Politicamente (?) correto…

Está tudo muito chato hoje em dia — é uma das frases que mais se repete — de boca em boca — nesse nosso contemporâneo monótono. Virou uma espécie de Norte para os incomodados com o tal do politicamente correto — termo que gera polêmica até na hora de definir a sua origem.
Pesquisando, descobri que supostamente, tudo teve início nos Estados Unidos, quando a Suprema Corte daquele país decidiu que era politicamente correto fazer um brinde às pessoas dos Estados Unidos em vez de brindar aos Estados Unidos. Na mesma pesquisa, também encontrei referências a antiga União Soviética quando um político reagiu ao ser questionado a respeito do seu discurso mentiroso, dizendo: “factualmente errado, mas politicamente correto”. E a China de Mao também se fez presente com um discurso feito pelo então líder chinês sobre: “como tratar as diferenças entre as pessoas de forma correta”.
O que despertou a minha atenção… foi perceber que o termo inicialmente foi usado para ironizar o discurso raso e o comportamento de natureza moralista — argumento comum nas turbas, sempre precisas em apontar o dedo, pautar os valores que devem ser perpetuados pelas gerações futuras e as famosas frases prontas, repetidas ao vento.
Com o surgimento e consequente crescimento dos movimentos em defesa das minorias, no entanto, o politicamente correto passou a ser munição para esses grupos, colocando em cheque certos termos utilizados como mera tradição cultural para humilhar os grupos de gays e lésbicas, e para atacar determinadas etnias.
A questão atingiu o auge nos anos 1990 quando, nos Estados Unidos, foram criadas cotas para os pretos, nas Universidades. E, pasmem senhores, os brancos se sentiram incomodados por considerar que estavam perdendo espaço-direito e sendo, por fim, atacados na própria linguagem — argumento que segue sendo validado por nossa sociedade, pouco ou nada disposta a perder seus privilégios ou a rever seus conceitos.
Eu já fui contrária ao politicamente correto… e creio que, em algum momento, devo ter repetido a bendita frase, com a qual inicie esse texto. O que me fez mudar de opinião foi perceber que a palavra fere mais que uma faca afiada e que ilustra um comportamento-comum: somos replicadores e passamos adiante hábitos anteriores a nós… costumes antigos que herdamos do meio em que vivemos. E, nem sempre nos damos conta do peso que uma única palavra, dita em voz alta, tem.
Somos humanos dotados de oralidade… inventamos palavras o tempo todo, criamos apelidos a partir do que vemos no outro, pautando o que nos incomoda-perturba sem considerar a limitação do nosso olhar. A maioria de nós apenas enxerga… não vê. Somos desatentos-distraídos. O poeta inglês Eliot disse em um de seus poemas que passamos milhares de vezes pelo mesmo lugar, sem dar por ele — e estava certo.
Aqui em São Paulo, ouvia com alguma frequência a frase dita de qualquer jeito a qualquer momento: isso é coisa de baiano — expressão pejorativa, que revela a discriminação regional e que acaba indo de boca em boca — de forma consciente ou não… do preconceito existente nessa expressão.
Exemplos são muitos… como o caso do homem-candidato-trump que afirmou em voz alta durante um de seus discursos que o problema dos Estados Unidos é ser politicamente correto… e ao dizer coisas absurdas como mexicanos são estupradores e afirmar que uma jornalista havia sido ríspida com ele, por estar menstruada… foi prontamente defendido pela turba cansada da chatice do politicamente correto e, que se sente atacada na oralidade.
Eu admito que é difícil mudar nossos atos-hábitos… e, reconhecer que empregamos termos que podem incomodar-machucar-humilhar o outro. Por isso, é urgente-necessário revisar nosso comportamento verbal. Precisamos adquirir consciência do outro. A palavra é uma arma. Suprimir do nosso vocabulário certas palavras-frases que podem agredir-ofender é uma necessidade…
Durante muito tempo a sociedade se acostumou a não perceber pessoas com deficiências — visuais, físicas, psicológicas ou mentais —, optando por escondê-las. Na Roma Antiga, tanto os nobres como os plebeus tinham permissão para sacrificar os filhos que nasciam com algum tipo de deficiência. Em Esparta, os bebês e as pessoas que adquiriam alguma deficiência eram lançados ao mar ou em precipícios. Não somos muito diferentes disso… porque ao ignorar ou dificultar o acesso, ironizar a condição ou rotular determinado grupo de pessoas a partir das diferenças, estamos apenas repetindo esse gesto.
Sim, há exageros nessa seara… há grupos de intelectuais que usam o politicamente correto como uma espécie de etiqueta própria para se sentir superiores aos outros. E a ascensão de personagens como Trump, no Estados Unidos e Bolsonaro, no Brasil evidencia que há pessoas que se sentem atacadas em seus privilégios e incomodadas por serem reduzidas a pó.
O melhor caminho seria realizar um estudo do politicamente correto e não colocá-lo na esquerda ou direita… mas, no centro das discussões, de maneira a enxergarmos os danos causados pelos exageros — que existem e não podem ser ignorados. Precisamos identificar o que merece ser defendido e convencer as pessoas a deixar de usá-los voluntariamente, sem a ameaça do apedrejamento público, como vem ocorrendo… e resultando numa defesa feita com argumentos frágeis: hoje tudo é preconceito, tudo incomoda, nada pode. No meu tempo eu dizia-fazia tal coisa e ninguém reclamava. Mas, a mesma pessoa que profere tal defesa também não se questiona do porque não haver reclamação num tempo anterior a esse.
Todos nós vivemos da oralidade… e a maioria de nós apenas repete o que ouve, sem se preocupar com o sentido-significado da palavra-pedra arremessada contra um vidro. Somos todos frágeis e, está na infância o maior dos nossos problemas. Uma criança magoada é como um Rato… que se encolhe de medo e ataca para se defender. Os piores monstros somos nós e são construídos a partir da força empregada através da oralidade. Um tapa se esquece-perde. Mas uma palavra-frase bem pontuada por um adulto nunca se cala… se repete dia após dia, com efeito devastador. Os piores monstros não vivem debaixo da cama… estão dentro de nós, sendo alimentados por sentimentos silenciosos que nos deixa no escuro das nossas emoções — sem luz acesa.
Precisamos assumir a responsabilidade dos nossos atos-palavras e parar de dizer que… o mundo é que de repente ficou muito chato.

