Manhã de sábado… a caminho da tarde

Fevereiro/01 (2020)

Me surpreendi — há pouco — com o olhar de uma menina a bordo de seus sete ou oito anos… talvez mais — talvez menos. Olhar curioso-faminto… de quem avista um pouco de si no outro. Reconheci a mim mesma, num tempo anterior a esse, quando me escondia nos cantos, afundava o corpo na cadeira e, devido à pouca altura, era fácil desaparecer, me tornar invisível.

Sempre havia alguma figura que saltava aos meus olhos… despertando o meu interesse. Uma curiosidade natural se acendia em minha amálgama que se lançava ao mar em busca do que recolher-guardar.

——— abre aspas ——— 
Certa vez eu sorri para uma jovem em um café… ela tinha olhos negros feito a noite, uma pele branca feito o dia e estava tão solta que se parecia com a última peça de um quebra cabeça, pronto para formar o desenho de uma paisagem qualquer.
O sorriso saiu de meus lábios espontaneamente e a alcançou. Não sei o que a motivou a retribuir e acenar… mas por míseros segundos fomos o mundo uma da outra e eu não a queria na condição de estranha — alguém que deixaria de existir em minha realidade tão logo terminasse seu refrigerante e fosse arrastada para outro cenário, pelo punhado de amigas que a acompanhava. 
——— fecha aspas ———

Eu nunca fui dada a heróis… os pares que encontrei pelo caminho sempre foram criaturas estranhas ou figuras mortas. Nunca me perturbou a impossibilidade. Nas vezes em que estive a poucos metros de figuras divinas — como Susan Sontag, em Nova Iorque — recuei… E não foi por temê-la, mas por saber que certas figuras são apenas para o nosso imaginário. 

Não sei o que há em mim que despertou o interesse da menina de olhos acastanhados, que enquanto degustava sua bebida — na mesa ao lado — se esticava por inteiro para saber o que eu fazia. Eu poderia imaginar milhares de motivos, mas me concentrei em percebê-la, como quem observava o próprio reflexo no espelho…

Retribui o sorriso que veio até mim, como fizeram comigo em outro tempo-vida — foi como agradecer a mim mesma, por me permitir alcançar alguém ontem-hoje… consciente de que certos momentos, encontros ecoam em nós e nos ajudam na delicada construção do Ser que seremos-somos. 

Ao tocá-la com um gesto não calculado, toquei também a mim.

 * esse texto é parte integrante do livro aos sábados publicado pela Scenarium livros artesanais, em 2020.

Abril [entre tantas coisas] é o mês do B.E.B.A e lá vamos nós…
e eu terei companhia nessa aventura diária 

Adriana Aneli – Alê HelgaClaudia Leonardi
Mariana GouveiaObdulio Nuñes Ortega – Roseli Pedroso

Publicado por Lunna

É sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros. Paciência lhe falta desde a infância. Mas sobra-lhe sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecia o silêncio e falas cheias. As que se repetem com facilidade de boca em boca despreza... Lacaniana por opção.... E completamente apaixonada por mulheres que usam a escrita como uma navalha afiada que corta enquanto é carne. Escreve à noite e reescreve pelas manhãs. Gosta de calçadas e corujas. Anda sozinha ou acompanhada, tudo depende da fase... minguante é a sua preferida!

5 comentários em “Manhã de sábado… a caminho da tarde

  1. Existem momentos fugazes que ficam na memória. Me lembro de alguns, são conexões inexplicáveis, pena que são rápidas, mas não deixam de ser marcantes.

  2. Esse belo texto de Aos Sábados me ajudou a preencher um domingo de fevereiro junto só ao mar. Talvez seja a única maneira de levar a escritora Lunna para a areia.

  3. Me reconheci nesse trecho “quando me escondia nos cantos, afundava o corpo na cadeira e, devido à pouca altura, era fácil desaparecer, me tornar invisível.” Fui uma criança extremamente tímida e tudo que eu queria era ficar invisível. Mas diferente das garotas do texto, a que sorriu pra você e você criança, dificilmente eu sorriria para alguém assim. Na verdade, eu talvez nem estaria prestando atenção as pessoas ao meu redor, porque vivia muito mais voltada e entretida com meu mundo interior, criado pela minha imaginação.

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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