Manhã de sábado com promessas de tempestades

Janeiro/18 (2020)

Gostaria de ter a capacidade de registrar os sentimentos atuais
enquanto ainda sou pequena, pois quando eu crescer
saberei como escrever, mas terei esquecido como era
se sentir pequena. 

— sylvia plath —

Sei com toda certeza que o tempo inexiste… que é apenas uma invenção humana, assim como tantas outras. Poderia fazer uma lista do que criamos ao longo dos tempos para nos aprisionar — regras bobas-tolas e sem sentido. Somos reféns de todas essas invencionices.

Me lembro da primeira vez em que vi alguém juntar as mãos e ressoa na memória  o som da voz da menina… ajoelhada ao lado da cama, com os olhos fechados. Voz de criança, com dentes faltando na boca e aquela alegria natural de quem é feliz por ser quem é. Ela repetia os versos ensinados pela mãe. Dava para sentir que havia sentido-significado… força-entrega naquele repetir-se domado. Aquela criança de sete — talvez oito — anos, confidenciou-me certa manhã: “eu sonhei com Jesus”.  E eu a observei em silêncio por alguns segundos. Teria permanecido muda pelo resto do dia, não fosse a pergunta que ela despejou no ar pouco depois: você já sonhou com ele? Eu respondi com um gesto menor… com a cabeça indo de um lado para o outro numa negativa muda.

Eu sonhava com coisas outras …geralmente com vôos por cima das casas e em direção ao mar. Tinha asas e me juntava às gaivotas. Eu era uma delas e mergulhava fundo nas águas marítimas. Vez ou outra sonhava com o Farol a avisar os barcos da proximidade com a terra. Conversava com o velho homem que lá vivia. Gostava de sua barba branca, seus cabelos bagunçados e suas roupas sempre velhas — tinha para mim, que a calça jeans e a camiseta eram nascidas velhas naquele corpo de músculos e nervos cansados e satisfeitos.

A primeira vez em que entrei em uma Igreja — ainda menina — não foi para orar ou celebrar qualquer coisa de fé. Fui movida pela curiosidade de saber como era o interior da tal Casa de deus. Fiquei um pouco incomodada — inicialmente — com o que encontrei. Um enorme salão com lindos vitrais — em estilo renascentista. Várias fileiras de bancos escuros. Um altar… e aquele Homem machucado na cruz.

O padre apressou-se em se apresentar, certo de que era uma nova integrante para o seu rebanho. E eu — do alto dos meus seis anos — o aborreci com uma observação simples: esse lugar não se parece com uma Casa. Não se parece com nada. Ele sorriu seu nervosismo… e tentou me fazer compreender o sentido de Casa — como se o sentido que trazia em mim estivesse errado — não me convenceu. Acho que C. soube ali que religião não seria para mim — assim como não era para ela.

Eu visitei muitos outros templos depois disso… me incomodei com uns e me encantei com outros. Aqui em São Paulo… me apaixonei pelo templo cristão-católico da Consolação. A Igreja parece emergir do chão em direção ao céu, em meio ao caos da metrópole. Sempre que passo por lá fico a espiar sua arquitetura refeita, seus contornos de pedra e me impressiona a falta de cuidado com a tal Casa de deus. De frente para a Rua — por onde descem os maratonistas da São Silvestre — está o velho relógio que já não se faz ouvir, devido aos muitos sons da cidade. São Paulo é uma cidade barulhenta! A gente se acostuma e encontra qualquer coisa de silêncio. Mas muito se perde. O som dos carrilhões de algumas Igrejas, por exemplo, a anunciar as horas… estão mudos há tempos. Me lembro que eu sabia quando era meio-dia — as mulheres religiosas se benziam com o sinal da cruz e os homens também. Sinal de respeito! Mas a quê-quem? Ninguém nunca soube explicar …era apenas um gesto comum, passado adiante que não ecoava em mim. E de tanto observá-lo… o guardei — como faço com tantas outras coisas.

