Por onde anda o século XXI?

Ando me perdendo dentro de casa e o meu corpo aos poucos, se sente uma mobília que não pode deixar o lugar em que foi colocado. Estou sem espaço. Sinto faltar o ar. Sinto inveja dos pássaros em seus vôos rasantes pela varanda… para onde me mudei e parece que foi em definitivo.
Ontem um deles explodiu contra o vidro da porta e eu quase morri com ele. Foi um susto para nós dois. Corri buscar por uma toalha a fim de socorre-lo. Mas ele não precisava de mim. Era eu quem precisava dele.
Necessitava do susto para me retirar da minha imobilidade.
Depois de se recuperar da colisão. Ele ensaiou um vôo. Não foi muito longe. Pousou na grade e ficou a me olhar com seus olhos de pássaro. O que será que via?
Não sei quanto tempo se passou. Eu já não era boa com essas somas antes. Imagina agora…. nesse não-tempo. Piorou. Fez um ano que o vírus atravessou o oceano no corpo de um homem e chegou a São Paulo. Um ano! Trezentos e sessenta e cinco dias. Uma volta completa ao redor do sol…
E eu a observar o pássaro a abrir as asas e voar até a árvore da frente… e de lá para o fio de energia do outro lado da rua, de onde ficou a me espiar com os seus olhos de pássaro.
Um ano — repeti uma-duas-três vezes… sem alcançar resultado. Uma soma com resultado certo, mas eu tropeço nos números, nos dias, nas hora. Uma grande bagunça que não me orienta em lugar algum no mundo dos homens. Os dias tão iguais… com as mesmas notícias de ontem. Mais de mil mortes diárias. Mais de 250 mil vidas ceifadas pela ignorância de todos nós. Me lembro que o presidente francês disse em seu pronunciamento: estamos em guerra… e não sei se ele sabia a real dimensão dessa frase. Eu, decerto não tinha. A maioria de nós pensou que seria por alguns poucos dias. Quinze ou vinte. Depois tudo voltaria ao normal. Houve quem insistiu na teoria de que tudo seria melhor. Nós seriamos melhores. Uma epifania! — mas eu sempre fui leitora de distopias…
E o pássaro se cansou de me observar. O que há para ver? Ele abriu as asas e voou pelos ares. Despareceu dos meus olhos. Me deixou aqui com o meu cansaço… tão humano. Olhei para dentro. e dei pelos livros imóveis, nas prateleiras… a esperar por mim. Alguns estão espalhados pelo caminho, pelos cantos, em cima dos móveis. E a xícara está lá… a espera do Café. E, eu estou cá, perdida em mim e nesse recorte de mundo-vida-casa… a esperar pelo dia seguinte a tudo isso. Já é março e quase outono… e o dia seguinte ainda não veio! Me sinto de volta ao sótão do nonno, a encaixar o rolo de filme 8 mm no projetor para assistir um filme futurista. Uma odisséia!

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana. Editora de livros artesanais. Autora de romances. Degustadora de café. Uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

2 comentários em “Por onde anda o século XXI?

  1. Sua leitura do momento encaixou perfeitamente a minha realidade, provavelmente a de muitos.
    Que fase, não é mesmo? Depois de um ano talvez não faça sentido eu ainda dizer que não parece real. Mas não parece mesmo. Parece que a qualquer momento vou acordar de um sonho horrível, mas até agora não acordei e os dias continuam e continuam…

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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