10 | A última refeição…

Quando a execução de uma pessoa condenada a pena de morte se aproxima… é concedido o direito de escolher o que deseja comer em sua última refeição. Dizem por aí que tem relação com a última ceia de Cristo, a famosa Santa Ceia.
Baseado nesse costume o artista e fotógrafo especialista em comida neozelandês Henry Hargreaves recriou, com a ajuda de um amigo chef, algumas das escolhas feitas.
O resultado me fez pensar no que eu pediria, fosse o meu último dia de vida. E, depois de alguns minutos de olhar reto… a vigiar a paisagem de prédios que chega à varanda… conclui que eu pediria um rigatoni ao ragu de abobrinha com couve. Mas, teria que ser feito por mim e eu exigiria o ritual completo… desde o instante que antecede a decisão — no meio da madrugada —  com a cidade iluminada pelas luzes dos postes.
Teria que ser dia de feira… para pegar a minha sacola de pano e ir as ruas… passando por todos os cenários urbanos de ruas-calçadas-prédios-casas-pessoas-e-cães até alcançar as barracas com o conhecido colorido visual que tanto gosto de admirar. Ouvir a cantoria agradável dos feirantes é essencial e observar os produtos elegantemente acomodados. Provar de um pedaço de fruto aqui e ali. Sentir a textura dos tomates vermelhos para molho. Tenho preferência pelos holandeses… por serem menos ácidos. Cebolas roxas e alhos vermelhos. Um bom punhado de salsa e um belo talo de alho poró. A couve manteiga filetada bem fino e abobrinhas italianas raladas.
Do mercado, traria a pasta… e um bom pão escuro de grãos. Uma manteiga francesa, uma boa garrafa de vinho branco italiano, um azeite grego e um parmesão uruguaio.
No caminho de volta… eu ligaria para alguém para um combinar um café para um dia futuro… uma quinta, por ser o meu dia favorito — na semana — para encontrar pessoas. E passaria numa floricultura para comprar um pequeno arranjo de flores vermelhas.
Arrumaria a cozinha… a mesa com os melhores talheres, uma boa dupla de taças… e tomaria banho para só então iniciar o prato.
Começaria escolhendo uma boa ópera para tocar-cantar-embalar os meus gestos inteiros… lavar, cortar, picar e a água para ferver. Frigideira no fogo… fio de azeite e colher de manteiga para dourar a cebola, o alho e o poró. Gosto imenso quando os aromas se precipitam no ar.
E quando o prato estivesse pronto e servido… uma pausa. Os olhos bem fechados e um verso a se repetir secretamente por dentro.

Muita Loucura faz Sentido —
A um Olho esclarecido —
Muito Sentido — é só Loucura —
É a Maioria
Que decide, suprema —
Aceite — e você é são —
Objete — é perigoso —
E merece uma Algema —

Emily Dickinson
Tradução de Augusto Campos


b.e.d.a — blog every day august —
Adriana Aneli Claudia LeonardiDarlene Regina
Mariana GouveiaObdulio Nuñes OrtegaViviane Almeida


Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

6 comentários em “10 | A última refeição…

  1. Uau! Que delícia de texto! Nunca ouvi falar desse costume de deixar os condenados escolherem sua última refeição, sem dúvidas, um gesto humano em meio a barbárie que é decretar a morte de alguém. Lendo teu texto, senti o caminhar pela feira, o sabor das frutas, as cores… É um momento da semana que muito me agrada, ainda que, agora, com a situação do mundo, não seja mais possível comer frutas nas barracas – Afinal, como provar uma fruta de máscara?

    Abraços!

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