O último livro comprado

Uma das coisas que eu mais gostava de fazer… era sair de casa e caminhar calçadas com destino a uma livraria. Nem sempre tinha o título de um livro em mente e seguia sem Norte, com o meu caminhar despreocupado, consciente de que ao chegar lá, seria guiada por uma divindade qualquer. Porque se existe um deus, certamente, ele vive em uma Livraria ou Biblioteca e passa sua fatia de eternidade a ler bons livros. Seria o único ser vivo com bastante tempo para isso.

A última vez que sai de casa com destino a uma livraria foi antes da pandemia. Havia me mudado naquela semana e ainda estava a dar lugar as coisas todas… a encontrar-me nos espaços-cantos do apartamento. Fiz uma pausa para uma xícara de chá… e aproveitei para visitar o IG da Companhia das Letras… soube do lançamento da nova edição de 1984. Liguei para a Livraria da Villa do bairro… e soube que já estava em suas prateleiras a edição especial, de capa dura.

Em menos de cinco minutos eu estava a caminho. Naqueles dias, era tão simples ir às ruas. Sem máscaras ou maiores cuidados e preocupações. Foi a última vez que percorri calçadas de maneira tranquila-despreocupada-solta-leve. Quis o universo que o destino fosse justamente uma Livraria… numa noite de sábado fria. Ainda era verão. Mas, uma frente fria nos aproximou do outono.

Fiz algumas fotos pelo caminho… descobrimos a Praça do cão Zeus, um labrador que escolheu viver seus dias nos arredores da Igreja, sendo cuidado pelos amigos que fez. Encontrei também um prédio antigo, solitário e surpreendentemente bem conservado… por fora. E, por fim, chegamos a Vila com suas ilhas de livros listados em lançamentos e os mais lidos. Não sou muito fã desse “lugar”. Mas como fica no meio do caminho (da entrada) sempre espio com alguns descaso… apenas para saber o que não irei ler-comprar. Se todo mundo está a ler um livro… com certeza eu estarei a ler outro.

Peguei minha encomenda das mãos de um simpático atendente, que ao ver a minha satisfação em estar de posse do clássico e repaginado 1984, quis saber: “você já leu o quarto de despejo?“. Eu já tinha ouvido falar do livro e de sua autora. Se não me engano em uma conversa com uma das Bibliotecárias da Biblioteca Mário de Andrade, onde certamente o folheei rapidamente, lendo uma ou outra página. Nada além disso…

Em dois passos, o atendente foi e voltou daquela maldita ilha de livros, com o exemplar, em mãos, como se carregasse o próprio cuore. Uma cena típica de um desses filmes em que uma livraria é a o cenário da trama. Se você ainda não assistiu A livraria, eu recomendo…

Quarto de despejo, diário de uma favelada… foi lançado em 1960 e correu o mundo — por ser uma espécie de literatura-verdade, que relata o cotidiano cruel de uma mulher que sobrevive como catadora de papel e faz o possível para criar os filhos na favela do Canindé, em São Paulo, em meio a um ambiente de extrema pobreza, desigualdade de classe, de gênero e de raça. A narrativa impressiona por escancarar a realidade dura de quem não tem amanhã, mas que resiste a miséria, a violência e da fome.

O livro que completa sessenta anos de seu lançamento… nos mostra que mesmo tendo sido escrito na década de 1950, o relato não perdeu sua atualidade. Segue sendo (infelizmente) a narrativa de muitos brasileiros.

E você, qual foi sua última aquisição literária?

Maratona literária interative-se de maio
Isabelle Brum – Mariana Gouveia – Roseli Pedroso

Publicado por Lunna Guedes

lunnaguedes... sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios. detesta dias de sol e ama dias de chuva. ama o outono em qualquer lugar. escreve por escrever somente. seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros... a direção na qual a ponta do grafite avança. ponto final é uma coisa incompreensível. gosta de vírgulas e exclamações.

9 comentários em “O último livro comprado

  1. Bons tempos em que podíamos sair despreocupadamente a caminhar pelas ruas…melhor ainda se fosse a caminho de uma livraria. Infelizmente, aqui na minha cidade só temos uma, mas com pouca diversidade e preços fora da realidade. Então, minhas compras sempre foram online mesmo, pela facilidade, pelo preço e por conseguir encontrar livros que eu não achava por aqui. E respondendo a pergunta do post, minhas últimas aquisições foram: “Drácula”, em uma edição maravilhosa da editora Pandorga e “Depois”, a obra mais recente do meu amado Stephen King.

  2. Faz muito tempo que não compro livros em livraria!!! Já li Quarto de Despejo, literalmente uma tapa na cara, faz você perceber os detalhes dentro do seu dia a dia , e o outro um clássico, tenho uma edição bem mais antiga que comprei em um sebo! Ambos tão atuais…
    Abraços

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