Um livro esquecido na prateleira

Passei algum tempo em pé, a observar os meus livros, enfileirados nas caixas de feira, convertidas em prateleiras… porque eu sou o tipo de leitora que não dá paz aos seus livros. Sempre os levo para algum canto — do sofá, da mesa, da mesinha de cabeceira. Gosto de tê-los ao alcance das mãos, principalmente quando estou a trabalhar em projetos de livros.
Na minha prateleira não tem exemplares que não serão lidos. Até tenho uma enorme pilha de livros por ler. Mas não os misturo com os que já li e que, certamente, voltarei a ler. Os deixo num canto e tenho a impressão que, às vezes, me olham e anunciam a altura da pilha… algo bastante constrangedor. Mas, imagino que não eu não sou a única a passar por esse tipo de situação.
Eu não sou colecionadora de livros e nem tenho a pretensão de ter uma estante com milhões de exemplares. Gostava imenso das Bibliotecas de mio nonno e babo, mas nunca desejei ter uma. Já pensei em morar em uma Biblioteca ou na Livraria da Praça, que era a casa do simpático Signore M., e sua deliciosa poltrona de retalhos.
Ao pensar esse texto, passeei por livros que eu produzi e que retirei do catálogo da Scenarium — eu não acertei em todas as publicações… principalmente nas primeiras edições feitas. Mas foram um excelente aprendizado para a Editora que sou. E me lembrei por fim… dos livros que não consegui ler. Tenho uma pequena lista com autores e títulos que já me assombraram e para a qual dou de ombros. Mas, ao observar a ordem dos livros de poesias — de Borges à Mário de Andrade, esbarrei — para o meu espanto –, no exemplar de Caeiro, que foi um presente…
Eu havia adquirido o exemplar de Álvaro de Campos e o Livro do Desassossego — leitura constante por aqui –, e ficou faltando o livro do Mestre Caeiro, que foi a primeira pessoa de Fernando com que eu tive contato. Gosto imenso de seu poema O Guardador de Rebanhos e da simplicidade na escrita-versos do homem. Durante anos, foi leitura essencial. Mas veio o senhor Campos com toda a sua Metafísica de poesias que me fizeram peças de um quebra cabeças impossível de se montar.
Caeiro perdeu espaço e acabou esquecido na prateleira… abandonando entre Borges e Helder. Hoje, no entanto, passeia comigo pelos cantos da casa. Nada como uma maratona literária para reparar enganos e aproveito o dia nublado-chuvoso e frio para saborear os versos entre pesados goles de chocolate quente…

E você, qual livro esqueceu na sua prateleira?

Maratona literária interative-se de maio
Alê Helga – Isabelle Brum – Mariana Gouveia 
Obdulio Nuñes Ortega– Roseli Pedroso

Publicado por Lunna

É sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros. Paciência lhe falta desde a infância. Mas sobra-lhe sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecia o silêncio e falas cheias. As que se repetem com facilidade de boca em boca despreza... Lacaniana por opção.... E completamente apaixonada por mulheres que usam a escrita como uma navalha afiada que corta enquanto é carne. Escreve à noite e reescreve pelas manhãs. Gosta de calçadas e corujas. Anda sozinha ou acompanhada, tudo depende da fase... minguante é a sua preferida!

9 comentários em “Um livro esquecido na prateleira

    1. No meu caso essa premissa não se sustenta, meu caro. Porque Álvaro de Campos é presença sempre constante. Caeiro não o lia há tempos e Ricardo Reis há um década inteira. Talvez mais. Acho que a colisão com Campos tornou as outras pessoas menores ou quase inexistentes em mim. Ontem, ao folhear a obra completa dele, me emocionou mais ver as correções feitas nos manuscritos que os próprios poemas

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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