[poemas] Wislawa Szymborska

As três palavras mais estranhas (2002)

Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
suprimo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não ser.


Retrato de mulher (1976)

Deve ser para todos os gostos.
Mudar só para que nada mude.
É fácil, impossível, difícil, vale tentar.
Seus olhos são, se preciso, ora azuis, ora cinzentos,
negros, alegres, rasos d’água sem nenhuma razão.
Dorme com ele como a primeira que aparece, a única no mundo.

Dá-lhe quatro filhos, nenhum filho, um.
Ingênua, mas a que melhor aconselha.
Fraca, mas aguenta.
Não tem cabeça, pois vai tê-la.
Lê Jaspers e revistas de mulher.
Não entende de parafusos mas constrói uma ponte.
Jovem, como sempre jovem, ainda jovem.
Segura nas mãos um pardalzinho de asa partida
seu próprio dinheiro para uma viagem longa e longínqua
um cutelo para carne, uma compressa, um cálice de vodca.
Corre para onde, não está cansada.
Claro que não, só um pouco, muito, não importa.
Ou ela o ama ou é teimosa.
Para o bem, para o mal e para o que der e vier.


Alguns gostam de poesia (1993)

Alguns —         
ou seja nem todos.         
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.         
Sem contar a escola onde é obrigatório         
e os próprios poetas         
seriam talvez uns dois em mil.

Gostam —
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade
gosta-se de afagar um cão.

De poesia —
mas o que é isso, poesia.
Muita resposta vaga
já foi dada a essa pergunta.
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso
como a uma tábua de salvação.

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

9 comentários em “[poemas] Wislawa Szymborska

  1. Confesso que não conhecia Wislawa mas já fiquei curiosa e vou atrás de saber mais. Gosto muito de poesia e o toque de elegância com simplicidade me chamou a atenção, é um estilo que me atrai.

  2. Concordo que poemas são atemporais, esse é um dos motivos para eu amar poesia! Eu não conhecia a autora, mas fiquei curiosa para ler seus trabalhos. O seu post me deixou com vontade de ler mais livros de poemas!

  3. Antes de entrar para esse universo literário, não curtia poemas. Agora estou me aproximando cada vez mais deles e adquirindo gosto pelo mesmo. Essa autora não conhecia, mas sinceramente, fiquei curioso para ler alguns poemas de sua autoria.

    Bacio

  4. Não conhecia a Wislawa mas antes mesmo de terminar de ler teu texto, fiquei sedenta de conhecê-la – Amo conhecer novos poemas e poetas, além disso, as suas indicações são maravilhosas!

    Beijos!

  5. Oi, Lunna! Adoro os poemas! E também me sinto como se estivesse caminhando de mãos dadas com a premissa do poeta, travegando junto dele por suas palavras em sua atemporalidade. E que belo encontro esse seu com Wislawa! Gosto dessas histórias de encontros na literatura com obras tão aparentemente perfeitas quanto essa!
    Baccio

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: