Os livros lidos no outro ano…

Sentei-me aqui na varanda, com uma xícara de chá em mãos, para espiar — de novo —, o ano que passou. Respirei fundo e depois de um pesado gole do chá… percebi que os dias-semanas-e-meses de dois mil e vinte… não se orientam em somas possíveis. É como jogar um par de dados na mesa e aguardar pelo resultado…

Dois mil e vinte ainda está por aqui, nesse janeiro seguinte e nem sei quando irá se dissolver. Se é que em algum momento isso irá acontecer.
Tentei mudar o foco. Pensar apenas nos livros lidos e me lembrei da última vez em que fui as ruas. Eu havia acabado de me mudar… as prateleiras ainda estavam sem livros e também era véspera do caos na cidade-estado-país-mundo. Eram poucas as pessoas que cobriam o rosto com máscaras e parecia um exagero, mas o distanciamento tinha inicio…
Fomos os três… a Livraria da Vila em busca de alguns livros encomendados. Era quase outono… quase fim de tudo-mundo-sossego. A gente ainda pensava que quinze dias seriam suficientes para a vida voltar ao tal do normal que nos levou ao caos…

Escolhi para aquela semana-primeira… o quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus — leitura forte que escancarou todo o privilégio por ser mulher-branca-classe-médica que pode fazer um café e se sentar na varanda para espiar janelas, ruas e se reinventar.

“Antigamente eu cantava. Agora deixei de cantar, porque a alegria afastou-se para dar lugar a tristeza que envelhece o coração”. […] (p. 150).
Carolina Maria de Jesus

Na segunda-seguinte… recorri ao Silêncio na era do ruído, de Erling Kagge. Releitura que me permitiu regressar a pele, por dentro e acertar os ponteiros do corpo com o do lugar que ainda era novo e seria minha redoma pelos meses seguintes.

Quando chega a hora, é sempre pouco o necessário,
e esse pouco o coração já sabia. — Erling Kagge

Alguns dias depois, busquei por Irmãos Karamazov na prateleira recém organizada… e pela primeira vez eu li Os irmãos Karamazov em pleno outono. Ninguém é capaz de interpretar o caos como os russos e gosto imenso da figura do pai que dá tudo que o filho precisa, sempre que ele pede. Ingênuo, não percebe que o pai lhe tira tudo, aos poucos.

Esse verme sou eu. E isso foi me dito ao ver- me. Tudo isso foi dito
especialmente sobre mim. Nós os Karamazóv, todos nós somos esse verme,
inclusive você, meu anjo: esse verme vive em você, já é você, faz
nascer tempestade em seu sangue!

Essa leitura me levou a outra… 1984 que me fez pensar nesse velho-mundo-novo em que se proíbe — certos —, livros. O argumento é antigo. Está gasto e ainda assim, circula de boca em boca… feito fumo. Listas de livros foram distribuídas por escolas, diretores e chegou até mim. Estupefata… decidi reler alguns títulos apenas para contradizer a turba. Macunaíma foi o primeiro. A revolução dos bichos (que mudou de nome recentemente) e Admirável mundo novo do senhor Huxley.

Se uma pessoa procedeu mal, arrependa-se, faça as reparações que puder e trate de comportar-se melhor na próxima vez. Não deve, de modo nenhum, pôr-se a remoer suas más ações. Espojar-se na lama não é a melhor maneira de ficar limpo. — Aldous Huxley

Empilhei alguns dos livros lidos… apenas os melhores, na — inútil — tentativa de escolher o melhor dentre todas as leituras feitas. E acabei por ter certeza de Questão de Ênfase, de Susan Sontag ficou entre os dez melhores. Mas não foi a melhor. Outros livros-leituras se destacaram. O ano do macaco, de Patti Smith e Meus desacontecimentos de Eliane Brum. Corredores, de Mariana Gouveia que me levou a reler Diário do hospício, de Lima Barreto.

E de leitura em leitura… o ano acabou, mas continuamos no escuro e eu continuo buscando refúgio nas páginas dos livros.


Alê HelgaAna Claúdia Soriano Mariana Gouveia
Obdulio Nuñes OrtegaRoseli PedrosoViviane Almeida

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

14 comentários em “Os livros lidos no outro ano…

  1. Esperando que aos poucos 2020 comece a se dissolver, ficando apenas como uma mórbida lembrança do passado. Amei as leituras que você mencionou, em 2021 espero reler 1984, que li quando era mais novinha (e na época já amei). Te desejo ainda mais leituras incríveis neste novo ano ❤

  2. Lunna, eu acho incrível que você consiga saber a sequência exata dos livros que leu. O não-ano me deixou tão baratinado que apenas depois que publiquei o meu texto, comecei a lembrar dos títulos. O que sei é que apesar do tempo externamente se abrir diante de mim, ele foi se fechando por dentro, a ponto de eu perder a vontade de ler. Assim foi 2020, mas pode chamá-lo de 1984… Espero que o “day after” ou 2021, seja melhor.

  3. Também tenho essa sensação de que 2020 ainda está por aqui. É uma sensação de mais do mesmo, junto com uma sensação de que a qualquer momento as coisas vão piorar. Enfim… falemos de livros, que é melhor. 2020 foi um bom ano de entretenimento para mim, li livros, assisti filmes e séries que já estavam na lista de espera há algum tempo. Mas também revisitei alguns velhos conhecidos, que são muitos queridos por mim. Dos que você citou, comprei esses dias atrás 1984. Li uma vez há muitos anos e não lembro praticamente nada da história, queria muito reler e o farei em breve.

    1. Olá Juliana, eu tenho sentido a mesma sensação de mesmice do ano passado, parece que alguma coisa não foi embora com a passagem do ano e eu espero memso que essa sensação mude logo. Também estou animada para ler 1984 ainda no primeiro semestre, se fizer uma leitura conjunta me avisa que amar participar.

  4. Eu passei as primeiras semanas do mês, esperando essa sensação de 2020 passar e até agora ela ainda me acompanha. Eu também li Quarto de Despejo e tentei ler Os Irmãos Karamazov, mas, precisei parar por alguns dias e não voltei ainda, também estão nas minhas listas de leitura desse ano os livros 1984 e Admiravél mundo novo. Anotei várias dicas de livros para comprar e ler nos próximos anos, principalmente, as obras da Patti Smith e Susan Sontag.

    Viviane Almeida
    Resenhas da Viviane

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