas meu, me apropriava daquela superfície e pronto. Era exatamente como escreveu o poeta Álvaro de Campos: e onde diabo estou eu agora, Com almirante em vez de sensação?…
Há pouco, antes de me sentar aqui para escrever, estava a ler poemas de Emily Dickinson… e, em alguma janela começou a tocar Elton John. Fui e voltei… observei a flanela percorrer o disco de vinil e o som do chiado da agulha ao ser posicionada imediatamente na primeira faixa. Elton John — o signore inglês — começou a tocar-cantar no idioma de ontem e eu misturei a minha voz a dele.
O tempo passou — you can beat the clock, but before high noon — mas, a música, ainda me diz as mesmas coisas: lugares-pessoas de ontem-hoje…e o refrão ainda se repete em meus lábios como antes numa espécie de eco — como se a mulher que sou e a menina que eu fui ocupassem um mesmo lugar no espaço-tempo da vida.

Publicado por Lunna Guedes

lunnaguedes... sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios. detesta dias de sol e ama dias de chuva. ama o outono em qualquer lugar. escreve por escrever somente. seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros... a direção na qual a ponta do grafite avança. ponto final é uma coisa incompreensível. gosta de vírgulas e exclamações.

16 comentários em “10 | os discos da minha infância…

    1. Estou com esse texto na caixinha, desde que li o seu… e comecei a escrever enquanto lia sua escrita sobre Gal… adoro dialogar entre janelas. Grazie cara mia.

      Eu me lembro quando a nossa agulha dava problemas e precisava ser ponta de diamante ou algo assim para melhor qualidade do som e era um desespero.

      Espero que o defeito da sua vitrola seja corrigido para que possa ouvir um vinil. bacio

      1. Amei Lunna, falar de discos é sempre bom. Uma vez escrevi que queria que uma trilha sonora tocasse sempre atrás de mim. Silêncio é bom , mas música é ótima e tem sempre uma ou um álbum pra nos fazer retornar no tempo pralgum lugar em nós…

  1. Vi e ouvi o Elton John na última vez que veio a São Paulo. O artista setentão estava impecável, a voz poderosa. Eu comecei´a gostar de músicas internacionais através dos artistas mais velhos, ainda com 9 anos, por aí. Os primeiros artistas contemporâneos aos quais me afeiçoei foram The Beatles e fiquei arrasado quando se separaram, fã recente de Hey, Jude e Michelle, além de tantas outras. Tomei contato com o Elton através de um cartaz achado no lixo de “Captain Fantastic and the Brown Dirt Cowboy”. Mas as primeiras canções que repercutiram em mim foram “Skyline Pidgeon” e “Goodbye Yellow Brick Road”. Esse é um artista que uniu diversas gerações.

    1. Eu nunca fui fã dos Beatles… mas o mio babo tinha um velho disco deles. Gostava e gosto do Paul e já assisti filmes apenas por sabê-lo autor das trilhas sonoras, como em A Casa do lago.
      Eu sou amante do rock graças ao vinils do mio babo. Sabe que ainda me lembro de quando ouvir Led Zepelin pela primeira vez? Senti cada acorde da guitarra do Plant em meu próprio corpo para alegria do homem que me apresentava aquelas notas.
      O Elton John e um caso diferente… tenho uma lista de músicas dele que amo e ouço e canto e me perco. Curioso que ainda não escrevi história alguma a partir de suas músicas. Não é trilha sonora da minha escrita… ainda. rs

  2. Your song. Letra simples e belíssima. Só podia ter sido escrita pelo Elton.
    Eu tive um aluno nos anos 80 chamado Elton. Raríssimo! Nunca mais esqueci-o.
    Será o Guilherme Arantes, o Elton John brasileiro?

    1. Amo Elton John, suas músicas sempre tocaram minha alma, desde muito novinha. Esses dias vi o filme Rocketman e fiquei encantada! Descreveram de forma lúdica muito bonita as passagens da vida desse grande artista.
      Na minha infância lembro dos discos antigos do Roberto Carlos, minha mãe amava!

  3. Essa música me traz lembranças boas da minha adolescência. A música em geral é um oráculo que nos leva a devaneios incríveis, por isso ouço todos os dias um pouco para relaxar.

    1. Lunna, que delícia esse post! Meu Deus! Me trouxe tamanha nostalgia, num ótimo sentido, em lhe ver mencionar o apreciar das capas dos discos de vinil. Eu amava também! E, nossa, Elton Jhon… Faz tempo que não ouço! (You gotta love someone). A mim faz todo sentido! Bacio!

  4. Quando comecei a trabalha no rádio, ainda com meus 15 para 16 anos o que me deixou sem fôlego diante de tantos aparelhos novos para uma menina recém saída da roça foi a discoteca. Aqueles montes de discos separados em ordem, de acordo com a programação me fascinava. Era meu lugar preferido e por incrível que pareça, a sonoplastia foi a primeira coisa que aprendi a lidar. Me encantava subir nas escadas e pegar o vinil, e nesse ritual eu pedia licença e isso, arrancava risadas dos meus colegas. Mas embora ali houvesse vários artistas estranhos/desconhecidos, a música em si, para mim era/é sagrada.
    Meu irmão, tem uma coleção enorme de vinis, de tantos e muitos que tem um quarto reservado para eles. Há LPs raros. Quando for em Juara vou fotografar.

  5. Lunna querida, seu texto com essa trilha sonora foi um bálsamo. Porque sua escrita é sempre um mergulho na alma e nas memórias e porque Elton John é tudo de bom.com
    Bateu uma saudade brava dos bolachões que ainda estão na casa de minha mãe.

  6. Não conhecia essas músicas. Quando criança, me foi apresentado muitos gêneros musicais, mas me apeguei mais ao rock, folk, indie e rap. Gosto desses tempos quando queríamos ser adultos, já que hoje queremos voltar a ser crianças ❤❤❤❤❤

  7. Que post mas nostálgico! Eu tenho muitas memórias com músicas da minha infância, desde músicas de filme da Barbie até os flashbacks que minha mãe ouvia. Uma canção que me remete demais à infância é Total Eclipse of The Heart; é meio melancólica, mas minha mãe escutava rádio de noite e sempre tocava e eu amava, mesmo nem sabendo do que ela se tratava.
    Já disse que quando leio algo que você escreve tenho a sensação de estar lendo uma página do seu diário? Eu adoro!

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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