6 ON 6 | portas…

Desde a infância que eu aprecio portas… me lembro que ao caminhar pelas ruas do bairro em que cresci, espiava os contornos que eu alcançava e equilibrava o meu olhar entre portas — com seus capachos e enfeites sazonais —, e janelas abertas-fechadas, acortinadas.

Penso que seja como observar uma tela presa a parede… a porta é a moldura da construção. O começo, o meio e o fim. Por onde se entra e saí… por onde se chega e vai embora…

Dos caminhos que estendem o poente
Um (não sei qual) há de ser percorrido
A última vez, por mim, indiferente,
E sem que o adivinhe, submetido
(Borges, Limites)

1 — Primeira fotografia que fiz, pouco depois de chegar a São Paulo, em meados de 2002… caminhava sem compromisso com uma Leica X2, em mãos. Me perdi dos passes e acabei no Vale do Anhagabaú e esbarrei nessa porta, bem debaixo do Viaduto do Chá. O resultado eu só fui ver semanas depois ao revelar o filme…

2 — Fotografia feita por acaso… estava a percorrer os espaços da Pinacoteca do Estado quando estacionei o passo, atrapalhando o ir e vir de outros visitantes. Levantei a câmera para olhar através da lente e acionei o clic. Outra fotografia que eu só fui ver o resultado dias depois…

Ps. saudades dos filmes de rolo! Hoje é tudo tão rápido-ágil.

3 — Foto feita com o celular… é recente, foi feita na primeira vez em que fui as ruas depois da pandemia, no final do ano passado. Uma dessas saídas necessárias. Ainda não acredito que não tinha visto essa mansão antes. Me estiquei por inteiro para fotografar a porta e janelas dessa construção abandonada, enquanto imaginava os personagens em suas idas e vindas.

4 — Essa foto foi feita antes da pandemia… sai para andar pelo bairro e acabei diante dessa casa — uma sobrevivente — entre prédios, que incomoda a vizinhança. Nunca vi ninguém entrar ou sair por essa porta de ferro, que parece solta-encostada no batente. Essa casa com certeza é uma persona-personagem de alguma história que ainda não escrevi. Percorrer esse chão de cimento e alcançar essa porta para espiar dentro é um devaneio que por enquanto pertence apenas ao meu imaginário…

5 — Eu queria muito um livro — sou dessas, que sai de casa e tem pressa de chegar à livraria… da Vila, na Avenida Moema. Seis de março… e a noite caiu silenciosamente. As ruas começavam a se esvaziar. Foi a última em que sai sem máscara, com o passo leve, sem receios do ar, das pessoas e comprei meia dúzia de livros. Estava a poucos passos da livraria quando o olhar esbarrou e ficou nessa porta, que pertence a um edifício antigo-fechado-abandonado e ainda hoje me pergunto que cuida do lugar, porque é certo que há um zelador ali…

6 — Não me lembro do dia-ano-momento… mas era véspera de alguma coisa. Certamente eu tinha ido ao Mercado da Cantareira — conhecido por Mercadão —, e subi a Florêncio de Abreu para desviar do tumulto corriqueiro da 25 de março. Multidões me roubam a paz… esbarrei nessa arquitetura antiga, em estado de ruínas. Vontade de abrir essa porta com as duas mãos, por sorte não foi possível porque pelo estado do prédio, não havia nada por trás dela…

Darlene ReginaMariana GouveiaObdulio Nuñes Ortega

Publicado por Lunna

É sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros. Paciência lhe falta desde a infância. Mas sobra-lhe sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecia o silêncio e falas cheias. As que se repetem com facilidade de boca em boca despreza... Lacaniana por opção.... E completamente apaixonada por mulheres que usam a escrita como uma navalha afiada que corta enquanto é carne. Escreve à noite e reescreve pelas manhãs. Gosta de calçadas e corujas. Anda sozinha ou acompanhada, tudo depende da fase... minguante é a sua preferida!

11 comentários em “6 ON 6 | portas…

  1. Que belas portas paulistanas, Lunna! Imagino os achados das fotos feitas com câmeras de filmes de rolos…

    1. Era bastante interessante, meu caro. Pegar o envelope com as fotos, espalhá-la por cima da mesa e espiar a fotografia em paralelo com as lembranças. Eu me acostumei a clicar mais de uma vez uma mesma imagem (coisa que faço hoje com o celular ainda) porque nunca sabia se o resultado ao revelar seria o esperado. rs

  2. Conheci uma pessoa q tb gostava de portas, então na casa dela a cama tinha uma porta, na sala tinha uma porta como cama, a mesa da cozinha era uma porta. Não perguntei o significado. Imagino q há um significado.

  3. Também adoro portas, e adoro a ideia de que elas podem me transportar para outro lugar, mundo, planeta, dimensão, etc.
    Adoro seus posts de 6 on 6, porque além das fotografias, vemos a história por trás de cada uma delas!
    Amei a última foto.

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