escrito por um homem

Nem precisei observar as minhas caixas de livro ou o meu baú para escrever esse texto. Mas o deixei para o fim da noite porque o dia foi longo e eu estava ocupada com o projeto de um livro, de poesias.
Pensei ao longo do dia e suas horas desarticuladas, a pensar nos livros-lidos. Como já havia dito no posto anterior… leio mais mulheres e isso não desmerece os homens, pelo contrário, me faz mais exigente.
Enquanto Editora, publiquei alguns homens… Manoel Gonçalves, o Manogon-poeta. Emerson Braga e seu Muiraquitã, um livro de contos onde as personagens são mulheres presentes no cotidiano do Autor. Obdulio Nunes Ortega das crônicas, confissões e os contos que narram a vida urbana-cotidiana nossa de todo dia. Anselmo Vasconcelos e sua prosa ficcional e Caetano Lagrasta dos contos e das poesias.
E poderia facilmente escolher qualquer um dos livros editados por mim e publicados pela Scenarium. São excelentes, bem amarrados, pautados por emoções certeiras e vivências contemporâneas — fossem diferentes… não os publicaria.
Mas, escolhi um livro que chegou pouco antes da pandemia. O encomendei em uma livraria recém inaugurada a época… na Vila Madalena. Estive lá uma única vez, num dia de chuva, fim de tarde, quase com hora marcada.
O livro anunciado em dezembro — Poemas de T.S.Eliot, obra completa — pela Companhia das Letras, com uma capa vermelha… atraiu o meu olhar, despertou o meu interesse e eu fui buscá-lo.
Eliot revolucionou a poesia com sua escrita musical. Em 1943 publicou Four quartets, que eu já li um sem-fim de vezes desde a primeira vez que se ofereceu aos meus olhos.
O poeta me acompanha desde os meus onze anos, quando fomos — formalmente — apresentados em uma missiva. Me apaixonei pela narrativa de um homem que surpreendeu o cenário literário, com o primeiro poema publicado — A canção de amor de Alfred Prufrock. Não é o meu favorito, mas gosto imenso do personagem que lamenta as oportunidades perdidas ao longo da vida.
The wast land — um dos meus preferidos — foi renegado por Eliot. Não era — segundo a biografia escrita por Peter Ackroyd, publicada em 1980 — o melhor momento da vida pessoal do homem-poeta. O mundo e a Inglaterra de Eliot vivia o pós guerra, o que serviu para transformar o poema numa espécie de marco na literatura. Ao traduzir wast… as possibilidades vão de: deserto, êrmo, desabitado, despovoado, bravio, inculto a inútil. E cada tradutor apoiou-se na palavra que considerou melhor para dar voz em português ao poema. Ivan Junqueira optou por A terra desolada… Caetano Galindo preferiu A terra devastada.. e Paulo Mendes Campos usou A terra inútil… justificando-se: “não consegui achar melhor palavra”.
Não deve ser fácil traduziu Eliot, que experimentou formas e fugiu das derivações românticas comuns à sua época. Trabalhou com voracidade o ritmo e a sonoridade e surpreendeu — ainda jovem — ao redigir texto com tamanha força, algo que nunca faltou à sua poesia, que não é para ser lida ou compreendida em único gole. É para se degustar aos poucos, ao longo da vida.
Em Poemas temos uma edição bilíngue, com tradução de Caetano Galindo que soube há pouco, causou polêmico à época do lançamento, devido a explicação dada para o que ele chamou de solução encontrada para a rima Michelangelo do poema de Eliot.

Time present and time past
Are both perhaps presente in time future,
And time future contained in time past


Burnt Norton. p. 224

E você, qual autor lê?

Maratona literária interative-se de maio
 Isabelle Brum – Mariana GouveiaObdulio Nuñes Ortega

Publicado por Lunna

É sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros. Paciência lhe falta desde a infância. Mas sobra-lhe sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecia o silêncio e falas cheias. As que se repetem com facilidade de boca em boca despreza... Lacaniana por opção.... E completamente apaixonada por mulheres que usam a escrita como uma navalha afiada que corta enquanto é carne. Escreve à noite e reescreve pelas manhãs. Gosta de calçadas e corujas. Anda sozinha ou acompanhada, tudo depende da fase... minguante é a sua preferida!

5 comentários em “escrito por um homem

  1. Eu escrevendo esse post seria bem clichê e meu primeiro pensamento seria para meu amado Stephen King, não a toa um dos meu favoritos. Se pensasse um pouquinho, teria que citar também Tolkien e Bernard Cornwell, autores de histórias que eu leio e releio infinitas vezes, daquelas que ao passar casualmente pela estante, pego o livro e abro em alguma página aleatória apenas para reviver um trecho da história e visitar seus personagens. Poderia citar também George Orwell, minha leitura do momento com seu tão atual 1984.
    Quanto a T.S. Eliot, confesso nunca ter lido nada dele, conheço apenas por citações em outros livros que li.

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