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

11 comentários em “Politicamente (?) correto…

  1. Ótima análise, Lunna! A palavra tem muito poder e legítima muitos discursos. Mais do que nunca, precisamos refletir sobre como é o que falamos para não correr o risco de legitimar discursos que nem concordamos. Abraços e boa semana! 🌻

  2. O que gosto dos textos da Lunna Guedes é que ela nos faz refletivo o óbvio. Como o este texto menciona: “A maioria de nós apenas enxerga… não vê.” Os tais ditos populares que nada mais são preconceitos disfarçados, muitos apenas falam e não percebem o real significado por trás destas frases. Isso porque falam e repetem a anos.
    Quem tiver oportunidade de conversar com a Lunna saberá que ela é uma pessoa que te questiona e faz pensar.
    Parabéns pelo texto extraordinário!

  3. “Precisamos identificar o que merece ser defendido e convencer as pessoas a deixar de usá-los voluntariamente, sem a ameaça do apedrejamento público, como vem ocorrendo…”

    Poxa isso é perfeito! Acho que pra quase td na vida tem o bom e mal uso, essa questão do politicamente correto tem pessoas que “vestem a camisa” pra parecerem inteligentes, engajadas etc, e tem a outra ponta, pessoas que atacam o politicamente correto apenas para continuarem com suas visões tradicionais das coisas…

    Por isso o que você escreveu é tão bom! “Precisamos identificar o que merece ser defendido” pois do contrário acaba nas mãos de pessoas que só querem defender sua ideologia politica, seja de direita, esquerda etc, e o discurso e o objetivo de tornar a vida e o dia a dia bom para todos… ser perde em intrigas menores.

    Obrigado por me ajudar a entender isso um pouco mais.

