É uma rosa rubra a autora dessas linhas

Não perdi o hábito de escrever diários

A primeira vez em que tive contato com o branco… foi em sala de aula. Eu era a menina do canto-quieta. A que não se misturava com a turba e não tirava os olhos das páginas do caderno-novo — apreciando com intensa paixão o silêncio de uma página surda-muda-quieta… em branco.

Eu queria — desesperadamente — vê-lo cheio… de palavras! — preenchido-povoado por consoantes e vogais escolhidas por mim… apenas para folheá-lo len-ta-men-te no dia seguinte — como fazia com os livros. Tinha urgência em realizar o movimento… uma espécie de movimento futuro, minha única pretensão nesse sentido.

Escrever, no entanto, era o que menos fazíamos em sala de aula. Me aborreci. Deixei cair os ombros. O ânimo esfriou. Observava o caderno fechado, com seu branco pálido a pedir palavras e eu muda, impedida de transbordar o meu pequeno vocabulário naquelas páginas.

A professora creditou minha reação ao fato de eu ser filha única. Uma criança acostumada a ter toda a atenção dos meus. Disse em voz alta que eu precisava me acostumar. Avisou-me do alto de sua sabedoria singular, com sua voz falsamente-amena — daqui a pouco a aula acaba e você volta para casa. Agora é tempo de aprender.

Eu não disse palavra. Reparei que todas as outras crianças olhavam-me. O que bastou para me sentir convertida em um animal engaiolado no zoo da cidade.. onde estive apenas uma vez para nunca mais voltar. Me fechei em concha e abri o meu caderno-novo-mudo-pálido. Passei a imaginar as minhas palavras favoritas-perfeitas que se perderiam sem tocar aquele Branco imaculado. Frases inteiras partiam para outra parte do mundo, perdidas, sem a menor chance de as encontrar… enquanto eu agonizava naquele silêncio de riscos e rabiscos insípidos. Com o lápis no ar, escrevi um dos meus versos favoritos: my friend must be a Bird — Because it flies! Era um dos poucos versos de Emily Dickinson que eu compreendia e achava lindo-imenso. Tinha certeza de que cairia muito bem naquele branco-monótono, colorindo-o.

Eu era a única criança alfabetizada da turma! As outras precisavam de exercícios de coordenação: desenhos circulares, traços e retas para educar a mão… antes de domar a caligrafia. Eu não me lembro como aprendi o alfabeto. Sei que foi na mesa da cozinha, orientada por C. Lembro-me apenas da primeira palavra dita em voz alta, lida sem dificuldade alguma: mattone (tijolo). E me lembro de riscar o meu próprio nome no papel, repetindo em voz alta a soma feita: três consoantes e duas vogais.

Na escola, durante muito tempo, repetíamos o mesmo exercício bobo. e nada de palavras. E enquanto riscava — aborrecida e sem cuidado — mais uma folha de exercício, dona N. — senhora soberana daquele teatro amador — descobriu que minha escrita partia da mão esquerda. A mão errada. Outro transtorno…

Ela me obrigou a repetir todos aqueles movimentos: círculos, retas, traços até cansar a mão direita, que não aceitou — com a mesma facilidade que a esquerda —, os tais exercícios de educação-correção para percorrer os caminhos de escrita. Me senti amaldiçoada por ter cometido o maior dos pecados: ter aprendido a ler-e-escrever antes das outras crianças e com a mão errada…

Abre aspas… durante uma exposição para os pais, naquele mesmo ano, dona N., perguntou sorridente aos alunos — com qual mão vocês escrevem?. Eu fui a única criança a não dizer palavra. A não levantar a mão-certa no ar. Consciente de que eu era uma criança indócil-rebelde… se aproximou com sua expressão severa-feroz-fechada — que nunca me causou medo — e perguntou: por que não respondeu, queridinha?’. Eu exibi o meu sorriso irônico de costume — que já figurava em meus lábios desde aquela época — e, com imenso prazer em meus músculos e nervos, respondi sem titubear — porque nós não escrevemos na sua aula. Só fazemos rabiscos bobos. No meu quarto, graças a senhora, escrevo com as duas mãos! …Fecha aspas

Obviamente não escapei do olhar de reprovação daquela mulher, que buscou e localizou os meus pais, como se dissesse a eles: estão vendo o que eu tenho que suportar?

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

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