04 | um verbo para este ano {novo}

…sempre gostei imenso de conjugar os verbos em seus diferentes tempos. Tenho os meus preferidos. Desaparecer, por exemplo, sempre se destacou dentre tantos outros, no idioma local. Lembro-me de descobrir um poeta que se foi sem deixar rastro. Tudo que se sabia dele era o seu pequeno livro de poesias. Tão simples e lúdico. Desapareceu, sem mais…
No inglês e no francês há outros tantos verbos que lustro e digo em voz baixa apenas para que eu possa ouvir-sentir o reverberar silencioso-ameno, feito voos ligeiros de pássaros no ar. Por aqui, tenho bem-te-vis suicidas, que despencam das janelas em quedas espantosas que são interrompidas há poucos centímetros do chão.
E foi ali, na virada do ano, a observar o vôo dos pássaros que eu decidi que gostaria que 2021 superasse 2020… nas conquistas, mas, sobretudo nos fracassos.
Fracassar é um dos verbos mais ingratos quando pronunciados em outras bocas que não as minhas. Não somos educados — mais deveríamos ser — a fracassar. É dito em voz alta que não devemos desistir. Insistir é o melhor dos verbos paras a maioria das pessoas que conheço. Eu dou de ombros. Não gosto. É qualquer coisa enjoativa. Eu sempre me questionei quanto a não desistir porque as minhas medidas são outras. Certo e errado sempre depende de quem vai e de quem vem. E, como eu estou sempre na contramão, não é surpresa que alguns conceitos humanos, soem estanhos e equivocados para mim.
Eu fracassei muitas vezes e desisti outras tantas… nesses meus quase-quarenta. Não foi nada fácil! Acostumada a dar o passo seguinte, para o salto no escuro de um Abismo que sempre fui. Recuar exigiu muito de mim. O Abismo é uma figura fascinante. Me deixei seduzir ainda na primeira infância. Ouvi o chamado e atendi. E não foi uma chamado qualquer. Era algo provocativo-poderoso. O abismo soube me induzir ao salto… e me convenceu a permanecer em estado constante de queda.
Ao recuar na primeira vez, senti um enorme cansaço nos músculos (cansados de parar, como diz o soneto de Álvaro de Campos). Fechei-me dentro e sem voz, fui repousar a cabeça no travesseiro. Lembro-me bem daquela manhã primeira. O meu mundo era um lugar pequeno-encolhido-mínimo, com meia dúzia de esquinas e uma dúzia de casas. Eu sabia das multidões. Mas, ainda não havia colidido contra elas.
Foi estranho sentir que o meu mundo desmoronava. Mas, ao sair para caminhar naquele mesmo dia, me deparei com uma casa em ruínas, que me fez interromper o passo. Fiquei lá, completamente imóvel. Me identifiquei com as paredes alquebradas. O estado de abandono. O mato crescendo por todos os lados. Ao regressar ao meu quarto, escrevi na página do meu diário: hoje eu entendi que sou uma casa-corpo. Será que Fernando — na Pessoa de Campos —, sentiu isso também?
Em 2020 eu precisei desistir de muitas coisas. Abandonar outras… e assumir o meu fracasso. Não foi o ano ou o vírus. Fui eu que não tive condições de continuar. Precisei reconhecer minha falta de habilidade em lidar com tudo que se passou. Ali no 11 de março quando o mundo a minha volta entrou em colapso… eu apenas parei. Precisava de tempo para entender o que acontecia dentro.
Eu sou uma pessoa de pequenos goles. Não sei virar tudo para dentro. Preciso de sentir a temperatura da xícara na ponta dos dedos, entre as mãos. Apreciar os aromas (todos).
Eu fui uma das primeiras a recuar o passo, a cancelar o dia seguinte. Eu desisti… do ano, dos projetos, das coisas todas. Me abandonei no canto… e não me arrependo! Hoje eu sei o resultado do meu ato. Claro que à época, eu não fazia idéia do que aconteceria comigo. Acompanhei pessoas em surtos… amigos em pânico. E me mantive calma! …consumi todas as informações que encontrei a respeito de tudo-e-nada. É impressionante como em plena era da comunicação… pouco se sabia ou dizia a respeito da ameaça invisível que nos atingia. Lembro-me de ouvir o Presidente Macron dizer: estamos em guerra. E eu não sei dizer o que senti ali. Mas toda a estrutura do meu corpo estremeceu.
Eu não sou parte de geração das guerras… embora saiba delas, através dos livros de história. As únicas ameaças do meu tempo, até então, éramos nós mesmos e nossas batalhas egoístas contra tudo e todos. Estamos em guerra — repeti em voz alta, conscientizando-me da verdade ingrata. Eu não vivi nenhuma grande guerra mundial, mas, vivo uma para a qual não me alistei e nem fui convocada.

Para esse 2021 eu escolhi o verbo abraçar… porque tanto se falou da falta de um abraço no ano que se foi há pouco. Mas, a verdade é que esse verbo precisa ser conjugado na primeira pessoa do singular… e não é na direção do outro.    

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

11 comentários em “04 | um verbo para este ano {novo}

  1. Mas eu proponho conjugar o verbo em nós mesmos. Acho que muitas pessoas precisam se abraçar porque acompanhei tantos surtos. Não foi nada fácil para muitas pessoas conviverem com elas mesmas. De repente, estavam diante de um estranho, um total desconhecido.

      1. Como eu disse, desejo abraçar a Paz. Desejar é um desejar. Mas me refiro à paz interior. Tão complicada quanto a exterior de se alcançar.

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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