  4. Lunna, um dos melhores textos que li nos últimos tempos. Sério! Você foi no âmago da questão, trouxe à luz, questões históricas e contemporâneas, expôs todos os lados e nos faz vestir a camisa da carapuça pois todos, sem exceção, trazemos vícios herdados de nossos antepassados e continuamos a reproduzir sem questionar, sem procurar saber o porquê disso. Obrigada!

  5. Para mim, o tal “politicamente correto” foi um termo muito ruim que criaram para substituir o tão necessário (e muito em falta) “bom senso”. Não acho que seja uma questão de “certo” ou “errado”, por isso não gosto da expressão, e sim uma questão de pertinência: nem tudo o que se pensa deve ser dito. E, se você avalia que não deve ser dito, é porque há algum problema com o posicionamento em questão, o que demanda uma reavaliação. O problema é que as pessoas perderam o bom senso, abre mão da capacidade analítica que têm e acham que podem dizer tudo o que querem sem se preocupar se vão ferir ou não os outros. Se tivéssemos mais bom senso e empatia, nem precisaríamos do tal “politicamente correto”.

  6. Confesso que não conhecia a origem da expressão.
    As pessoas rotulam de chato tudo que causa desconforto e evoluir, mudar e melhorar sempre causam desconforto. A esperança é que um dia todos consigam entender que antes não era melhor e tampouco confortável, a grande diferença é que os incomodados permaneciam calados, sofrendo em silêncio…
    O mundo ainda está muito longe de chegar aonde queríamos e apesar de todos os altos e baixos eu acredito que estamos melhorando, só de ter tanta gente “incomodada” já é um sinal de que tem muitas outras fazendo diferente.
    Amei a análise, Lunna!
    Abraços 😊🌺

  7. Lunna, excelente análise, onde o bom senso impera, de ponta a ponta, incluindo o meio! Portanto, vai desagradar há muitos, principalmente àqueles que consideram o bom senso e a racionalidade um mal em si. Considerarão que discutir abertamente as questões propostas por você vão contra tais e tais crenças ou grupos. Usarão a agenda do politicamente como ataque à liberdade de expressão, como os que defendem que o uso de armas é um direito de todos (aludindo ao fato da palavra ser uma arma como outra qualquer). A Disney colocou advertências que filmes como Aladim e Dumbo contêm “racismo” em suas tramas. Várias obras literárias, cinematográficas, musicais e outras vertentes artísticas têm viés supremacistas, ainda que trate sobre o cotidiano de determinado extrato da sociedade. Com certeza, a discussão do politicamente correto deva ser, de início, pautada por quem produz textos e se relaciona com seu meio através da palavra escrita, por iniciativa própria. A partir daí, a ampliação do diálogo poderá se desenvolver sem que tenhamos pejo em mudarmos nossos “hábitos de escrita” de escritor para resinificarmos nossa expressão.

  8. Que análise! Sim, é verdade – as palavras causam feridas profundas que dificilmente são esquecidas. Possivelmente em algum momento eu também já fui da turma do “nossa, que chatice”, mas o dia a dia e a convivência com algumas pessoas foram me fazendo entender que a alteração do vocabulário é necessária. Por outro lado, é interessante como pautas que deveriam ser de todo e qualquer ser humano tornaram-se pautas da esquerda. Direita e esquerda hoje são definidas por uma amplitude de situações que extrapolam as questões econômicas. Irônico é perceber que a esquerda perdeu pessoas por defender uma postura de vida politicamente correta – Em geral, pessoas conservadoras que se sentiram atacadas e sem espaço pelas pautas identitárias e acabaram migrando para a direita ou para uma centro-direita que, na prática, serve apenas aos próprios interesses. Assim, a direita ganhou jovens conservadores (o que na minha visão se aproxima de algo aviltante) e adulto também conservadores incapazes de abrir mão de seus privilégios, e a esquerda acabou se tornando palco de uma camada de pessoas que busca mais do que igualdade econômica, busca igualdade social e humana. Uma situação complexa, mas tratando-se de um fenômeno humano, não poderia ser diferente!

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