09 | O que escrevi em meu diário?

PRIMEIRA, ESTRANHA-SE, DEPOIS ENTRANHA-SE

Escrever para mim… é  deitar o olhar no espelho e ver refletir contrários. Eu preciso me permitir ser a pessoa que nem sempre quero ser — dentre todas, que de certo eu sou. Preciso alcançá-la… tocá-la… tragá-la… traçá-la e se oferecer enquanto pele para uma tatuagem definitiva!
Mas não é nada simples ou fácil desalojar-se para vestir-se desse outro que chega sem avisar, invade e me expulsa do lugar-casa-corpo. É inegável, no entanto, o sabor que existe em liberar a matéria… para a loucura — esse veneno que tantos recusam — e que eu sorvo em pequenos goles.
Sentir na própria pele é um exercício demorado que nem sempre convence. É preciso entranhar-se — como disse Fernando Pessoa… e é justamente o que tentei fazer ao me sentar nessa varanda. Fechava os olhos e sentia os aromas (todos) no ar. Observava a paisagem urbana… o traço cinza da rua com nome de pássaro lá embaixo e os muitos recortes de movimento que via-percebia-sentia. Às vezes, um avião cruzava os ares — em rotas de pouso-decolagem — e um pássaro surgia no azul, num rompante delicioso de asas. Tudo se misturava. Se perdia… se reencontrava e o grafite riscava o papel no sentido do passo, alimentando-o com notas, esboços, rascunhos, rabiscos e muitos pretéritos. E eu ía escolhendo com qualquer coisa de calma… o que contar, piorar ou melhorar de minhas muitas vivências reais ou imaginárias.
Escrevi uma espécie ode ao meu existir literário — um demorado desabafo descompromissado, na primeira pessoa do singular. Um grito que não quis deixar a garganta. Um esvaziar-se de emoções… um confessar-se atemporal dentro dos dias de sábado, esse lugar para onde a minha bússola — o cuore — aponta. E se eu tivesse que dar a alguém o meu endereço, com certeza, seria esse. É onde eu me sinto em casa.

Aos sábados é um pouco de tudo e nada… tem momentos velhos-caducos, novos-recentes e delírios porque é o que me salva. Mas eu o considero um não-livro, escrito num momento difícil porque era tudo que eu podia-conseguia fazer para não surtar nesse não-ano.

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

11 comentários em “09 | O que escrevi em meu diário?

  1. Se levarmos tudo conosco, a bagagem pesa nos ombros e paradoxalmente, se levarmos pouco, perdemos consistência. Quando se escreve bem é porque, antes de andar, já se engatinhava na corda bamba.

    Bisous, ai minha santa ansiedade, isso lá é coisa que se faça. Eu heim.
    Lá vou eu vigiar a minha caixinha de correspondência.

  2. Lunna seus textos são sempre uma viagem para mim, quando me dou conta estou imaginando cenários incríveis, um tanto lúdicos, sempre muito poéticos, através de suas inspiradas palavras. Escrever é mesmo um dom, e você tem esse dom. Abraços!

  3. Uau, Lunna! Que bom que temos mulheres incríveis empoderando a escrita como você! Esse “…deitar o olhar no espelho e ver refletir contrários” me deixou muito positivamente incomodada, pois ainda não tinha visto sob esse prisma o ato de escrever! Sempre gostei de escrever e foi nos diários que tudo começou (acho que já lhe mencionei, não é verdade!?). Importante guardarmos nossas memórias em registros que nos revirem às avessas!
    Bjs

  4. Quero muito ler esse não-livro. Se for como o outro já sei que ficarei a suspirar durante dias. E vou ter que ler ao poucos, como de costume, para evitar o fim. Por que fazes isso comigo?
    Tuas palavras são um trago no encanto que molda o universo, um vislumbre da alma, uma viagem a sentimentos e lugares guardados no coração!

    Livro encomendado, agora é esperar.
    Ai meu coração!

    Beijos!

  5. Nunca havia refletido a escrita como “olhar no espelho e ver refletir contrários”, frase interessante que me deixará reflexiva.Neste não-ano de 2020 a escrita certamente salvou muitas pessoas – Sejam elas pessoas que escrevem ou apenas pessoas que leem. Se em 2021 as coisas não melhorarem, que bom que ainda teremos papel, caneta, livros e blogs para nos curar do caos.

    Beijos!

  6. Acho que já comentei mais de uma vez aqui que admiro quem tem o dom de escrever, pois não consigo me imaginar colocando no papel coisas que despertariam o mínimo de interesse de qualquer outra pessoa ler. Entretanto, ainda assim, as vezes escrevo, tanto no meu “diário” (hábito que vai e volta na minha vida) quanto criando pequenas histórias que, com o tempo, percebi serem apenas mais uma forma de colocar pra fora situações e confusões internas. Me encantei com a frase ” Escrever para mim… é deitar o olhar no espelho e ver refletir contrários” porque quando escrevo percebo aflorando em mim coisas que eu não sabia existir ou fingia não saber. Enfim, não tenho intenção nenhuma de compartilha as coisas que escrevo, mas sigo admirando sempre quem faz isso, especialmente a sua escrita e seus textos.

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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