Um ano depois…

HOPPER — Editora Taschen

Eu não sou uma pessoa de somas, mas a contagem dos dias-semanas-meses-um-ano-inteiro… me deixou em suspenso nos últimos dias, a calcular rotas-distâncias. A procurar por algo onde pousar o olhar e me sentir na condição de Álvaro de Campos a rascunhar um soneto.

Meu coração é um almirante louco que abandonou a profissão — é assim que me sinto ao espiar os acontecimentos deflagrados em meados de março, quando as notícias começaram a chegar do Velho continente. Soube ali que seria uma questão de tempo até o vírus atravessar o oceano e chegar ao solo tupiniquim. As mortes se acumularam por lá… e as mensagens chegavam uma a uma… atropelando-se. Alguns dos nomes mencionados não encontravam amparo na minha memória — eram estranhos de quem não tinha notícias havia tempos. Depois da morte do mio nonno, a família foi se perdendo aos poucos.

Por aqui… nos fechamos e passamos a acompanhar as notícias através da mídia, que exibiam um mundo em guerra contra uma ameaça invisível. As principais metrópoles do mundo exibiram aos olhos atordoados de muitos — e nisso eu me incluo — , um cenário típico de filmes apocalípticos dos anos oitenta: ruas desertas, comércio fechado e pessoas aprisionadas em seu metro quadrado de espaço.

No começo achei o cenário irônico… havia tempos que estávamos limitados à tela. Vivíamos isolados… de tudo e todos — uma geração inteira de estranhos, conectados a uma verdade ilusória. Saltei para a estranheza quando começou a surgir os desesperados por contato — anunciando saudades dos lugares-pessoas. Uma necessidade gritante de estar com o outro e um medo enorme da solidão…

Recordei tudo que havia presenciado nas minhas andanças pela cidade. Uma cena inteira presenciada na Avenida Ibirapuera… um atropelamento. Demorei alguns segundos a compreender a realidade de um corpo atingido em cheio por um veículo. Ao voltar ao meu corpo, a mulher ainda estava no chão e com dezenas de celulares apontados para ela… filmando o resultado da colisão. Não houve chamado para a emergência. Ninguém se preocupou com o seu estado. Apenas sacaram seus smarthphones para “noticiar” o fato. A mulher estava viva-confusa-assustada-desorientada e machucada, sentia dor… precisava de cuidados.

A pandemia apenas acentuou as nossas falhas… falhamos enquanto indivíduos. Nos desconectamos da realidade e já não somos parte de um todo. Somos apenas partes…

Abril [entre tantas coisas] é o mês do B.E.B.A e lá vamos nós…
e eu terei companhia nessa aventura diária
 

Adriana Aneli – Alê HelgaClaudia Leonardi Darlene Regina
Mariana GouveiaObdulio Nuñes OrtegaRoseli Pedroso

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

14 comentários em “Um ano depois…

  1. Seu post me lembrou uma conversa que tive por esse dias com minha sogra. Lembrávamos o começo de tudo, quando em março do ano passado tivemos um choque de realidade quando escolas e comércios fecharam em nossa cidade. Confesso que a princípio, apesar das notícias, não conseguia ter a proporção exata do que estava acontecendo. E, veja a “coincidência”: quase exatamente na mesma data em que se completaria um ano tivemos o início da onda roxa aqui em MG, com comércio fechado e muitas restrições (ao menos na teoria). A realidade é que esse um ano foi de retrocesso e a sensação que eu tenho é que ninguém aprendeu nada nesse um ano, pelo contrário. Concordo muito com você que nossas falhas foram acentuadas e que falhamos… e pensar que eu ouvia ano passado que aprenderíamos com essa situação e que sairíamos dela melhores, como individual e coletivo. E eu me censurava por estar sendo pessimista de não acreditar nisso.

    1. Ah, minha cara… eu não era pessimista ao ouvir que seríamos melhores depois que tudo isso passasse, eu era realidade mesmo. E eu tive fases de muito cansaço ao observar o comportamento das pessoas durante a pandemia.
      Aqui em São Paulo, as UTIs estão cheias e as pessoas em festas, sem máscaras, fazendo visitas. Enfim, falhamos feio. Mas tudo isso vai passar e como iremos lidar com as nossas sobras é o que me preocupa. bacio

  2. O negócio é que cada um está preocupado com seu próprio umbigo. E esta condição toda só escancarou ainda mais esta condição. Creio que só poderemos ter condições de analisar de fato se algo mudou após tudo passar. Se é que um dia irá passar.

  3. Falhamos, falhamos e não aprendemos, né? Todo mundo falou tanto em “sair disso melhores”, um ano se passou e a sociedade como um todo continua podre por dentro. Triste demais, porque apontam celulares para atropeladas e agora para mortes e mais mortes diárias enquanto comemoram sabe-se lá o que em festas clandestinas.

    Tenho medo (e quase certeza) desse um ano ser só o começo…

  4. Eu vi o Pe. Fábio de Mello que, como religioso, deveria apresentar mais fé no ser humano. No entanto, perguntado sobre se sairíamos melhor da Pandemia do que entramos, ele respondeu com um rotundo: “Não!”. Melhorarão apenas aquelas pessoas que já buscavam antes serem melhores em suas ações, pensamentos e relações. O que vemos acontecer diante de nossos olhos apenas expressa a razão de estarmos como estamos – o Ignominioso não representa a causa, mas a consequência de nosso atual estágio social.

  5. Acho curioso e triste que hoje primeiro se fotografe a tragédia para depois (talvez) ajudar a resolver a situação. É como se cada pessoa estivesse ansiosa para ser repórter amador por um momento.

    Abraços

  6. Quem sabe quando passar tudo isso as pessoas voltem a se importar com outro, quem sabe durante um passeio aleatório pelas calçadas se Sampa, um desconhecido deixe de ser desconhecido, quem sabe…Abraços

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: