livro do desassossego

“Porque eu não sou nada, eu posso imaginar-me a ser qualquer coisa.”

Não sou de fazer lista de livros por ler ou para ler — lista me lembra ida ao supermercado, prateleiras, códigos de barra e, filas nos caixas. Eu sou do tipo que vai até a estante — nos intervalos do dia — para escolher um livro e sair com ele por aí. Nos últimos meses-semanas-dias… sair significava tão-só: levar o livro do sofá para a cama e para a mesa na varanda. Antes, era dobrar esquinas, atravessar ruas, caminhar calçadas até um café e por lá me sentar para virar páginas.

É uma mania antiga… iniciada na infância, quando eu passava horas inteiras na Biblioteca do colégio… transitando entre as prateleiras nada organizadas e sentindo a textura dos livros na ponta dos dedos.

Gosto imenso de escolher o que ler através da tato… sem me preocupar com título, autor. Apenas a sensação que o toque provoca e é qualquer coisa poderosa. Se ousar experimentar, depois me conte como foi para você.

Minha relação com Bibliotecas — definitivamente — forjou a leitora que sou. Gosto imenso de livrarias — principalmente as de rua —, e tenho ótima lembranças de alguns desses mini templos, onde adquiri a maioria dos exemplares que tenho comigo.

Mas, foi nas Bibliotecas das cidades — em que estive para ficar por uns dias-semanas-meses, em alguns casos, míseras horas —, onde os rituais de leitura ganharam corpo e descobri uma edição do Livro do desassossego, de Bernardo Soares.

Leitura densa! Cada página virada oferece um diálogo que precisou ser interrompido algumas vezes para puxar ar, pensar a realidade — do autor em paralelo a minha —, e refletir a respeito de quem sou e quem era o homem a escrever fragmentos de tempo-vida-realidade-mundo.

O livro do desassossego é interminável. Não é leitura para ser feita de uma só vez. Descobri isso conforme avançava na leitura. As pausas devolviam-me a cadeira-mesa-pele-lugar. É maravilhoso perceber que ao regressar já não se é mais o mesmo. A narrativa contida nesse livro parece — e tenho para mim que foi essa a idéia do autor-poeta-homem Pessoa —, um diário ou um simples caderno de notas, onde o autor tenta se despedir do poeta-homem-personagem Álvaro de Campos e toda a sua metafísica — tão imensa —, contida nos últimos poemas da pessoa mais incrível que Fernando inventou, como: depus a máscara e vi-me ao espelho — esse poema é uma espécie de tatuagem para a minha pele.

Sempre que leio esse livro, tento imaginar como foi para o homem-Pessoa conviver com o personagem. E tenho para mim que Álvaro se apoderou de tal maneira de Fernando que no fim, o poeta não sabia onde começava um e terminava o outro. Tanto que não há referência de morte para Campos — que chegou a ser determinada e abandonada —, e o próprio assinou uma das partes das anotações… organizadas e publicadas após a morte de Pessoa.

A edição que irá me acompanhar nesse 2021 é da Tinta da China… edição de Jeronimo Pizarro, que considera que o livro do desassossego é uma — e eu amei essa definição —, obra em que há pelo menos três autores à procura de um livro.

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

7 comentários em “livro do desassossego

  1. Peguei esse livro e abandonei temporariamente umas duas vezes. Não por ser chato mas por ser denso demais. É muita humanidade reunida num único livro. Overdose se tentar ler de uma vez. Há que se ler em conta gotas…

  2. Embora faça lista de livros que quero ler, também gosto de escolher ao acaso. Mas, em vez de me guiar pelo tato, eu me deixo seduzir pela capa. Foi assim que descobri ‘Precisamos falar sobre o Kevin’, que tinha uma capa bastante instigante na versão brasileira: uma foto em preto e branco de um menino com uma máscara de um animal potencialmente perigoso. Sem dúvida, uma das melhores escolhas que fiz: Lionel Shriver é hoje uma de minhas autoras preferidas.

    1. Eu li esse livro, meu caro. Mas, confesso que a capa nacional me incomodava. Mas é uma literatura que segue esse mote, o de nos incomodar, com aquele garoto e a mãe. Eu devorei o livro, mas também o escolhi no tato, nua livraria. rs
      Nós dois fizemos excelentes escolhas a nossa maneira.

  3. Como é vasto o mundo das obras que ainda não li! O livro do desassossego faz parte daquela velha lista de “livros que ainda pretendo ler” e nunca leio…rs. Tenho certeza que o momento certo chegará, mais cedo ou mais tarde.

    Beijos!

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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