Alexandra Mendes, a personagem primeira…

lua de papel – livro um (2014)

No dia em que conheci Alexandra — em sua forma futura-pronta, com uma vida inteira vivida —, eu estava na cozinha. Preparava uma receita de bolo, por isso sei que era quinta feira. Ela chegou trazida pelas mãos da menina de asas, que estava de passagem por São Paulo, a caminho do Rio de janeiro, seu destino final.

Fomos apresentadas sem que nossos passados ou feitos fossem mencionados. Apenas dois nomes soltos no ar… a dizer duas personas que acenam com sorrisos opacos, uma ou duas palavras nos lábios e gestos breves na extensão do corpo.

Comecei a observa-la e tomar notas mentais-futuras — hábito antigo que os estudos de psicologia aperfeiçoaram. Se antes era qualquer coisa amadora-superficial, os estudos me orientaram no tracejar de um mapa-perfil. E como nunca fui de inventar personagens… aprender-decifrar pessoas foi essencial para a escritora que forjei em mim, nos dias seguintes.

Foi o que me permitiu reparar que Alexandra era uma figura silenciosa, que tinha os olhos atentos aos próprios movimentos, preocupada em não deixar transparecer o que guardava em si… havia tempos. Acontecia um absurdo controle de suas emoções: tudo cuidadosamente calculado e medido. Nada lhe escapava. Engolia palavras em excesso, recompunha-se em segundos de um gesto indesejado. 

Suas falas eram meticulosas… as consoantes e vogais se encadeavam em pequenas frases. Soube da família ma-ra-vi-lho-sa que tinha: marido-filhos-casa — sua única riqueza. A ouvi conclamar em voz alta: ‘sou uma mulher realizada e feliz’. Disse com a voz-rouca-pouca disse — ao se sentar à mesa para uma xícara de chá — que tinha gostado da casa, do bairro, das pessoas. Soluçou que era um lugar onde gostaria de passar os seus dias-futuros. Suas mãos repetiam gestos conhecidos — pinceladas no ar! Alexandra era uma Artista… plástica.

Eu me interessei mesmo pelo que ela não disse… Alexandra nasceu e cresceu em uma cidade pequena, com pessoas igualmente pequenas. Aprendeu a costurar-bordar-cozinhar… sendo domesticada para ser a Esposa de alguém. Sabia como se sentar e estava acostumada a recusar o que lhe ofereciam. Falava pouco e baixo. Sabia ser comportada e discreta, como se ouvisse a todo o momento a voz da mãe a corrigir seus excessos. Não demonstrava conhecimento, embora fosse uma ávida leitora. Uma boa mulher não deve demonstrar conhecimento para não aborrecer os homens.

Casou-se ainda menina com uma figura de gestos precários e definitivos. Foi alertada que deveria obedecê-lo todos os dias, porque se falhasse, não seria aceita de volta. Com ele se mudou um sem-fim de vezes. O corpo-alma só conheceu pouso após o nascimento do primeiro filho. Pouco depois veio a primeira filha.

Alexandra não sabia o que era o amor. Mas, desconfiava saber muito bem o que desejo… e tentava — desesperadamente — conter o incêndio que se alastrava por dentro, consumindo as paredes do corpo. Havia dias, no entanto, que o ar lhe faltava e a temperatura da pele excedia o aceitável. Perdia o sono e toda a sua paz. Sentia a boca seca e ocorria o delírio: imaginava outra boca na sua; um toque manso a percorrer os seus flancos. Um abalo sísmico atingia o seu corpo e, em desespero, recorria aos ensinamentos da mãe:  juntava as mãos com um terço de pedra, enroscado nos dedos. Com os olhos fechados, repetia todos os versos de que se lembrava.

Mas no meio da prece, uma figura emergia poderosa, atiçando vontades: um gesto no fundo do espelho. Batom vermelho a desenhar uma boca e a língua a provocar a libido em movimentos lentos e úmidos pelos lábios cor de carne… gesto que ela repetia com o pincel na tela branca.

Abril [entre tantas coisas] é o mês do B.E.B.A e lá vamos nós…
e eu terei companhia nessa aventura diária
 

Adriana AneliAlê Helga Claudia Leonardi – Darlene Regina
Mariana GouveiaObdulio Nuñes OrtegaRoseli Pedroso

Publicado por Lunna Guedes

lunnaguedes... sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios. detesta dias de sol e ama dias de chuva. ama o outono em qualquer lugar. escreve por escrever somente. seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros... a direção na qual a ponta do grafite avança. ponto final é uma coisa incompreensível. gosta de vírgulas e exclamações.

12 comentários em “Alexandra Mendes, a personagem primeira…

  1. Adoro a Alexandra… em alguns momentos a odeio…mas, foi a personagem que peguei na mão e levei comigo vida afora.

    1. Eu confesso que tive dificuldades com ela, minha cara. Queria encontrar um meio para desviá-la de seu futuro, mas não era possível. Me lembro que você comentou que uma leitura disse a você, mas ela vai aceitar e fim? Pois é, eu tentei, mas com um futuro pronto, não havia possibilidade outra… rs

  2. Fico a imaginar se é real! Seus escritos sempre deixam em duvida… Senti dó, uma pessoa cheia de vida mas ao mesmo tempo tão retraída, pesa em uma gaiola com nome e sobrenome…

  3. Não tenho palavras para expressar o quão gostoso é saber como você e Alexandra se encontraram nesse mundo… É o tipo de história que sempre vou amar escutar, na verdade, porque esse tipo de construção acontece muito dessa forma: mais descobrindo do que realmente criando.

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: