04 | Alice

Começo de uma tarde quente, num tempo anterior a esse, quando sair para encontrar pessoas era uma possibilidade. Quase uma e na agenda do dia… uma lista de coisas anotadas e deixadas para depois… da chuva.
Uma curiosidade natural dos nossos encontros. Sempre chovia e a  Alameda… alagava.
Eu chegava primeiro… mania antiga. Sou o tipo de pessoa que precisa se apropriar do cenário-lugar. Respirá-lo. Provar da mobília. Sentir os aromas. Escolher o lugar. Ter preciosos minutos apenas para mim.  Gosto imenso de observar as pessoas em movimento, a maneira como chegam — em bandos ou solitárias —, o lugar que escolhem e os diálogos alquebrados — degustando-os em pequenos goles. Observo como as pupilas se dilatam… reagindo ao aroma do líquido e das palavras soltas no ar… enquanto engolem tudo como se fosse uma mesma substancia.
A minha personagem chegou apressada, ultrapassando as pessoas. Vi quando passou pela porta, com seu salto a estalar no chão… trajando roupas escuras. Figura reta… dona de um olhar estranhamente vazio.
Disse as mesmas coisas de sempre… começou se desculpando pelo atraso, como se eu tivesse alguma noção do horário. Falou do trabalho… da falta de tempo e quase falou de si —recuando no último segundo. Desviou-se de si. Quis saber-me, like always. As mesmas perguntas de sempre para as quais sempre tenho novas respostas-inventadas. Se pudesse, permaneceria em silêncio, com os cotovelos apoiados na mesa a espiar e degustar cada um dos movimentos feitos.
Naquela tarde, no entanto, ao se levantar para buscar uma bebida… em mais um movimento de fuga — comecei a escrever no ar. Havia identificado a protagonista da história que até então, não fazia idéia de que eu queria contar. Surgia Alice… uma mulher traída por um desejo comum: ser feliz. Sonhava desde a infância, viver um conto de fadas. Quando escutou a história da Cinderela pela primeira vez — se metamorfoseou em Princesa. Passou a sonhar com o seu próprio conto de fadas… o dia do sim, o vestido branco, a igreja cheia, a marcha nupcial, os votos, o par de alianças, a chuva de arroz e o foram felizes para sempre.
O problema é que qualquer homem que lhe oferecesse um anel, seria um Príncipe. Alice se esqueceu de considerar que nessas histórias infantis… não existe o dia seguinte ao “foram Felizes para sempre” e existe um motivo para isso — tudo se resume ao once upon a time — e Alice descobre o que todas essas histórias escondem, da pior maneira.

 | Clique aqui para ler o primeiro capítulo da trama  |


b.e.d.a — blog every day august —
Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina
Mariana GouveiaObdulio Nuñes OrtegaViviane Almeida


Publicado por Lunna

É sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros. Paciência lhe falta desde a infância. Mas sobra-lhe sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecia o silêncio e falas cheias. As que se repetem com facilidade de boca em boca despreza... Lacaniana por opção.... E completamente apaixonada por mulheres que usam a escrita como uma navalha afiada que corta enquanto é carne. Escreve à noite e reescreve pelas manhãs. Gosta de calçadas e corujas. Anda sozinha ou acompanhada, tudo depende da fase... minguante é a sua preferida!

3 comentários em “04 | Alice

  1. Alice é minha falta de ar… é a continuação de várias mulheres que passam por mim e não me deixam segurar suas mãos. Já a li duas vezes, tu sabes… e em cada vez, me senti sem fôlego, nesse afã de querer salvar a personagem, ou a vizinha do lado.

  2. Quantas Alices há neste mundo afora? Vítimas das inocentes histórias de princesas e reinos encantados! Tão difícil tirar isso de nossas meninas, mostrar-lhes desde novas que é preciso ser forte e completa antes de aceitar dividir a vida com alguém…

    Beijos

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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