Manhã de sábado nublada

Janeiro/11 (2020)

Começarei morrendo pelo coração.
Gostarei sempre dele, como se gosta do que está extinto,
sejam os dragões, os anjos ou as distâncias. Histórias de
coisas que não voltam. O meu coração sem visitas perderá
a memória e, quando nos separarmos de vez, certamente
será mais feliz. Se me perguntarem, direi que nasci sem ele.
Jurarei e mentirei sempre.

— valter hugo mãe —

Ao ler um ensaio escrito por Eliot a bordo de seus quarenta e tantos anos nessa manhã nublada — me vi diante do espelho, com os olhos escancarados e detidos em minha matéria talhada em pouco mais de trinta e tantos anos ou — como prefiro dizer — quase quarenta…

Em “criticar o crítico” — o poeta inglês afirma: “não existir outro crítico vivo ou morto, acerca de cujo trabalho esteja tão bem informado como eu estou, acerca do meu”.

Eu solucei ao ler tal afirmação…

Nunca dei atenção a crítica… não sou o tipo de leitora que abre um livro orientada por opiniões alheias. Ou que dá valor a lista dos livros mais lidos — até porque os critérios para essas escolhas não são claras. Ao menos, não para mim.

Particularmente, nunca entendi de que matéria é feita um crítico literário. Quais os conceitos utilizados — acadêmicos, quase sempre — como se fosse um formato perfeito sem considerar que a Arte flerta com a imperfeição.

O que sei é que a crítica não deveria criar um gosto — tentar impor sabores ou aromas.

Me lembro de certos dizeres acerca de alguns escritores — que para a leitora que sou — eram infundados. Mas, para a Academia fazia todo o sentido.

O que eu me questionava, era quem eram esses tais Acadêmicos? E quem concedeu a eles o poder da última palavra. E por que tanto empenho em traçar mapas?

De acordo com esses seres de grandeza Acadêmica… Baudelaire não servia. Jane Austen tampouco — todos foram excluídos do seleto grupo, dos quais fazem parte nomes que escreveram de acordo com os manuais, caindo rendidos ao que foi determinado nos primórdios literários.

Pior é que, a escrita — desses seres de grandeza aferida —, soa como engodo… coisa pronta… sem graça. Uma receita feita às pressas em que se esquece do tempero e o gosto é aquela coisa que não se define.

Isso tudo, no entanto, é opinião da leitora que sou… e ainda não li tudo — aviso —, e deixei muita coisa para depois ou nunca mais. Já fiz inúmeras releituras dos meus favoritos e não digo ao outro o que ler. Apenas ressalto certas leituras e o prazer que senti ao degusta-las.

Leio por mim e para mim… nunca para o outro. Não faço listas… das melhores ou piores leituras. Mas sei o nome dos autores que me seduziram porque seus livros estão comigo e os levo por aí, em minhas andanças por calçadas irregulares.

E isso me basta, no mais é pura geografia!

 * esse texto é parte integrante do livro aos sábados publicado pela Scenarium livros artesanais, em 2020.

Abril [entre tantas coisas] é o mês do B.E.B.A e lá vamos nós…
e eu terei companhia nessa aventura diária

Adriana AneliAlê HelgaClaudia LeonardiDarlene Regina
Mariana GouveiaObdulio Nuñes OrtegaRoseli Pedroso

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

15 comentários em “Manhã de sábado nublada

  1. Há aquela geografia particular, onde alguns livros são casas onde queremos morar. No mais, são gostos particulares que tentam impor. Falando sobre música,
    um outro tipo de arquitetura humana, eu queria saber por onde anda um crítico que escreveu certa ocasião que o Queen era apenas uma banda comum, com vocais bem arranjados?

  2. Há livros que leio por mim e para mim…Há outros que leio porque escolheram e curiosa que sou quando vejo já estou lendo…Mas leio pelo prazer, nada me impede de deixar o livro lá na estante e não tenho surgido nenhuma relação passar para frente…
    Abraços

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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