01 / 365… 2021

Meu caro 2020… não sei dizer se já é ano novo e isso é responsabilidade sua que embaralhou tudo por aqui… as horas, os dias, as semanas e os meses. Alguém me disse — em voz alta — que seus trezentos e sessenta e seis dias se resumiram em um único dia… o domingo. Eu gargalhei por dentro. O meu dia favorito é outro. Sigo sendo a criatura dos sábados e, por isso, mergulhei fundo nesse dia enquanto você insistia em cavalgar pelo calendário.

Eu me lembro que nos seus primeiros minutos… estávamos entre realidades, embriagados por uma deliciosa conversa. Desatentos… não o vimos chegar. Eu havia me desprendido do lugar… recuado algumas casas. Fui trazida de volta pela pergunta que ressoou pela sala: gente, já é ano novo. Não havia certeza na frase. Procuramos por relógios, mas não havia nenhum. E já havia se passado dois ou três minutos…

Trocamos abraços, desejos de fortuna, alegrias e paz — o de sempre. Todos a minha volta tinham seus planos futuros que você tratou de esmagar um a um.

Nos teus primeiros dias… não dei importância alguma para o vírus que já causava preocupação em outros lugares. Parecia que não iria chegar aqui — afinal, somos abençoados por deus e bonitos por natureza —, e seria apenas mais uma notícia do mundo a ocupar apenas cinco segundos no JN.

Faltou cuidado! Ninguém se preocupou… ocupados com o Carnaval — que eu esperava passar para dar corda no meu carrilhão interno. Ah, meu caro 2020, para muitos você acabou ali no onze de março… uma quarta-feira que nos obrigou a entender que as divisas inventadas por nós, são meras ilusões.

Cancelamos tudo e eu fiquei com a sensação de amassar muitas folhas de papel — acumuladas no chão. Mas, eu não posso me dizer surpresa. Tenho consciência de tudo que fizemos para chegar até aqui — foram inúmeros os erros e enganos cometidos por minha espécie. E sei que não foi o Ano que, em breve, será esquecido. A memória humana é uma coisa frágil… se apaga com facilidade. Sopra o vento e pronto. Mas, não quero me esquecer de nada porque eu espio os teus dias — esse passado que ainda segue em minhas margens — e a sensação é de que vivi todos os meus trinta e nove anos, dentro de seus contornos.

Será que você saberia me dizer como se mede uma vida inteira? Porque eu tenho uma relação estranho com o tempo. Sou regida por Kairos — graças ao Mestre da minha infância e nada entendo dessas medições humanas, para as quais dei de ombros há tempos.

E, ao escrever-te, me vejo a espiar o velho relógio preso a parede da sala — parado e imóvel sem que alguém saiba seus segredos. Não pulsa, não canta… apenas espera que o dia seguinte o coloque em movimento.

Au revoir mon bon ami

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

2 comentários em “01 / 365… 2021

    1. Confesso que sempre achei esse verso irônico… mas não saberia dizer-te se ele acreditava no que cantava. Mas, me incomoda a força que o verso ganhou na voz de certos generais.

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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