Manhã de sábado sem sol, sem chuva… apenas nuvens!

Janeiro/25

Metrô cheio… e eu em pé, no canto oposto a tudo e todos… a me equilibrar ao som de Elis cantarolava — “uma gente que ri quando deve chorar e não vivi, apenas aguenta” e as páginas do pequeno livro de Patti Smith e seu mapa particular de vivências literárias… entre vinte e setenta e tantos.

Ela escreve para si… na primeira pessoa e vai narrando seus movimentos urbanos pela cidade. Reconheço lugares-endereços-pessoas. É um convite para me afastar da realidade e mergulhar no seu universo. Vou de Nova Iorque à Paris de uma página a outra.

E, de repente, bem no meio de uma frase… estou dentro do vagão — de onde nunca sai — e a pensar nas minhas próprias somas. Essa é a minha primeira década inteira, em São Paulo. A anterior foi pela metade… e foi vivida entre idas e vindas. 

Acontece que eu não tinha certeza de que ficaria. Apenas repetia o ritual dos outros estrangeiros antes de mim — estava de passagem. E para onde eu iria, daqui? Hoje parece ser resposta fácil. Mas naqueles dias de agosto — vinte e seis-sete-oito nove —, era tudo e nada. Aqui e lá. Havia um tanto faz tatuado em alguma parte do meu corpo — que ecoava dentro e escorria pelos cantos da matéria.

Eu queria-pretendia conjugar verbos, provar substantivos e saborear adjetivos. Estava em transição… de uma vida para a outra, como Patti a migrar entre oceanos.

Ouvi o som da campainha do vagão… e a indicação do meu destino. Um dos meus bairros favoritos, nessa cidade. Pisei nos degraus da escada em movimento e subi observando a realidade matinal de uma cidade que dizem — “não para”.

Repeti por dentro — como um eco eu chega ao lado de fora —, “uma década inteira” calculando o que vivi e não vivi. Um punhado de desaforos ganhou forma e eu rememorei os versos do poema de Mário de Andrade.

Me distrai com o ritmo dos versos… enquanto avançava pelas calçadas irregulares do bairro, com suas ruas e alamedas com nome de pássaros: Sabiá, Arapanés, Lavandisca, Jauaperi…

Chego ao café entre esquinas e depois de acenos-diálogos-curtos vou me sentar na mesa do canto, de onde espio o movimento de pessoas do lado de fora. Reparo que há algo estranho no ar. Tento me convencer que sou eu e não os outros, o mundo, a realidade. Meu nome ressoa no ar… minha xícara de café está pronta e eu posso me dedicar aos rituais — continuar a leitura… retornando à Paris, olhando sonolenta pela janela do trem, observando a paisagem que muda. Avisto os muros grafitados na periferia parisiense… e recordo as paredes dos prédios do centro-velho de Sampa.

No dia seguinte a minha chegada… cruzei a extensão do Viaduto do Chá com a lentidão habitual. O ano era dois mil e dois. Com os olhos sepultados no alto, consumi as anatomias irregulares dos prédios grudados uns nos outros. Me diverti ao ver passar um Elétrico vermelho e descobri, do outro lado da rua, um Templo sagrado — o Teatro Municipal… carente de aplausos e cercado por tapumes feios. Segui pelas ruas labirínticas… encontrei mosteiros, boulevares e, tropecei na fisionomia rude do Martinelli, em estado de abandono, com suas portas trancadas por correntes e cadeados. Tentei enxergar através da sujeira do vidro, ouvir sons… nada! Uma forte ventania varreu a rua… causando tumulto nas vestimentas coloridas de uma gente sem norte, apressada que me fez lembrar do estouro de uma manada de zebus…

A tarde caiu… as nuvens escuras cobriram todo o céu — tão distante dos olhos, encolhido entre os edifícios sujos… em poucos segundos, pipocaram guarda-chuvas, abrindo-se um por cima dos outros — ligeiros. Raios cuspiam suas descargas elétricas em riscos irregulares-rápidos pelos céus e os trovões imitando uma partida de boliche. Em poucos segundos, as ruas estavam vazias, como se alguém tivesse removido todas as peças do tabuleiro.

Vestindo contrários, enfiei as mãos no bolso da calça e caminhei lentamente por aqueles contornos estranhamente desérticos, apreciando tudo e nada. Cheguei ao Viaduto do Chá… um curioso traço por cima do Vale, onde parei para apreciar o lugar e acabei surpreendida pelo precioso instante de silêncio-quietude que antecede às tempestades. O vento parou. Um clarão se impôs por cima das vilas e aldeias de ninguém. A falsa calma da natureza… quando a morte alcança um corpo doente e uma melhora inesperada acontece. São os avisos que nem sempre compreendemos. O último suspiro de um corpo. O respeito a vida-morte. O último passo… o tempo exato de um adeus.

Fechei os meus olhos e esperei… senti as primeiras gotas na pele, rapidamente convergidas em milhares. A chuva caiu forte… molhando a minha pele-alma-memória.

E lá se vão quase duas décadas…

De volta ao café, bebo um pesado gole e antes de voltar a leitura… escrevo! Afinal, foi exatamente o que eu vim fazer aqui.

 * esse texto é parte integrante do livro aos sábados
publicado pela Scenarium livros artesanais, em 2020.

Abril [entre tantas coisas] é o mês do B.E.B.A e lá vamos nós…
e eu terei companhia nessa aventura diária

Adriana AneliAlê HelgaClaudia Leonardi
Mariana GouveiaObdulio Nuñes OrtegaRoseli Pedroso

Publicado por Lunna

É sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros. Paciência lhe falta desde a infância. Mas sobra-lhe sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecia o silêncio e falas cheias. As que se repetem com facilidade de boca em boca despreza... Lacaniana por opção.... E completamente apaixonada por mulheres que usam a escrita como uma navalha afiada que corta enquanto é carne. Escreve à noite e reescreve pelas manhãs. Gosta de calçadas e corujas. Anda sozinha ou acompanhada, tudo depende da fase... minguante é a sua preferida!

13 comentários em “Manhã de sábado sem sol, sem chuva… apenas nuvens!

  1. Eu adoro esses seus textos que falam do cotidiano, quase consigo visualizar o que você está contando, como se eu mesma estivesse vivendo. Eu vou (ia, porque atualmente mal tenho ido até a esquina) a SP apenas a passeio, tenho parentes e amigos na cidade e sempre gostei dessas visitas, mas sempre repeti que não saberia viver aí, a cidade é muito fora do meu ritmo, muita gente, muita informação, muita coisa acontecendo o tempo todo e essa sensação sempre me incomoda depois de passar alguns dias na cidade. Mas às vezes, em alguns textos seus, vejo tanta poesia que até me parece outra cidade.

    1. São Paulo é essa loucura, minha cara… não é todos que se adequam a essa insanidade.
      Eu tenho esse caso de amor a segunda vista. A Primeira foi diferente. Acho que já escrevi sobre isso… era tudo muito cinza e grosseiro.
      Mas, depois me rendi ao charme e a elegância dessa velha senhora. rs

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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