Quando escreve, descalça-se

…”eu gosto da sombra. porque a sombra permite
um segundo corpo onde possa ser tocado.
um desnível de realidade por vezes absurda
onde nem sempre nos conseguimos entender”…

Fernando Dinis

Gosto de começar as coisas pelo fim… o último dia, a última hora, a última página porque eu sou a que lê — primeiro — o último capítulo do livro e assiste a filmes antigos — centenas de vezes, repetindo diálogos como se a personagem em cena, fosse eu.

…é o único caminhar seguro que me permito!

Eu tenho fases…  e preciso mudar os móveis de lugar. Às vezes, me desloco de um canto para o outro apenas pelo prazer de me sentir em movimento. Atravesso ruas, dobro esquinas, ando calçadas… de um cômodo a outro. Coisas paradas-estáticas perturbam o meu espirito.

…o caminhar, às vezes, precisa acontecer por lugares sem rastros!

Gosto de tirar o pó das prateleiras em dias de chuva — numa manhã sábado de preferência, como parte de um ritual que me antecede. Organizo os meus livros, numa ordem natural-particular… e enquanto faço isso viro páginas antigas-nova-recém-chegadas… como se observasse a minha própria história.

…tenho vários livros que não saem de mim e eu também não saio deles.

Gosto de olhar no fundo de espelho e perceber que eu mudei-muito nesses anos todos… não gosto mais de porta-retratos por cima dos móveis. Incomoda-me ver certas fotografias e não ver outras. Não recuso as lembranças dos que passaram por mim. A vida tem seus motivos e eu, as minhas, para deixá-los ir. Esvaziei minhas gavetas — algo que eu julgava impossível — e libertei um bom punhado de escritos que perderam o sentido. Voltei a escrever diários e consegui levá-los até a última linha… sem abandoná-los, rasgá-los ou queimá-los!

...achei que ficaria marcada como colecionadora de coisas inacabadas.

Gosto de saber que antes de me sentar aqui e… voltar a escrever, fui a Menina no sótão… com escritos menores, na primeira pessoa, impulsionada pelo desejo de escrever. Depois fui Acqua… em estado líquido, a dissolver-me em narrativas sobre a realidade do mundo e suas coisas demasiadas humanas. Eu me diverti um bocado ao trovejar minhas opiniões. Mas, eu me cansei de olhar tanto para fora e voltei para o lugar-cenário primeiro… Telhados vermelhos pelo prazer de escrever nas paredes da casa-corpo. E tantos outros mais. Abri e fechei uma dúzia de blogues…

…eram ensaios-premissas futuras para atracar nesse porto, em que estou!

Gosto de Catarina… que, enquanto personagem surgiu dentro de uma manhã de sábado — esse meu lugar —, em julho de 2013. Eu vasculhava um velho baú de madeira-artesanal quando reencontrei um envelope vermelho-sangue. Lá dentro a missiva destinada a mim… por essa figura que passou pela minha vida, feito a tempestade, que era. Passei a escrever na terceira pessoa, a partir da pessoa que éramos… Catarina e eu! Um alterego ou apenas um fantasma com quem conversar nas manhãs de sábado… O exercício final — tão necessário — para entender-me enquanto persona que escreve-cria-inventa e se equilibra entre o real e o imaginário.

…a transição da infância-juventude à fase adulta.

E lá se vão oito anos, parece pouco, mas depende de onde e como se olha.

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

2 comentários em “Quando escreve, descalça-se

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