Quando criança… talvez por não ter noção de tempo — as coisas cabiam dentro de um dia. Eu não usava relógio. Sabia que amanhecia e o meu tempo era pontuado pelos adultos do meu mundo: hora de almoçar-jantar, tomar banho e a famosa e entediada hora de dormir. Dentro de todos esses acontecimentos… havia tempo para ler-escrever-brincar e para ficar quieta em um canto de mundo-meu. Absolutamente nada ficava para o dia seguinte. Eu nem tinha noção desse bendito dia: ontem, hoje e amanhã… eram palavras estranhas. Coisas para os Adultos. Eu sabia quando era sábado-domingo-quinta… dias pautados por rituais-tão-nossos. Sabia quando acontecia Junho… os dias se tornavam mais longos, avançavam noite a dentro. E nem assim a tal hora de dormir mudava de lugar.

O meu primeiro relógio eu ganhei aos doze anos… estilo esportivo para combinar com os agasalhos que vestia. Não me lembro o motivo do presente. Não me senti mais ou menos importante. Não era um caderno-lapiseira ou uma caneta tinteiro. Usei apenas nos primeiros dias e o apito sonoro que o infeliz disparava de hora em hora me aborreceu. Acabou esquecido no fundo da gaveta. Ouvia quando o seu bip lunático anunciava a hora cheia de dentro do silêncio da noite… e sentia vontade de arremessa-lo pela janela.

A noção de tempo veio através do nonno… quando ele me falou de Chronos e Kairos durante uma caminhada. Ao ouvi-lo discursar a respeito daqueles seres mitológicos, tive certeza de que eu e Chronos seríamos dois estranhos. Meu diálogo seria com Kairos… o signore das minhas manhãs de sábado — esse meu-lugar.

Certas certezas aconteceram na minha primeira década de vida… e, foram os muitos a afirmar que eu mudaria de idéia-opinião e me deixaria seduzir por certas verdades humanas. E, prestes a completar minhas quase quatro décadas de vida… sigo fiel a menina-que-fui e as suas sagradas-e-preciosas escolhas de vida. Ainda sonho com gaivotas…

 * esse texto é parte integrante do livro aos sábados publicado
pela Scenarium livros artesanais, em 2020.

Abril [entre tantas coisas] é o mês do B.E.B.A e lá vamos nós…
e eu terei companhia nessa aventura diária
 

Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina
Mariana GouveiaObdulio Nuñes OrtegaRoseli Pedroso

Publicado por Lunna Guedes

lunnaguedes... sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios. detesta dias de sol e ama dias de chuva. ama o outono em qualquer lugar. escreve por escrever somente. seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros... a direção na qual a ponta do grafite avança. ponto final é uma coisa incompreensível. gosta de vírgulas e exclamações.

16 comentários em “Manhã de sábado com promessas de tempestades

  1. Um lindo texto de sábado para alegrar minha manhã de domingo! Confesso que adoro entrar nas igreja mas para admirar a arquitetura, a história em si…
    Abraços

  2. Não sou católica mas adoro entrar nas igrejas para sentir sua energia e conhecer a arquitetura de cada uma. Essa, fica no meu quintal e por meses, desde que mudei, tinha vontade emconhecê-la por dentro e sempre estava de portas cerradas. Frustração. Até que um dia, encontrei aberta e entrei.Belo texto cara mia!

    1. Eu amo entrar em Igrejas, minha cara… aqui em São Paulo eu já me atrevi por várias. Curiosamente, ainda não conheço a de Moema, acredita? Sempre passava por lá e nunca fotografei, nem mesmo me ocorreu entrar…

      1. Opa, já me ofereço para lhe acompanhar. Adoro aquela Igreja (essa eu conheço). Tem catacumbas interessantes. Não sei se ainda permitem visitas. Acho que as coisas serão diferentes depois dessa pandemia. Enfim… é um lugar para se conhecer e os detalhes do gótico local me impressiona…

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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