09 | um verbo para esse dia: ir…

…escrevo nessa hora quase cheia enquanto o chá esfria na xícara — são quase oito. Ouço a música que dá ritmo a essa noite recém chegada… que trouxe para a minha boca o verbo: ir… 

Eu tenho consciência de que não é nada fácil conjugar esse verbo — tão cheio de movimentos. Eu tento há anos lidar com ele. Olho para o meu passado e lá está ele… a narrar as minhas vivências, determinando toda a minha trajetória. Repito em voz alta para ouvir o som do verbo na frase que é uma espécie de tatuagem na minha pele, por dentro:  é preciso deixar ir… e soa como um mantra a reger cada uma das minhas ações-futuras — freando-as ou não.

Esvaziar-se ou preencher-se de algo.
Em que direção avança esse verbo, afinal?

Recordo uma manhã de sol… eu tinha sete-oito anos. Vesti as roupas de sair, calcei minhas botas vermelhas e fui dar um passeio pelas carrugi, de mãos dadas com C., que depois de alguns passos me disse com sua voz de mulher-adulta: “quando andamos ruas, deixamos toda uma cidade para trás”. Aquilo me intrigou. Num susto, me virei rapidamente para ver o que estava deixando. Fui repreendida por ela: “não faça isso”. Antes que eu dissesse palavra, ela se abaixou para ficar na mesma altura que eu e disse: “deixe o passado ir. Não tente resgatar o que se perdeu. É necessário que algo se perca por ser impossível levar tudo. Ou como saberemos o que realmente é importante? Se tentar levar tudo, vai falhar e, pior, irá perder o que está por vir. Serão duas perdas a se lamentar”.

Nunca me esqueci dessa poderosa frase… ainda a ouço por dentro, numa espécie de eco, junto com outras coisas que mantenho guardadas. E ela tinha razão… não há espaço para tudo. O que fica… é o que realmente importa.

E o segredo é aprender a lidar com o que fica. Cada pessoa que passa por nós, leva e deixa um pouco de si. É impossível participar da vida de alguém — ainda que seja por um mísero segundo — sem deixar qualquer coisa: um sentimento bom ou ruim, uma sensação agradável ou terrível, uma ou duas lembranças. Alguma coisa sempre fica e o que fazemos com isso… faz toda a diferença.

Enquanto caminhávamos, eu ainda tentei me lembrar do que eu tinha visto naqueles primeiros metros de caminhada. Acabei por descobrir que o meu olhar vigiava atentamente o chão em que eu pisava. Eu adorava observar a maneira como o meu pé tocava o piso ao caminhar, percebendo as irregularidades do caminho, onde pisar e de que desviar. Uma espécie de mapa particular… nada escapava. Eu percorria quarteirões inteiros assim. Mas, para atravessar as ruas, eu aprumava o olhar olhos… era justamente quando eu descobria pessoas ao meu redor e me divertia com os desenhos que fazia, por dentro. Em todos esses anos, isso nunca mudou…

Repito o verbo ir uma última vez… enquanto levanto a mão no ar para um aceno que a consciência retribui. Nunca foi fácil passar pela porta, levando pouco ou nada de mim. Mas, sinceramente, difícil também não foi…

Abril [entre tantas coisas] é o mês do B.E.B.A e lá vamos nós…
e eu terei companhia nessa aventura diária
 

Adriana AneliAlê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina
Mariana GouveiaObdulio Nuñes OrtegaRoseli Pedroso

Publicado por Lunna Guedes

lunnaguedes... sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios. detesta dias de sol e ama dias de chuva. ama o outono em qualquer lugar. escreve por escrever somente. seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros... a direção na qual a ponta do grafite avança. ponto final é uma coisa incompreensível. gosta de vírgulas e exclamações.

10 comentários em “09 | um verbo para esse dia: ir…

  1. Você pode até refutar, Lunna, mas foi um dos textos mais fortes e próximos de sua essência que escreveu. Resta saber que essência é essa. Mas só você sabe e tem o direito de saber.

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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