* Nada é tão líquido assim…

Remexia em coisas antigas no final da tarde de ontem, com a alma afundada em melancolia, e acabei por encontrar uma velha caixa de madeira, que fez abrir o casulo da memória.

Relembrei uma viagem, feita na companhia de C, — percorremos as ruas estreitas, de uma pequena cidade alemã — afundada entre montanhas — , com suas casinhas iguais e grudadas umas nas outras. Toda a cidade começava e terminava na praça central, com seus bancos de pedras, árvores centenárias, e uma velha Capela.

Acontecia ali um festival agrícola — tradição local — , com pequenas barracas coloridas espalhadas pelo traçado da praça, onde se vendia coisas produzidas na cidade… e na região. Assistimos a danças e aplaudimos um grupo musical, que fazia bastante barulho com seus instrumentos. Compramos potes de geléia, caixinhas com bombons artesanais, um caderno com capa feita a partir de cascas de árvores… e uma caixa de madeira, feita por um homem que fez quentão de mencionar que era o quinto de sua geração a trabalhar com artesanato. Exibiu — orgulhoso — os diferentes modelos de baús, caixas de vinho e nos divertimos — não tanto quanto ele — tentando pronunciar o sobrenome cheio de consoantes e apenas uma vogal que se repetia.

Acabei por usar a tal caixa para guardar a correspondência do meu primeiro correspondente. Gostava imenso — ao abrí-la —, de sentir o aroma de papel, cola e madeira e provar da textura dos envelopes na ponta dos dedos. Virou um ritual… rememorar a chegada de alguns deles.

Eu nunca esperei receber cartas, embora acompanhasse a emoção de C., nas manhãs de sábado — quando abria a correspondência especial. Era um bonito ritual… que a fazia sorrir-chorar e suspirar entre linhas.

Ao espalhar os envelopes, por cima da mesa, na varanda, recordei que escrevíamos com frequência voraz e as datas do carimbo postal estão ali a marcar a passagem do tempo através das nossas narrativas incansáveis. E uma pergunta saltou do abismo que sou: quando foi que nos perdemos?

Na primeira missiva… recebi um poema de Eliot, seguidas por um punhado de frases eufóricas, de um menino-homem que achou melhor se apresentar. Como se eu não o soubesse através do sorriso imenso, que era para mim, uma espécie de trilha de migalhas de pão para a figura que mantinha o olhar sempre baixo, rente ao chão, como se quisesse evitar que enxergássemos dentro. Ele alegou, nas linhas escritas, não ser uma pessoa triste, embora fosse essa a impressão que deixava nos olhos de quem se atrevesse a encará-lo frente a frente.

Li tantas vezes aquelas linhas, investigando minhas impressões a respeito dele. Eu não o achava triste. Tinha certeza de que era mais uma pessoa presa dentro de si. Reparava que ele tentava domar os gestos. Acreditava que era o certo a fazer: sufocar certas emoções.

Foi para essa missiva que me voltei no dia seguinte a notícia do ponto final inserido em sua trajetória. Recordei — e o faço de novo, agora — os nossos verões. Realizo o ritual de fazer as malas, embarcar, apreciar a paisagem, conhecer figuras inéditas, mentir a elas sobre o meu nome-realidade e… o encontro no meio da plataforma, com os braços abertos. Como se ele tivesse se cansado de sua eternidade e vindo ao meu encontro.

Ao folhear a nós dois, nesse fim de tarde-cansado-de-abril-outono-nublado… o tenho de volta por míseros segundos e juntos, com as mãos encaixadas por cima da mesa, voltamos aos nossos versos favoritos do * homem-poeta-inglês-eliot… que ele gentilmente introduziu em minha vida — ‘A meia-noite chacoalha a memória / Como um louco chacoalha um gerânio morto’

| leia ao som da música favorita do meu correspondente primeiro |

Abril [entre tantas coisas] é o mês do B.E.B.A e lá vamos nós…
e eu terei companhia nessa aventura diária
 
Adriana AneliAlê HelgaClaudia Leonardi
Mariana GouveiaObdulio Nuñes OrtegaRoseli Pedroso

Publicado por Lunna Guedes

lunnaguedes... sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios. detesta dias de sol e ama dias de chuva. ama o outono em qualquer lugar. escreve por escrever somente. seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros... a direção na qual a ponta do grafite avança. ponto final é uma coisa incompreensível. gosta de vírgulas e exclamações.

11 comentários em “* Nada é tão líquido assim…

  1. Tenho uma verdadeira paixão por cartas, o ritual todo, escrever, esperar, receber. Fazia parte de todos os clubes de correspondência que podia, até meu pai cortar a brincadeira pelo custo que estava gerando. Eram tempos mais escassos.

    E ao ler a tua narrativa, voltei no tempo e me lembrei de cada uma das minhas correspondências. Fiquei emocionada e muito feliz.

    O tempo não entra em casas onde se escrevem cartas.
    Apenas comemora o fato de terem sido escritas.

    Grata querida minha

  2. Catarina/Lu minha flor, que texto!

    Eu fiquei aqui, bem quietinha, a imaginar a menina que você foi em meio aos papéis, escrevendo suas cartinhas, esperando pela resposta e devorando linhas e mais linhas.

    Você só podia pertencer mesmo ao tempo das correspondências e que prazer-honra ser o destino de seus envelopes nesse tempo atual. Que alegria e amei saber como Eliot entrou em sua vida. Eu o conheci através de você, aqui mesmo ou no outro blog (nem me lembro mais).

    Eu vou ler de novo e de novo esse post, ah vou
    bisous

  3. Como você mesma diz: eu gosto imenso de ler as suas memórias.
    Sei lá, parece que são minhas também, sabe?
    E que delícia deve ser escrever cartas. Nunca fiz isso. Nem saberia por onde começar ou a quem escrever.

    Bjs

  4. Que post mais lindo, que texto mais delicioso.
    Adorei ler e reli ao som da música do Rod.
    Eu sempre tive o privilégio de ter correspondentes, querida Lu.
    E alguns ainda me enviam e-mails, não é a mesma coisa, mas é o que temo permite.
    Acho e posso estar enganada que a correspondência a incentivou a escrever.
    Ah eu me emocionei aqui com o desfecho da sua bela narrativa e quanto a pergunta que surgiu. Tenho par mim que nunca se perderam um do outro. As cartas estão aí para que o reencontro aconteça.

    meu melhor abraço a você.

  5. Queria ter vivido na época das cartas. Devia ser emocionante acordar de manhã, com saudades imensas de alguém tão querido, e ler em versos ou parágrafos as histórias que ele escrevia. Talvez um dia eu consiga experienciar momentos com uma cartinha na mão ❤️

  6. Lunna, em minha adolescência, troquei muitas correspondências com jovens de outros países. Foi um período de descobertas, culturas… A emoção em aguardar a próxima carta era boa demais! Adorei essa passagem e as lembranças que guardamos são para sempre, cara mia. E essa trilha sonora então? Ah…

  7. O que sempre gostei nas cartas é que nelas existimos nas palavras. Nelas nossa essência cabe no conjunto de letras e pontuações que atravessam a janela da alma e essa, definitivamente, não subjaz ao tempo.

    Sensacional Lunna!
    Gr. BJ.!

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