Último capítulo desse ano-maluco

Noite de dezembro… a primeira — estranhamente agradável depois de um dia quente e tempestuoso. O trabalho ficou para depois, como tantas coisas outras, nesse ano que começou com promessas. Eu não pulei ondas, tampouco fiz pedidos à meia-noite. Não sou do tipo que se veste de branco… mas, eu escrevi uma missiva para o futuro — uma tradição que começou lá na minha primeira década de vida.
Sentar-se à mesa da cozinha para escrever ao futuro era divertido porque eu não sabia o que dizer-escrever. Nunca fui uma pessoa de futuros — cartas, linhas das mãos, búzios. Nada disso é para mim. Não gosto de me antecipar… saber-descobrir. O amanhã é para os outros que não eu.
Sou uma pessoa que gosta de apreciar o momento… regido por essa figura divina-grega, Kairos que eu gosto de imaginar nos festivais de Baco, em movimentos dionisíacos. Sem preocupação alguma com seu irmão Chronos — sempre sisudo e de braços cruzados a frente do corpo, preocupada com os ponteiros que ditam o ritmo das coisas-mundo-realidade-pessoas. Eu o imagino com fios presos na ponta dos dedos a controlar as suas marionetes… e me divirto ao me lembrar de certas pessoas que conheço — reféns do relógio-calendário.
Mas, ao arrancar a folhinha de novembro… e dar de cara como mês-novo, recém-chegado… senti saudades de outros dezembros — quando era um mês-branco. Tempo de descer as mantas e os casacos pesados da parte alta do armário. Sair para comprar lãs no armarinho da donna O. Sentar-me no sofá da sala para confeccionar luvas e ouvir histórias de outros dezembros, igualmente brancos com xícaras de chocolate quente nas mãos. Chamar o signore T., em seu velho macacão jeans-desbotado, com  um cinto de utilidades (muito melhor que o do Batman) para reparar as janelas e a calefação da casa. E, finalmente, rever o silêncio da rua, das casas e a penumbra dos candeeiros.
Quando caía a noite….eu grudava os olhos na vidraça e sentia crescer a vontade de vagar sem destino pelo meio da rua deserta de presenças — falsamente iluminadas pelo dourado das lâmpadas no alto dos postes.
Era tempo de caldos quentes, taças de vinho, canecas de chocolate quente e todas aquelas receitas deliciosas do inverno-infância que não posso fazer nesse dezembro tropical. E, após tantos anos vivendo em São Paulo ainda não consegui me acostumar a esse mês tão cheio de luz, aquecido, dissonante e multi-colorido. Sigo me limitando a fechar o livro, devolvendo-o a prateleira da memória e colocando um ponto final nessa história que se escreve em doze capítulos — todo ano.

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

7 comentários em “Último capítulo desse ano-maluco

  1. As vezes, eu me pergunto se ficar com você alguns dias da semana, me contagio com esse seu ritmo de escrita. Eu viajei. Fui longe. Vi neve, mantas, casas aquecidas, ruas vazias e voltei para São Paulo (onde nem estou) e suas ruas cheias, aquecidas.
    Me lembrei de você assim que soube da tempestade em São Paulo e fiquei em dúvida se você estava segura. Mas, pensei cá com os meu botões (zinhos): ela está em casa, com os amores dela, observando a chuva, ouvindo os trovões.

    Ai Catarina, que bom te reencontrar nesse dezembro.
    T.E A.D.O.R.O e estou esperando meu livro novo para ler em dezembro

    bisous

  2. Ah, Catarina voltou.
    E eu fiquei escolhendo luvas, ouvindo histórias.
    Que saudades eu senti desse dezembro branco seu que nunca vivi.

  3. Ah, as contradições a gerar lindos textos em Catarina!
    Doze capítulos é muito pouco para contar suas histórias de um ano… que chegue 2021 com novas saudades!

  4. Lunna, acho que já conversamos uma vez sobre Kairos e Chronos. Eu gosto de ambos, mas admito que fico mais confortável com Chronos, embora esse ano a presença de Kairos na minha vida tenha sido dominante. Eu acho lindo essa coisa de Natal com frio e acho até que é algo que acabou um pouco agregado a cultura do Brasil, haja visto várias decorações que remetem à neve, como árvores de natal branquinhas e enfeites de boneco de neve. Por outro lado, apesar dessa overdose de filmes/séries/livros que nos trazem essa visão (especialmente americanos, que predominam no consumo do entretenimento por aqui), sequer consigo imaginar como seria viver um mês de dezembro sem o calorzão do verão. E olha que eu nem gosto, tanto do calor quanto do verão.

  5. Gostaria tanto de viver um natal branco, no meio da neve e do frio, quem sabe um dia? Por enquanto tenho que me contetar com o frio de dezembro vindo do ar condicionado, rs! E vamos nós para mais um final de ano, esse tão atípico, mas não menos importante.

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