Real ou imaginário?

Um dos temas que sempre rondaram a minha mente… antes mesmo de decidir me aventurar pelo universo da escrita — até por ser um assunto recorrente no mundo de onde vim — a psicologia —, é o limiar da tríade: real, fictício e imaginário.

Nas pesquisas que fiz, encontrei uma tênue relação entre a loucura — enquanto elemento dionisíaco — e a realidade das coisas e suas causas.

Percebi que o mundo artístico flerta — sem cuidados ou preocupações, e com qualquer coisa de naturalidade — com a insanidade. Ser louco é, ao que tudo indica, uma condição essencial para o indivíduo Artista que se equilibra entre o real e o imaginário. Ora pende para um lado. Ora para o outro.

Pessoa acusou em seus versos — ‘o poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente’. Se sentiu a vontade para afirmar que o artista transita livremente por mundos distintos. Fica claro, no entanto, que não faz idéia do que transmuta em seu Ser ao ir e vir de universos tão distintos. Certo mesmo é que não sai ileso dessas realidades. 

Eu lembro-me que estava na FLIP — no ano de 2009 —, quando a presença de uma Senhora francesa causou certo frisson nos caminhos que me levavam à Tenda do evento em Paraty. Não se falava em outra coisa. A ilustre presença da autora do livro “A vida Sexual de Catherine M.” — era assunto em todos os cantos e bancos — principalmente por ser a responsável por gerar enorme estardalhaço na sempre tão moderna Paris, que se mostrou incapaz de lidar com a narrativa tão livre de amarras da autora. 

Catherine, sem pudor algum — como é dever de um autor —, escolheu narrar sua apimentada relação com homens e mulheres, a partir dos seus dezoito anos. Ela tinha muito a contar. Afinal, soube se aproveitar — como poucos — da aclamada liberdade sexual.

Quando Millet foi anunciada, eu já tinha devorado as páginas de seu livro. E, ao contrário de muitos, não acusei espanto ou horror. Na condição de leitora da literatura confessional de Anaïs Nin, considerei o estilo de Millet — que é também crítica de arte e fundadora da conceituada revista Art Press — bastante raso… e precário. A sua narrativa não me empolgou. Faltou arranhar a superfície da pele e ser conduzida ao lado de dentro… onde tudo, de fato, acontece. 

No meio da multidão — que se acotovelava para ouvi-la — percebi que a maioria ali, parecia estar interessada apenas nos bastidores das aventuras da Autora… como se buscassem uma resposta que a leitura não foi capaz de oferecer: real ou imaginário? 

Confesso que eu ri diante dos olhares ávidos por uma resposta que, definitivamente, não me interessava. Estava ali para examiná-la de perto. Ouví-la e ao fazê-lo… percebi que Mulher e Autora eram figuras são dissonantes. 

A Mulher Catherine é uma Figura miúda, encolhida e bastante tímida. Aparentemente conservadora e ponderada. Senhora de modos controlados. Uma perfeita Dama.

A Mulher que escreve é um personagem solitário. Uma sombra que precisa de um mísero fio de luz branca. Figura imensa, atenta… sem pudor e que gosta das intensidades que percebe na própria pele.

Ficou visível que existe em Millet qualquer coisa de prazer e satisfação ao narrar sua literatura. Ela alimenta a personagem. Colhe cada gesto menor ou maior que lhe chega. O que me levou de volta às aulas freudianas na faculdade… o ‘sexo é sempre oral’

Em dado momento, Catherine-Mulher se dirigiu a plateia e disse, em voz alta, totalmente consciente — ‘o autor decide o que vai mostrar’. Parecia tentar explicar o motivo de sua escrita-livro e de sua presença da Feira literária. Nesse momento, quase levantei a mão num impulso — convertida em aluna — para lembrá-la de que ‘mas é o leitor quem decide o que irá enxergar’.

Recolhi a mão e me encolhi na cadeira ao me lembrar que o leitor contemporâneo sente muita vontade de realidade — como se o imaginário se mostrasse impossível de alcançar.

Os escritores não se preocupam com essa ‘consequência natural’ ao escrever porque escrever é um ato egoísta-solitário. Não cabe mais ninguém na pele-corpo-matéria que sustenta a mão que conduz a pena. E o que se oferece na forma de narrativa são medidas bem pesadas, que se fundem e provocam a pergunta mais comum: real ou imaginário? E a resposta ecoa por trás do sorriso ardiloso de quem escreve: qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.  

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

3 comentários em “Real ou imaginário?

  1. Real ou imaginário. Essa é uma pergunta que me assusta bastante desde o meu primeiro conto publicado na rede – Sempre há uma figura para perguntar se “é um relato fantasioso de alguma realidade vivida”. Não basta apenas… Ler. Precisam realmente entender os limites entre ficção e realidade? Preguiça.

    Beijos!

    1. Acho a curiosidade do leitor natural. O que eu não entendo é a reação do autor nesse quesito. A resposta é simples. Não há limite. Realidade e ficção se misturam, colidem-se. Nada é real ou ficcional. A narrativa quando bem feita mistura os dois. Então é sempre real…rs

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